Executivos estrangeiros aprendem a liderar em favelas brasileiras

Silvia Ribeiro
Do G1, em São Paulo
 

Tatiana Cardeal

Executivos e jovens da ONG Rede Cultural Beija-Flor em Diadema (Foto: Tatiana Cardeal/Divulgação)

Executivos estrangeiros estão deixando seus escritórios na Europa e nos Estados Unidos para vivenciar os problemas sociais brasileiros “in loco”, como forma de desenvolver habilidades para o trabalho. Aqui, eles vêem com os próprios olhos a realidade das favelas, têm encontros com pais-de-santo e líderes indígenas e se hospedam em hotéis rústicos na Floresta Amazônia, sem direito a banho quente.

“Não podemos entender o mundo se ficarmos em casa. Achamos que o Brasil é importante para o futuro do mundo”, justifica a inglesa Fields Wicker-Miurin, co-fundadora da instituição. Apesar de a viagem ser relativamente curta (apenas nove dias), a instituição quer dar aos executivos uma visão ampla do país, sem críticas ou julgamentos, passando pela economia, cultura e meio ambiente. Em fevereiro, 16 executivos dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Holanda e China visitaram São Paulo, Recife e a Amazônia. O grupo é eclético, com profissionais que atuam em segmentos, como administração pública, mercado financeiro, indústria de óleo e gás, comércio, mídia, arte e terceiro setor.

Meninos de rua

Eles travaram o primeiro contato com problemas sociais brasileiros em duas organizações  não-governamentais voltadas a jovens em situação de risco e ex-meninos de rua em Diadema, na Grande São Paulo. Os dois grupos sociais, tão diferentes, trocaram experiências e debateram temas, como violência e drogas. Russell Faucett, de 62 anos, diretor de uma companhia de investimentos em Los Angeles, nos Estados Unidos, diz que ficou tocado com a dedicação das entidades.

“Conhecemos pessoas que dedicam suas vidas a ajudar outras pessoas. Isso é muito inspirador. Também aprendemos que problemas tão grandes podem ser resolvidos”, disse ele, que visitou a Associação de Apoio à Criança em Risco (Acer).

O norueguês Gregory Smith, fundador de outra ONG visitada, a Rede Cultural Beija-Flor, acha importante que esses investidores em potencial conheçam o Brasil com profundidade. “Se eles pretendem implementar um negócio no Brasil, adquirem a idéia da responsabilidade social com o país”, diz ele, que já adotou dez crianças que viviam na Praça da Sé, no Centro da capital paulista.

Mas não é só conscientização social que os estrangeiros levam na bagagem. Os executivos são desafiados por ex-meninos de rua a participar de jogos e oficinas de capoeira, artes plásticas, dança e percussão. “As oficinas estimulam o uso da criatividade no trabalho”, diz Fields, co-fundadora do Leaders Quest. Ela explica que, em sua rotina de trabalho, os executivos utilizam mais o lado esquerdo do cérebro, relacionado à capacidade analítica, do que o direito, mais criativo.

Nas brincadeiras, eles também aprimoram o trabalho em grupo ao se organizar em times. “É comum os líderes concentrarem tarefas e sempre serem o centro das atrações. Com as oficinas, eles aprendem a delegar mais a seus funcionários.” Um empecilho a ser driblado é o idioma, já que executivos e ex-meninos de rua não falam a mesma língua.

Tatiana Cardeal

Executivo aprende truques de palhaços com crianças de ONG (Tatiana Cardeal/Divulgação)
 

Favela e Aldeia Índigena

Enquanto parte do grupo reuniu-se com o prefeito de Diadema, José de Filippi Júnior, outros executivos visitaram o Morro do Macaco. Lá, ouviram um histórico dessa comunidade, como o Leaders’ Quest prefere se referir a favela. O terreno, localizado em área de manancial que sofre deslizamentos em épocas de chuvas, foi ocupado há cerca de sete anos e tem 14 mil moradores.

O outro grupo de executivos apenas passou de carro pelas áreas de favela. “Eles perceberam a densidade populacional em Diadema. Como são muito viajados, todos conhecem pobreza profunda, mas ficaram impressionados com o fato de pessoas viverem bem, mesmo em condições adversas”, afirmou o secretário-geral da ONG Acer, Jonathan Hannay.

Os executivos contam que não tiveram medo da experiência. Segundo a organização internacional, o programa trabalha com pessoas da comunidade, o que facilita o contato. “Não andamos muito na favela. Tudo parecia ser seguro, mas talvez porque eu seja uma pessoa otimista e simples”, comentou o executivo Russell Faucett.

Depois da passagem pela favela, o grupo visitou a aldeia Krukutu, onde vivem hoje 45 famílias de índios guarani no extremo Sul da capital paulista. Os executivos reuniram-se ali com três líderes indígenas. Em pauta, a responsabilidade de cada um com o meio ambiente. Do encontro, mais uma lição: “entender o ponto de vista de várias pessoas é um aprendizado para a resolução de conflitos”, ensina Fields. Em nível macroeconômico, ela compara o aprendizado com um acordo multilateral entre nações. “O que é bom para os Estados Unidos pode não ser bom para o Brasil.”

Já no Recife, os executivos foram recebidos por um pai-de-santo que deu a eles uma aula sobre candomblé. Também visitaram o bairro Chão de Estrelas na periferia pobre da capital de Pernambuco.

O Leaders’ Quest também promove reuniões de seus pupilos com especialistas em tecnologia e executivos brasileiros. A parceria do Brasil com os Estados Unidos na produção e pesquisa de etanol foi um dos temas de maior interesse. Os executivos conversaram com usineiros em Pernambuco e com especialistas em energia.

Em outro encontro, debateram tecnologia com o colunista do G1 Silvio Meira, cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife. “Foram compartilhadas visões de mundo: como pessoas fora do Brasil vêem o país e o que conseguimos comunicar”, disse ele. Na Amazônia, o foco foi o contato com a diversidade ambiental. Eles ficaram em um hotel a duas horas de barco da capital Manaus.

Além do Brasil, o foco do Leaders’ Quest é fazer uma ponte entre executivos e países em desenvolvimento, como China, África do Sul e Índia. Não é a primeira vez que a instituição, criada há cinco anos e dirigida por associados em Londres, Nova York e Hong Kong, traz ao Brasil um grupo de executivos. A primeira experiência ocorreu em outubro de 2005.

Fields Wicker-Miurin diz que a procura dos executivos estrangeiros por programas no Brasil está aumentando. “As pessoas não conhecem o suficiente sobre o país”, diz ela. A próxima viagem ao Brasil está programada para 2008.

No início do segundo semestre deste ano, o destino dos executivos será a China.

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