Internet e quadrinhos agitam campanha presidencial francesa

Renate Krieger Especial para o G1, de Paris

Teve um toque jovem a campanha eleitoral para a Presidência da França que termina neste domingo (6) com o segundo turno entre o conservador Nicolas Sarkozy e a socialista Ségolène Royal. A corrida pelos votos não se ateve aos meios de comunicação tradicionais e enveredou pela internet e pelas histórias em quadrinhos.

 O candidato governista Nicolas Sarkozy e a socialista Ségolène Royal lutam no centro do ringue para vencer as eleições francesas na charge do jornal “Trouw”, de Amsterdam (Foto: New York Times)

Uma profusão de charges foi produzida e divulgada pela rede nessa campanha, geralmente colocando os dois candidatos em situações desconfortáveis e irônicas. E quase a metade dos franceses que navegam na web se informou sobre política pelos sites noticiosos, o que levou um analista a sentenciar: essa é a última eleição determinada pela TV.

“Nesta campanha a internet substituiu os jornais”, diz Martin Nogueira, 22 anos, mestrando em história do Japão em Paris e um leitor voraz de blogs políticos. Especialistas apontam o pleito de 2007 como recordista de interesse pelos franceses, a começar pela inscrição de 44,5 milhões de eleitores nas listas de votação bem mais do que nas eleições anteriores. E não foi só na Internet que se expressou o interesse dos franceses pela política nacional. Teve uma audiência recorde de cerca de 20 milhões de telespectadores o debate na TV que opôs os dois finalistas, na última quarta-feira (2).

Reprodução

Reprodução – Depois de ficar em cólera, no debate, Ségolène Royal disse que não se irritava, e foi ironizada em blog francês (Foto: Reprodução)

Apesar de ficar atrás da televisão em termos de audiência, a internet se firmou como um dos meios de informação mais confiáveis sobre a disputa deste ano. A última pesquisa do Instituto Francês de Opinião Pública (IFOP) mostra que o apetite por informação dos internautas aumentou sete pontos percentuais desde o início da campanha, em novembro do ano passado. E 47% das pessoas que navegam disseram utilizar a web com regularidade para se informar sobre política.

O número equivale a cerca de 13 milhões de pessoas. “Essa será a última eleição determinada pela televisão”, previu Stanislas Magniant, analista do site Netpolitique, em recente entrevista à imprensa francesa.  Francês de origem portuguesa, o estudante Martin Nogueira, também membro do partido de Sarkozy, o UMP, costuma acessar o site Presqueriensurpresquetout, descrito como o “blog de Gai Luron” (célebre personagem dos quadrinhos franceses, criado por Marcel Gotlib em 1964). Mesmo que não se dedique exclusivamente à política, o blog fala “quase nada sobre quase tudo” e analisa o jogo eleitoral como os mais de 2.000 sites que compõem a atual blogosfera francesa.  “Eu tento buscar dados para completar o que vejo na televisão e nos jornais”, diz Martin. “É interessantíssimo ver os argumentos e os comentários dos analistas. O ‘presquerien’ é bom porque é mais engraçado, tira a dimensão pesada da campanha”, afirma o estudante.

A Universidade de Tecnologia de Compiègne publicou em meados de março a última atualização da Blogopole, a blogosfera política francesa. Entre outros aspectos, o Observatório das Presidenciais 2007 criado pelos pesquisadores faz uma cartografia dos 2.042 sites políticos registrados na França. A idéia é acompanhar o campo de batalha virtual da campanha.

A esquerda dispara no que se refere ao número de sites ou blogs de militantes: são 547 dedicados ou ligados ao PS de Ségolène Royal, contra 315 do UMP de Sarkozy. A blogosfera da direita aumentou desde o primeiro turno, marcado por uma rede de sites mais ligada à esquerda e ao centro.

Personagens de HQ

Além da internet, os franceses também aproveitam a profusão de publicações alternativas para se informar, uma vez que nem todos são adeptos dos livros políticos que invadiram as livrarias desde novembro.

O grande nicho dessas eleições foram as histórias em quadrinhos, dando vazão à paixão dos franceses pelo gênero (a França é o segundo consumidor mundial de mangás e HQs, atrás apenas do Japão). Segundo a Associação dos Críticos e Jornalistas de Quadrinhos francesa, o sucesso dá continuidade à tradição satírica dos cartunistas franceses sobre a política do país, traduzida principalmente por diários como ‘Charlie Hebdo’ ou ‘Le Canard Enchaîné’. O maior sucesso de vendas da safra de desenhos é “La Face Karchée de Sarkozy” (A face ‘escancarada’ de Sarkozy), um álbum ‘investigativo’ sobre o candidato da direita. Desde novembro, a obra já vendeu mais de 200 mil exemplares e é uma parceria do desenhista Riss (cartunista do cotidiano Charlie Hebdo), Richard Malka (advogado do Charlie) e Philippe Cohen, autor do célebre livro “La face cachée du Monde”.

A intenção, segundo Cohen, era transformar um personagem da vida real em personagem de HQ, “porque ele tem trejeitos dos quadrinhos”. O “Karchée” alude diretamente às declarações de Sarkozy durante a crise das periferias francesas em novembro de 2005, quando o então Ministro do Interior disse querer livrar a França da “ralé” de imigrantes ilegais.

Além de mini-biografias dos candidatos – Tout sur Sarko et Tout sur Ségo, Le Petit Sarko, La Petite Ségo , os leitores também podem navegar entre política e ficção com “Objectif Elysée” e “Vive la Politique”, uma abordagem considerada diferenciada pelas editoras.

A grande penetração dos mangás na vida política francesa já causou crises num passado recente com a socialista Ségolène Royal, que agora toma cuidado para não bater de frente com os leitores dos quadrinhos. A candidata à Presidência causou fúria entre os fãs dos mangás ao dizer que os desenhos eram muito violentos. Ela chegou até mesmo a dizer que a TV francesa, liderada pela animação japonesa, era “nula, medíocre e feia”. Os defensores dos mangas rebateram as acusações. Disseram na ocasião que ela misturava a boa produção do extremo oriente a produções de baixa qualidade, o que não corresponderia à realidade. Apesar do grande número de publicações, no entanto, às vezes falta crítica às sátiras. Para Pascal Philippe, diretor do departamento de ilustração do semanário Courrier International, todo esse interesse vem de uma expectativa do resultado.

“Para os desenhistas, será mais fácil criticar no período pós-eleição porque o alvo será mais claro. Agora, há apenas o discurso, é difícil traduzir tudo isso em ação. Mas talvez as trocas virtuais diminuam”, avalia.

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