Irlanda do Norte: Oportunidade histórica de um recomeço

 

Dylan Martinez/Reuters
Martin McGuiness e Ian Paisley

Martin McGuiness e Ian Paisley

Após mais de três décadas de sangrenta rivalidade, os líderes protestante e católico da Irlanda do Norte juraram ontem deixar o passado para trás e trabalhar em conjunto para o bem de ambas as comunidades. Os sorrisos e a boa disposição demonstrada por Ian Paisley e Martin McGuiness na sessão solene de criação do novo governo partilhado da Irlanda do Norte parecem um bom prenúncio, tendo em conta que ainda há poucos meses recusavam dirigir a palavra um ao outro e sentar-se à mesma mesa.

Os jornalistas ontem presentes no Castelo de Stormont para a tomada de posse formal do novo governo foram unânimes na descrição do ambiente descontraído e bem disposto que rodeou a cerimônia, num vivo contraste com a tensão e desconfiança que marcaram todo o processo de paz iniciado em 1998 com o Acordo da Sexta-Feira Santa. A mudança foi notada, principalmente no rosto do líder unionista (protestante), Ian Paisley, que ainda há poucos meses jurava que nunca se sentaria à mesma mesa ou partilharia o poder com “os terroristas do IRA”.

“Do fundo do coração posso afirmar hoje que acredito que a Irlanda do Norte entrou num período de paz, um período em que já não somos dirigidos pelo ódio”, afirmou Paisley ao assinar o acordo de partilha de poder, que faz dele o primeiro-ministro do governo partilhado da Irlanda do Norte.

Ao seu lado, o ‘número dois’ do Sinn Fein (partido católico e nacionalista) e ‘vice’ de Paisley no novo governo, Martin McGuiness, frisou o caráter “histórico do dia”, afirmando que a formação de um governo partilhado por católicos e protestantes “é um gigantesco salto para o futuro da Irlanda do Norte”. O antigo membro do IRA manifestou-se ainda “fortemente confiante” no êxito do novo governo, que terá a seu cargo a gestão dos assuntos correntes do dia-a-dia da Irlanda do Norte, incluindo a Saúde, Educação e Policiamento.

Foi, aliás, a decisão do Sinn Fein, em fevereiro último, de reconhecer a autoridade da Polícia e do sistema judicial da Irlanda do Norte que possibilitou, em grande parte, a partilha de poder ontem iniciada. Era o último grande obstáculo à aplicação do Acordo de Sexta-Feira Santa e o argumento que faltava para convencer o recalcitrante Paisley a sentar-se à mesma mesa com os seus inimigos de sempre.

Entre os muitos convidados destacavam-se os primeiros-ministros do Reino Unido e da República da Irlanda, Tony Blair e Bertie Ahern, os grandes impulsionadores de todo o processo de negociação. Para Blair, particularmente, foi uma vitória há muito desejada e que poderá ajudar a definir o seu legado, precisamente na semana em que se prepara para abandonar o governo após dez anos manchados pela controvérsia em redor da guerra no Iraque.

Outra figura importante em todo este processo foi a do líder do Sinn Fein, Gerry Adams, que não fará parte do governo mas foi o grande arquitecto deste acordo, ao convencer o IRA a abandonar a luta armada após três décadas de conflito que fizeram mais de 3600 mortos.

PERFIS

Martin McGuiness nasceu em Londonderry em 1950, e juntou-se ao IRA com vinte anos, precisamente na altura em que o grupo enveredou pela luta armada contra a ‘ocupação’ britânica. Juntamente com Gerry Adams, transformou o Sinn Fein no maior partido nacionalista. Desempenhou um papel crucial nas negociações de paz.
Ian Paisley nasceu em 1926 em Armagh. Filho de um sacerdote baptista, fez o seu primeiro sermão aos 16 anos, e aos 25 fundou a sua própria igreja, a Igreja Presbiteriana Livre. Crítico feroz da Igreja Católica, foi sempre um  defensor da união com Inglaterra, tendo em 1971 fundado o Partido Unionista Democrático, que foi o mais votado nas últimas eleições.

O CAMINHO PARA A PAZ

10/04/98 Assinatura do Acordo de Paz da Sexta-feira Santa.
15/08/98 Grupo dissidente do IRA faz explodir uma bomba em Omagh, matando 29 pessoas.
02/12/99 Tomada de posse do primeiro governo partilhado, suspenso três meses depois devido à recusa do IRA em desarmar.
23/10/01 O IRA garante ter iniciado o desarmamento.
14/10/02 Londres volta a suspender a Assembleia da Irlanda do Norte por suspeita de espionagem.
26/11/03 Unionistas de Paisley vencem as eleições.
28/07/05 O IRA anuncia o fim da luta armada. O grupo protestante LVF segue-lhe o exemplo um mês depois.
28/02/07 O Sinn Fein reconhece a autoridade da Polícia e do sistema judicial.
07/03/07 Unionistas vencem as eleições para a Assembleia Autónoma, seguidos pelo Sinn Fein.

OS NEGOCIADORES

Para além de Paisley e McGuiness, os grandes arquitetos do acordo de paz foram o primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern, o chefe do governo britânico Tony Blair e o líder do Sinn Fein, Gerry Adams.

SAIBA MAIS

3600 mortos e mais de 30 mil feridos é o trágico balanço de três décadas de conflito entre católicos e protestantes.
53,1 por cento da população da Irlanda do Norte é protestante, enquanto 43,8 é católica. As divisões remontam ao século XVII, quando protestantes da Escócia e Inglaterra foram enviados para a província para fortalecer a autoridade da Coroa.
Revolta antiga: A revolta contra o domínio inglês na Irlanda começou no século XII, e culminou na rebelião da Páscoa de 1916 em Dublin.
Domingo Sangrento: Um dos episódios mais trágicos do conflito foi escrito em 1972, quando as tropas britânicas abriram fogo sobre uma manifestação católica, matando 14 pessoas.
Posições Antagônicas: A maioria protestante quer manter a ligação ao Reino Unido, enquanto os católicos defendem a junção à Irlanda.

Ricardo Ramos com agências para o Correio da Manhã

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