Livro medieval revela comentário antigo sobre Aristóteles

Rebecca Morelle para BBC-Brasil

Especialistas descobriram comentários sobre uma das obras mais importantes de Aristóteles em um pergaminho medieval.

Comentário sobre Aristóteles está escondido no pergaminho

Uma equipe internacional analisou um livro de orações no qual já havia sido encontrado um trabalho do matemático Arquimedes e do político Hipérides, um político ateniense do século 4 a.C.

O livro é conhecido como Palimpsesto de Arquimedes. O palimpsesto é um antigo material de escrita, um tipo de pergaminho. Devido à escassez deste material, ou ao seu alto preço, ele era usado duas ou três vezes, depois de passar por uma raspagem do texto anterior.

Os dois textos foram encontrados no livro de oração medieval em 2002. Agora, com uso de tecnologia mais avançada, os especialistas encontraram o terceiro texto, um comentário mais antigo do que os outros dois a respeito da obra de Aristóteles.

A obra comentada é Categorias, considerada como fundação para o estudo da lógica na história ocidental e foi encontrada devido a uma série de pistas, como um nome importante na margem de uma página.

Reciclagem

O livro de orações foi escrito no século 13 por um copiador chamado John Myronas. Ao invés de usar pergaminhos novos para o trabalho, ele usou páginas de cinco livros já existentes.

“É um processo brutal, mas significava que era possível reaproveitar um pergaminho se o material estivesse em falta. Tira-se o livro da prateleira, o texto é esfregado até apagar, os livros são cortados e aí você tem um novo livro”, disse William Noel, diretor do projeto.

Noel também é curador dos manuscritos no museu americano Walters Art e co-autor de um futuro livro sobre o Palimpsesto de Arquimedes.

Arquimedes era um matemático da Grécia antiga

Arquimedes era um matemático da Grécia antiga

Em 1906, foi descoberto que um dos livros reciclados para formar o manuscrito medieval continha um trabalho único de Arquimedes.

“Você imagina que conseguir encontrar um palimpsesto é muita sorte, encontrar dois é surpreendente. Mas algo ainda mais extraordinário aconteceu”, afirmou o pesquisador.

Um dos livros reciclados era de leitura extremamente difícil, de acordo com Roger Easton, professor de ciência de imagem no Instituto de Tecnologia Rochester, nos Estados Unidos.

“Estávamos usando uma técnica chamada imagem multiespectral”, disse.

A técnica de imagem digital usa fotografias tiradas em diferentes extensões de onda para destacar características particulares de uma área analisada.

Ajustes sutis deste método permitiram que as palavras escondidas fossem reveladas.

“Mesmo não entendendo grego antigo, apenas o fato de que eu podia ver as palavras me deu arrepios”, disse Easton.

Trechos

Estudos mais detalhados revelaram que o autor mais provável destes comentários da obra de Aristóteles é Alexandre de Afrodisias, segundo o professor Robert Sharples do University College de Londres.

As iluminuras e palavras do livro de orações cobrem trabalhos antigos

Iluminuras e palavras do livro de orações cobrem trabalhos antigos

Se isso for verdade, segundo o professor, o manuscrito “nos dá parte de um comentário que pensávamos estar perdido, feito por um dos mais importantes comentaristas da obra de Aristóteles na Antigüidade”.

Uma tradução temporária está sendo feita e revela o debate sobre alguns aspectos da teoria de classificação de Aristóteles como: se a expressão “que tem pés” pode ser usada para classificar algo mais, como uma cama.

“Pois como ‘pé’ é ambíguo quando aplicado a um animal e para uma cama, assim como ‘com pés’ e ’sem pés’. Então, por ‘em espécies’ aqui (Aristóteles) está afirmando ‘em fórmula’.”

“Pois se alguma vez acontece que o mesmo nome indica a diferença de gêneros que são diferentes e não subordinados um ao outro, eles não são, em qualquer classificação, a mesma fórmula.”

Segundo o professor William Noel, “não existe um filósofo mais importante no mundo do que Aristóteles”.

“Temos um livro que contém três textos do mundo antigo que são absolutamente centrais para nosso entendimento de matemática, política e, agora, filosofia”, disse.

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