Bento XVI, seja bem-vindo!

Do Jornal de Brasília

Pontífice desembarca hoje, às 16 horas, em São Paulo. Milhões de católicos deverão acompanhar a quarta visita de um Papa ao País.

Uma verdadeira corrida contra o tempo. Os responsáveis pela recepção ao papa Bento XVI finalizam, ainda nesta manhã, os últimos preparativos para as principais cerimônias a serem realizadas na cidade de São Paulo. Joseph Ratzinger, o Sumo Pontífice, desembarca, hoje, às 16h, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde será recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outras autoridades.

Mais de mil pessoas trabalham no Pacaembu e no Campo de Marte, onde serão realizados os principais eventos populares.

A segunda parada do Papa será no Campo de Marte, onde haverá uma saudação das autoridades locais. O chefe da Igreja Católica receberá as chaves da cidade e título de Cidadão Honorário. No papamóvel panorâmico, seguirá para o Mosteiro de São Bento, onde, de um balcão, saudará e abençoará a população.

Em São Paulo, dois eventos estão entre os mais esperados. O encontro do Papa com os Jovens, amanhã à tarde, no Pacaembu, deverá reunir cerca de 35 mil pessoas, sendo 30 mil jovens de todo o País e de alguns países latino-americanos. Pelo menos, 300 jovens brasilienses participarão do encontro, todos vestindo camisa amarela, para manter a unidade do grupo. Da América Latina, com a qual Bento XVI busca uma aproximação cada vez maior, são esperados 3 mil jovens.

Frei Galvão

O grande evento, porém, será a canonização de Antônio de Sant’Ana Galvão, o Frei Galvão, que será o primeiro santo genuinamente brasileiro. Para o evento, no Campo de Marte, que será realizado na sexta-feira pela manhã, são esperadas cerca de 1,5 milhão de pessoas.

Lá, uma cruz vazada estará atrás do altar, onde se prevê a entrada de luz natural, de tal forma que a respectiva imagem da cruz ficará refletida no chão do palco durante as cerimônias.

Milagres

Reconhecido pela caridade, obras sociais e milagres, Frei Galvão deverá ficar conhecido em todo Brasil como o Santo da Construção e das Mulheres Grávidas. Frei Galvão foi arquiteto, mestre de obras e até mesmo pedreiro em construções como a do Mosteiro da Luz, no centro de São Paulo, entre outras edificações religiosas.

Além disso, várias mulheres que tentavam engravidar ou tinham problemas na gestação creditam a ele a realização de ter um filho e, principalmente, com saúde. É o caso de Sandra Grossi, moradora do Sudoeste em Brasília, que, após várias tentativas frustradas, apelou ao santo e conseguiu engravidar de seu filho Enzzo, hoje com sete anos. Sandra documentou o milagre e foi fundamental na decisão do Vaticano de canonizar Frei Galvão. Ela participa, na sexta-feira, da cerimônia de canonização.

Dom Manuel Parrado Carral, bispo auxiliar de São Paulo, e um dos responsáveis pela organização do evento, afirma que a santificação de Frei Galvão é um momento forte para a igreja e toda a comunidade católica. Segundo ele, o santo será canonizado como Santo Antônio de Sant’Ana Galvão. “Mas, para nós, brasileiros, será sempre Frei Galvão”, afirma.

Português só com a juventude

Durante sua passagem pelo Brasil o Papa rezará em português. Bento XVI lê e entende bem o idioma, mas não o domina completamente. Portanto, esboçará apenas as palavras que estiverem ao seu alcance. No encontro com os jovens, no estádio do Pacaembu, o pontífice pretende se comunicar no idioma do País, mas na reunião com o presidente Lula, por exemplo, deve recorrer a um intérprete.

Além do alemão, sua língua nativa, o Santo Padre fala fluentemente italiano, inglês, francês, espanhol, latim e ainda se comunica bem em português, polonês e grego. É considerado um excelente pianista, e tem preferência por obras de Beethoven (1770-1827). Ratzinger é o oitavo Sumo Pontífice alemão do Vaticano.

Imprensa mundial

A visita de Bento XVI a São Paulo atraiu grande número de jornalistas de todo mundo. São 3.496 profissionais. Considerando a imprensa oficial, este número deve chegar a 3.600. Para as programações na cidade de São Paulo e Aparecida foi montada uma grande estrutura. Cada veículo prioriza dentro da agenda diária os eventos de seu maior interesse. A partir daí é feita a seleção. Nos eventos maiores, podem participar de 400 a 600 credenciados. Nos menores, entre 80 e 150.

Só se saberá no dia do evento, no centro de imprensa, no Centro de Convenções do Anhembi, poucas horas antes, qual veículo participará de cada cobertura. Ônibus da organização, levarão os profissionais poucas horas antes para o local da cerimônia. Somente em Aparecida, onde haverá uma missa campal, será possível abrigar todos os credenciados.

Manual preparado para a viagem de Bento XVI ao Brasil, foi distribuído ontem aos jornalistas e traz dados biográficos do presidente Lula e explica que o Brasil optou por investir em enriquecimento de urânio. Entre os filhos notáveis de São Paulo, lista o jogador Cafu. Em seu encontro reservado com o papa Bento XVI, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pretende colocar em discussão temas polêmicos como o aborto e o uso do preservativo nas relações sexuais. Segundo o porta-voz da Presidência, Marcelo Baumbach, “não existe a intenção” de Lula abordar esses temas com o Sumo Pontífice.

Entre os assuntos que Lula deseja conversar com Bento XVI, o porta-voz destacou a desintegração das famílias e a educação dos jovens. “Vai depender da dinâmica da discussão, mas não existe a intenção do presidente de abordar esse tema. O enfoque deve ser na juventude, educação e na família”, afirmou o porta-voz.

Amanhã, Lula terá um encontro reservado de 50 minutos com o Papa no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Em seguida, o presidente vai lançar, ao lado de Bento XVI, um selo comemorativo em homenagem à visita do Sumo Pontífice ao Brasil. Depois do encontro, familiares do presidente Lula serão recebidos pelo Pontífice ao lado de outras autoridades dos governos Federal e de São Paulo.

O primeiro compromisso de Bento XVI com Lula será uma cerimônia de chegada na Base Aérea de São Paulo. Lula participará da cerimônia ao lado da primeira-dama Marisa Letícia, dos ministros Luiz Marinho (Previdência) e Paulo Vanucchi (Secretaria de Direitos Humanos), além de Carlos Moura (secretário-executivo da comissão de Justiça e Paz).

O porta-voz disse que, como a visita de Bento XVI é pastoral, sem a conotação diplomática, não será assinado nenhum protocolo de intenções ou concordatas com o Vaticano.

Acordo

O Vaticano propôs ao Brasil a assinatura de um acordo por meio do qual o governo brasileiro se comprometeria a adotar providências legais para coibir a prática do aborto no País, que estaria sendo formalmente analisado pelo Itamaraty.

O tema pode compor a pauta de assuntos a serem discutidos entre o papa Bento XVI e Lula. Tecnicamente, o acordo proposto pelo Vaticano chama-se “concordata” – uma convenção que fixa compromissos entre o Estado e a Igreja em torno de assuntos de cunho religioso.

A “concordata” sugerida pelo Vaticano incluiria outros compromissos, entre eles o de tornar obrigatório o ensino de religião no sistema público de ensino brasileiro.

O porta-voz negou, no entanto, que o documento será assinado durante a visita do Papa. Segundo o porta-voz, a assinatura do acordo é de competência dos ministérios das Relações Exteriores do Brasil e do Vaticano.

“O que existe é a discussão de um acordo-quadro com o Brasil, que não é a mesma coisa de uma concordata. Esse tipo de questão leva tempo para amadurecer. Não vai ser desta vez que será assinado um acordo desse tipo, a visita é pastoral”, reforçou o porta-voz.

Guardião do conservadorismo

Filho de um comissário de polícia e de uma cozinheira, Joseph Ratzinger nasceu em Marktl am Inn, na Alemanha, em 16 de abril de 1927. De origem humilde, passou a infância e adolescência em Traunstein, uma pequena localidade perto da fronteira com a Áustria, a 30 quilômetros de Salisburgo.

Foi neste ambiente, por ele próprio definido como “mozarteano”, que recebeu a sua formação cristã, humana e cultural. A juventude foi vivida durante o regime nazista, que mantinha grande hostilidade contra a Igreja Católica.

Ele chegou a fazer parte da juventude hitlerista, visto ser obrigatório aos jovens de sua faixa etária (por volta dos 14 anos) desde 1938 até o fim do Terceiro Reich em 1945. Na juventude, ao ver os nazistas açoitarem o pároco antes da celebração da Santa Missa, Joseph Ratzinger descobriu sua fé em Cristo.

Antes de receber a ordenação sacerdotal em 29 de junho de 1951, Ratzinger atuou nos serviços auxiliares antiaéros, nos últimos meses da II Guerra Mundial. Atuou, posteriormente, como professor e, em 1953, doutorou-se em teologia com a tese “Povo e Casa de Deus na doutrina da Igreja de Santo Agostinho”. A partir daí, deu aulas em diversas escolas e universidades.

A sua intensa atividade científica levou-o a desempenhar importantes cargos a serviço da Conferência Episcopal Alemã e na Comissão Teológica Internacional. Em 25 de março de 1977, o papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de München e Freising. Em 28 de maio do mesmo ano, recebeu a sagração episcopal. Passou a cardeal em 27 de junho do mesmo ano.

Em 1978, o cardeal Joseph Ratzinger participou do Conclave que elegeu João Paulo II. Alguns anos depois, em 1981, João Paulo II nomeou-o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, sendo elevado à ordem dos Bispos em 5 de abril de 1993. Depois disso, várias missões lhe foram apresentadas, entre elas a presidência da comissão encarregada da preparação do Catecismo da Igreja Católica, a qual, após seis anos de trabalho (1986-1992), apresentou ao Santo Padre o novo Catecismo.

O teólogo alemão foi durante 23 anos o guardião da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, órgão que ficou no lugar do antigo tribunal da Inquisição. Em uma conferência na Academia Católica Bávara abordou o tema “Por que continuo ainda na Igreja?” A este questionamento, ele mesmo respondeu: “Só na Igreja é possível ser cristão, não ao lado da Igreja”.

Com a morte de João Paulo II, em 2 de abril de 2005, aos 84 anos, Ratzinger passou a ser um dos nomes mais cotados para ocupar o posto maior da Igreja Católica. Seu nome foi definido apenas 16 dias depois, em 18 de abril.

Conservador, o decano dos cardeais foi considerado o “braço direito” de João Paulo II nas questões doutrinárias. A escolha do nome Bento, por parte de Joseph Ratzinger, é uma provável homenagem ao último Papa que adotou esse nome, o italiano Giacomo della Chiesa, que atuou entre 1914 e 1922.

Bento XV, conhecido como o “Papa da paz”, tentou, sem sucesso, negociar a paz durante a Segunda Guerra Mundial e, além disso, teve seu pontificado marcado por uma reforma administrativa na Igreja, possuindo um caráter de abertura e diálogo.

Segundo alguns analistas, a escolha do nome também tem alguma relação com São Bento de Núrsia (480-547), fundador da Ordem Beneditina e padroeiro da Europa. O próprio Papa, após a publicação das explicações sobre o seu brasão, confirmou tal influência em sua escolha. A opção por esse nome representaria que uma das prioridades do papado de Bento XVI seria a recristianização da Europa.

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