A ameaça do “Googlepólio”

Por Silvio Meira, do G1

O Google tem dinheiro, velocidade e corre riscos. A muitos, parece estar criando o que pode vir a ser o verdadeiro monopólio de “organização” de informação na web. Será que os competidores vão esperar sentados?

A essa altura do campeonato todo mundo já sabe que o Google comprou a DoubleClick, um negócio de publicação de anúncios na web, que era propriedade de dois fundos privados, por US$ 3.1 bilhões em dinheiro vivo, tirando a Microsoft (entre outros possíveis compradores) do jogo. A empresa de Redmond, que tem um negócio de anúncios como o do Google, mas com uma performance muito menor, parece que estava disposta a pagar pouco mais de US$ 2 bilhões e pulou fora da disputa. Nessa transação, o Google pagou o dobro do que tinha gasto para ficar com o YouTube. A DoubleClick faturou US$ 300 milhões no ano passado e havia sido comprada, em 2005, por US$ 1.1 bilhão — o que levou muitos analistas a discutir o que, exatamente, aconteceu com a empresa em dois anos que a tornou tão valiosa. Pelo menos para o Google.

Uma das respostas é que Eric Schmidt comprou a empresa para evitar que a Microsoft fizesse o mesmo. Só que o alvo não era só a Redmond, mas também o Yahoo: o Google não tinha (até a semana passada) uma rede de servidores de banners (sim, os velhos banners) e “rich media” (ou “mídia rica”, propagandas interativas em flash, vídeo), a tecnologia, a prática do negócio e seus clientes. Agora tem. O que vai fazer com isso é outra história. Primeiro, pode haver conflito entre seus múltiplos modelos de negócio para anúncios: de um lado, aqueles simples, de texto, publicados por milhões de pessoas e empresas, que fizeram a fama e fortuna do Google até aqui; do outro, 1.500 clientes da DoubleClick, que estão entre os maiores anunciantes do mundo. A princípio, dois públicos complementares. Mas, o Google não tinha acesso até agora. Logo, por que haveria conflitos?

Há quem diga que o primeiro atrito poderá vir de uma tentativa de tirar as agências de publicidade do jogo de uma vez por todas, desintermediando — como é hoje o caso dos anúncios do Google — a interação entre quem paga pelo anúncio e o site que o publica. Na verdade, trata-se de reintermediação, com o Google (ou o GoogleClick) assumindo o papel das agências, servindo de interface para o cliente programar seus anúncios diretamente. Resta saber se os grandes clientes vão querer pagar este pato, já que hoje pagam agências exatamente para se verem livres da complexidade de (também) programar a propaganda. Mas não é essa a única preocupação: a medida em que o Google (e suas aquisições) registram e interpretam cada busca, click e link que há na rede, as preocupações sobre privacidade e suas garantias tenderão a ser cada vez maiores. Especialmente a partir do ponto em que a empresa começar a ser percebida como um monopólio.

Quase todo grande mercado, em todas as eras, tem seus monopólios, naturais ou não. A Microsoft detém, hoje, o quase monopólio dos desktops. Mas isso está nas nossas casas e, a não ser no caso de uma invasão, só nós temos acesso aos dados lá armazenados. E ainda, neste modelo, é possível trocar o software “X” pelo “Y”, quando nos aprouver. Estaríamos trocando funcionalidades apenas. O modelo do Google, e de uma web de negócios que funciona a partir de um software como serviço, é mais leve e sutil, e pode levar a monopólios ainda mais radicais. É só comparar a qualidade potencial de um negócio que está começando com a de um outro, estabelecido há anos, que já sabe exatamente quem você é, por onde anda, com quem conversa, que vídeos vê, o que compra e o que faz e o que não… Não, não há comparação. O potencial de criação de um monopólio a partir do Google e suas aquisições é imenso, e isso é parte do preço das ações da empresa na bolsa.

Depois da compra da DoubleClick, não demorou muito para as companhias ameaçadas pelo controle cada vez maior do Google sobre anúncios online começarem a atacar o gigante pelo flanco regulatório. Mal foi anunciado o negócio, Microsoft, Yahoo, Time Warner, AOL, AT&T e outros, menos votados, já estão reclamando (ainda informalmente, mas isso vai virar briga) do “domínio” de Google e as suas “conseqüências” para a privacidade na rede.

Bradford L. Smith, advogado da Microsoft, muito mais acostumado a defender a companhia nas batalhas em que ela própria vem sendo acusada de práticas anticompetitivas nos últimos anos, disse ao The New York Times que “… a compra do DoubleClick pelo Google combina os dois maiores distribuidores de anúncios online e ‘reduz substancialmente a competição no mercado de anúncios na web’”. Pois é, cada um sabe onde seu sapato aperta. Mas este não é o único debate sobre o assunto.

Há cada vez mais especulação de que a Microsoft não compraria a DoubleClick de jeito algum, pois nunca adquire público e sim tecnologia, como no caso da absorção recente da TellMe por US$800 milhões. Isso pode estar errado, mas e daí? Daí, parece que Ballmer e amigos entraram na corrida pela DoubleClick só para forçar o Google a pagar mais… será? O fato é que agora o Google pode competir com o Yahoo na mesma plataforma de anúncios e a Microsoft fica ainda mais distante no mercado web. Mas ao mesmo tempo à frente no mercado de busca móvel e por voz (que é o que a TellMe faz). A corrida ainda não acabou. Façam suas apostas… e apostem também quando o Google vai ser processado por monopólio em alguma destas coisas, como anúncios na web, onde está eliminando, rapidamente, a competição.

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