Policiais Militares abrem o jogo

Texto de FELIPE SIL (7º período) e MARCELLE ALHADAS (6º período) para o Jornal da Estácio

LULA APARÍCIO
mat_5_2

Caveirão do Bope em operação no Cemitério do Catumbi

Nossa vida por sua segurança. O lema adotado pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, uma das instituições mais antigas do país (fundada em 1809), parece ter perdido o seu real significado.

Nos últimos anos, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (SSP-RJ), houve aumento no número de mortes de policiais militares, o que, no entanto, não contribuiu para que a cidade se tornasse mais segura. Tal situação atormenta não só a população, mas, também, os PMs.

Dois deles revelam ao Jornal da Estácio a dura rotina da profissão, na qual matar ou morrer, mais do que garantir paz à sociedade, virou questão de sobrevivência. Eles revelam suas experiências e seus medos. Falam da frustração com a péssima imagem da corporação junto à população e da revolta com os homens de alta patente, que, segundo os PMs, subjugam subordinados mal remunerados, tratados como peças em um quebra-cabeça de interesses políticos e econômicos.

Casado, pai de família, o sargento X., 45 anos, mora de aluguel em uma casa na Zona Oeste. Seu dia-a-dia é tenso. Ele dorme pouco e vive em estado de alerta. Nem nas horas de folga consegue relaxar. O motivo de tamanha apreensão é simples: o medo de aumentar as estatísticas de PMs mortos no Rio de Janeiro (até o fechamento desta edição, 41 deles haviam perdido a vida só este ano).

– Eu não vou a certos lugares quando estou de folga. Ando pelas ruas de forma que não dê para perceber que eu sou policial. Saio de chinelo, deixo o cabelo crescer, a barba por fazer. Nem levo mais meu revólver, pois, a qualquer momento, em qualquer esquina, eles (bandidos) podem me metralhar. Não existe mais lugar seguro para PM, que, mesmo sem a farda, pode ser alvejado. O que se presencia nas ruas é terrorismo – frisa X.

Indagado sobre quem seria o responsável por situação tão perigosa, ele responsabiliza os próprios companheiros de farda, principalmente seus superiores.

LULA APARÍCIO
mat_5_1
PMs conversam sobre a melhor maneira de surpreender os bandidos de uma comunidade carioca

– Para aqueles que mandam, como coronéis e comandantes, não interessa fazer com que a lei se cumpra. A gente não tem amparo de ninguém.

Há muita corrupção na PM e os lucros são muito grandes. Isso vem de cima para baixo. O cargo de coronel, por exemplo, é um cargo político. Existe muita gente safada no nosso meio. Já vi muito policial aceitar propina de traficante para aliviar a barra deles. Também já fui procurado por bandido para receber dinheiro, mas tenho moral e consigo manter o respeito. PM que se envolve perde o respeito – desabafa X. Embora radical, X. revela sua posição para acabar com uma relação que julga promíscua entre a PM e a bandidagem.

– Só vão tomar providências quando coronéis e comandantes começarem a morrer. Eles não brigam por melhores condições para os homens da corporação. Em vez disso, gostam de ir a enterro de policial para aparecer para a população, para a mídia. Na verdade, os coronéis nos vêem como estatística. Morreu um, coloca outro no lugar. Outra alternativa para acabar com essa promiscuidade é a PM se aquartelar, fazer greve. Se a PM parar, o comércio pára. O problema é que nós, praças, não somos unidos. Hoje, os companheiros morrem e ninguém faz nada. Nós só prendemos ladrões de galinha – lamenta. Sobre a dor da perda de amigos, mais revolta.

– Já presenciei mortes em combate, mas duro foi perder amigos durante a folga. Um policial arrisca a vida por R$ 800, enquanto os oficiais de alta patente ganham aumentos astronômicos. Isso é sacanear a gente – desabafa X, que, apesar da insatisfação, não pensa em abandonar a PM.

– Por que vamos subir morro e trocar tiros com bandidos com o salário que recebemos? O certo seria largar tudo para lá. Mas eu, mesmo revoltado com o que acontece nos bastidores da Polícia Militar, amo o que faço – frisa X, emocionado.

Muitas baixas

Em 2005, 135 PMs morreram. Ano passado, 144. Este ano, de acordo com a assessoria de imprensa da PM, 35 (11 em ação e 24 durante a folga) só nos três primeiros meses de 2007. Entre os civis, as baixas também cresceram. O número de homicídios no estado aumentou 9,6% em janeiro (em relação a janeiro de 2006 – de 480 para 526 ocorrências), informa o Instituto de Segurança Pública (ISP).

NOTA DA REDAÇÃO

O Jornal da Estácio esclarece: as identidades dos PMs X. e Y. não foram reveladas (norma usual na grande imprensa) atendendo a um pedido dos mesmos, pois, segundo eles, caso se identificassem, sofreriam punições por parte de seus superiores.

Anúncios

Um comentário sobre “Policiais Militares abrem o jogo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s