Música Independente

Texto de Felipe Reis (7º período) para o Jornal da Estácio
Fotos de Rubia Ribeiro.

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Os integrantes da MQN têm mais de um emprego para se sustentar e tiram dinheiro do próprio bolso para gravar seus discos

Na década de 80, durante o boom do rock nacional, o Ultraje a Rigor lançou a música Independente futebol clube, que falava sobre a liberdade, a independência de se fazer o que quer, de não ser de ninguém, de não obedecer a ninguém. Quase três décadas depois, o recado dado pelo vocalista Roger e sua banda parece servir de lema para artistas, selos e gravadoras do século 21, que, na contramão da grande indústria, apostam na criação de uma cena independente dos conglomerados de mídia para trabalhar e viver de música.

Impulsionados por novas ferramentas virtuais de promoção e produção, eles garantem o aquecimento de uma era renovada de bandas. Além disso, superam obstáculos e fazem com que o mercado fonográfico brasileiro e mundial – há mais de dez anos em crise – se modifique e viabilize novos formatos de venda de música (para não perder os consumidores). Para isso, contam com festivais anuais e novas gravadoras para o lançamento de artistas, divulgação de shows, criação de fã-clubes e distribuição de músicas.

Segundo Maurício Bussab, dono da distribuidora Tratore, as gravadoras multinacionais continuam a procurar novos formatos, por observar crescente desinteresse da população em comprar música. Para ele, a única solução para sobrepujar a crise do mercado fonográfico é a independência.
– Não vejo outra saída. As grandes gravadoras reduzem há anos seus catálogos e não escoam a crescente produção musical brasileira – diz.
Bussab fez de seu negócio a solução para um grande problema dos artistas independentes: ter seus produtos expostos nas maiores e melhores cadeias de lojas de música do país. A Tratore surge de uma necessidade econômica conhecida como economia de escala.

– É inviável, hoje, bater na porta das lojas com o CD de um único artista em mãos. Para isso, é preciso ter um catálogo para negociar – explica.
Voltada para a área logística, a Tratore é a primeira empresa a fazer esse tipo de negócio sem ter um produto musical próprio.
– Se o produto tem qualidade e assinatura com um selo, interessa à Tratore – resume Bussab, cujas preocupações não são as mesmas dos executivos de gravadoras e selos.
– As gravadoras se preocupam com produção musical, projeto de arte e locação de estúdios, o que as impede, por falta de estrutura e de conhecimento econômico, geográfico e de direito, otimizar a exposição de seus lançamentos – diz.

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Levinson (de camisa cinza) e Nervoso: dois exemplos de amor e dedicação ao cenário independente da música nacional

MARKETING DE GUERRILHA PARA VENDER

Sites de relacionamento como o MySpace, YouTube e Orkut, assim como os selos, distribuidoras e festivais, são ferramentas e ações características de um marketing de guerrilha, cada vez mais adotado pelos artistas independentes.
– São ferramentas essenciais. Quanto mais download se faz, maior o potencial dessa banda de vender discos. E muitos executivos também estão de olho nessas ferramentas – diz Fabrício Nobre, sócio da Monstro Discos e vocalista da banda de garage rock MQN.

Surgida há dez anos, inicialmente como uma loja de discos, a Monstro Discos sempre teve como objetivo lançar CDs nacionais e internacionais alternativos, além de escoar a crescente produção das bandas locais de Goiânia. Agora, como empresa, o selo e produtora Monstro, apesar da crise do mercado fonográfico, consegue, ano a ano, melhores resultados em seus negócios e se transforma em uma das maiores gravadoras independentes do país.

– Dos últimos cinco anos para cá, o mercado melhorou para nós. Para que o orçamento de prensagem, distribuição e publicidade seja coberto, cada lançamento precisa vender um mínimo de 1.000 cópias, o que vem ocorrendo com mais freqüência – explica Fabrício.

No entanto, todos os sócios da empresa e outros membros da MQN têm mais de um emprego para se sustentar. E tiram do próprio bolso o dinheiro para a gravação de seus discos.

– A música ainda não paga as nossas contas. A produção dos discos não é paga pelas vendas e as bandas têm de bancar os custos de gravação – diz Fabrício, que arruma tempo para se dedicar à produção de eventos.

FESTIVAL PARA NOVOS ARTISTAS

Antenado em bandas novas e música brasileira, o produtor Bruno Levinson decidiu, há 14 anos, montar o festival Humaitá Pra Peixe (HPP). Realizado anualmente, o festival se confirma como grife e selo de qualidade musical. Revelador de tendências e bandas independentes, o HPP já teve em seus palcos artistas como Marcelo D2 e Seu Jorge, e, ainda hoje, pode ser considerado um festival independente.

– É um festival voltado para novos artistas – resume Levinson, que usufrui das oportunidades que a internet e as novas ferramentas digitais oferecem (os artistas têm suas músicas tocadas na rádio, além de download de vídeos e toques para celular disponibilizados pelo site do festival).

– Acredito que todo o mercado está se tornando independente. A produção de discos e gravação vem sendo facilitada há anos. Com as novas ferramentas de mídia que apareceram, a promoção também foi facilitada – avalia Levinson, frisando, porém, que tais mudanças marcam um excelente momento para a produção de música, mas não para o mercado fonográfico.

Levinson descarta qualquer dependência dos novos artistas aos grandes veículos de mídia.

– O artista, hoje, não tem que vender 200 mil cópias. Ele  precisa é falar com o seu público. Os hábitos dos jovens estão mudando, eles passam mais horas na internet do que vendo TV – diz.

Fruto do HPP e ex-integrante de algumas das bandas mais influentes do Rio de Janeiro, como Acabou La Tequila, Matanza e Autoramas, o músico Nervoso sempre compôs suas músicas. Ciente da multifuncionalidade que um artista independente precisa ter para conduzir bem seu trabalho artístico, Nervoso destaca que não basta compor boas canções e ser um excelente músico. Atividades de promoção, divulgação e marketing estratégico são fundamentais.

– O artista precisa fazer um excelente projeto musical e um bom show, pois são eles que o sustentam. Utilizo as ferramentas da internet, cuido da parte de entrevistas e busco sempre novos parceiros – diz Nervoso, que obteve uma tiragem de duas mil cópias em seu último trabalho, Saudades das minhas lembranças, gravado em 2003, que lançou a banda Nervoso e os Calmantes.

‘Jabá’

Confirmado o poder da internet como maior facilitador promocional para o cenário independente, as emissoras de rádio e TV abertas viraram as vilãs da história.

– As grandes gravadoras pagam jabá (dão dinheiro para que as rádios executem determinadas canções) para as rádios e pouquíssimos programadores escolhem as músicas que o Brasil todo vai escutar – reclama Fabrício Nobre, um dos sócios da Monstro Discos.

Quem também lamenta a atual situação “jabaculesca” do mercado fonográfico é o vocalista Qinho, da banda Qinho & Os Cara. Ele aponta a propina paga por gravadoras às rádios como o maior entrave à execução de artistas independentes nas emissoras.

– Nenhum artista independente tem grana para tocar na rádio. Preferimos pegar uma quantia menor, fazer um site e trabalhar muito – diz Qinho, para quem o artista  precisa ser produtor de si mesmo, se expor.

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