Drogas modificam o cérebro, diz estudo

Da France Presse

Um dependente de heroína que sofre os efeitos da síndrome de abstinência que se seguem ao abandono do vício não é meramente alguém sem força de vontade, é um indivíduo atormentado por mudanças duradouras no cérebro, causadas pela própria droga, explica um estudo inovador publicado nesta quarta-feira (25).

Em experiências feitas com cobaias, uma equipe de cientistas americanos da Universidade Brown, de Rhode Island, demonstrou que até mesmo uma pequena dose de morfina alterou fisicamente os caminhos neurais que regulam a sensação de necessidade. A mudança persistiu muito tempo depois de os efeitos da droga terem se esgotado.

O estudo, publicado na revista científica britânica “Nature”, reforça uma nova teoria que vê a dependência como uma doença que “remodela” os mecanismos cerebrais relacionados ao aprendizado e à memória, disse em uma entrevista a principal autora do estudo, a fisiologista celular Julie Kauer.

As descobertas também indicam o caminho para a possibilidade perturbadora de um antídoto farmacêutico para a dependência, acrescentou. As experiências de Kauer se focaram na atividade das sinapses: uma junção conectiva entre as células do cérebro.

As chamadas sinapses excitadoras aumentam o fluxo de substâncias químicas, como a dopamina, associada ao sentimento de euforia, enquanto as sinapses inibidoras impedem estes fluxos. “Você precisa ter as duas, porque elas controlam e harmonizam o sistema”, explicou.

Estudos anteriores demonstraram que as sinapses excitadoras são fortemente relacionadas à construção da nossa capacidade de memória e elas — assim como os músculos do corpo — se fortalecem com o aumento da atividade.

Este é um círculo virtuoso, quando se trata do aprendizado, porque a liberação de pequenas quantidades de dopamina cria o incentivo para se aprender mais e também ajuda a aguçar os instintos básicos de sobrevivência. Mas o mesmo mecanismo se torna um ímã perigoso para o abuso de certas drogas, como a heroína e a cocaína, que provocam uma resposta similar.

“Se você já sentiu muita, mas muita sede, esta mesma ânsia pode ser aquela que se passa no cérebro de alguém dependente de uma droga”, continuou Kauer. Neste contexto, acrescentou, “a dependência é uma forma de aprendizado patológico”, no qual o cérebro cria um sistema de recompensas para algo que faz mal ao corpo.

“Eu não chamaria isto de dano, o circuito trabalha como deveria. Mas foi remodelado de forma inadequada”, disse Kauer.

O estudo traz inovações em duas áreas. Primeiramente, apresenta a evidência mais forte até agora de que as sinapses inibidoras também são capazes de uma “potencialização de longo prazo” (PLP), ou seja, a habilidade de fortalecer e mudar com o passar do tempo. Além disso, demonstrou que a morfina, um opiáceo, continuou a bloquear a PLP muito tempo depois de a droga estar fora do organismo da cobaia.

“O fato de serem duradouros pode ser um dos motivos de a ânsia por drogas ser tão difícil de vencer, e sugere que as drogas que causam dependência produzem mudanças físicas persistentes”, continuou.

O estudo também aponta para a possibilidade intrigante de um tratamento farmacêutico para neutralizar o desejo intenso, o que poderia ajudar as pessoas que lutam contra a dependência a resistir à tentação da recaída. Da mesma forma, poderia ajudar a evitar os indesejáveis efeitos colaterais da morfina nos hospitais, onde este opiáceo é freqüentemente usado como analgésico.

A molécula desabilitada pela morfina é chamada guanilato ciclase. Ao localizá-la, Kauer e sua equipe identificaram um alvo promissor para novas drogas que poderiam, potencialmente, evitar ou tratar a dependência.

Este tratamento pode criar, no entanto, outros problemas, reconheceu a cientista. Um medicamento que remova a qualidade de causar dependência, mas não a capacidade de provocar euforia, poderia incluir uma tentação de outro tipo.

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