A missão de reacender o espírito católico no Brasil

Por Ben-Hur Correia e Raquel Almeida para a InfoNet

 

Papa acena para os fiéis na despedida do Mosteiro de São Bento/ Foto: Ângela Barbour/visitadopapa.org.br

O Papa se despede do Brasil amanhã, 13, deixando uma multidão de fiéis satisfeitos, e vários discursos em que reafirma seu posicionamento firme à frente da instituição católica. Neste domingo, Bento XVI irá presidir a abertura da 5ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, o motivo inicial de sua viagem ao Brasil. É nesse evento que será discutido um dos grandes objetivos da visita do Papa: a reconquista de fiéis no continente católico.

Segundo dados da pesquisa Datafolha, publicada no último domingo, 6, 64% da população brasileira se declara católica. O número diminuiu em relação à 1994, quando 75% dos brasileiros deram a mesma resposta. Já os evangélicos pentecostais somam 20% nas regiões metropolitanas de todo o país, numa linha ascendente de crescimento.

O menino Enzo recebe a comunhão das mãos do Papa, na missa do Campo de Marte/ Foto: Michelino Roberto

O professor de filosofia e teologia da UFS, especializado em Ética e Filosofia da Religião, Márcio Gimenes de Paula, considera que os dados são curiosos até tendo em vista a última visita do papa anterior, João Paulo II. “Eu não chamaria de um aumento do protestantismo, mas de um crescimento de uma face derivada do protestantismo – que é o pentecostalismo. Isso se deve muito ao fato da Igreja católica ter deixado muitas vezes seu rebanho, não ter dado à devida assistência, e ao mérito desses grupos”, diz o professor.

Márcio ressalta que as Igrejas Pentecostais atuam justamente com públicos em situações adversas, para constituir seus fiéis e figuras de influência pública. “Você vê por exemplo a Igreja Universal investindo em áreas carentes, mas também em correntes empresariais”, comenta.

Papa durante a reunião com os bispos brasileiros na Catedral da Sé, São Paulo/ Foto: José Cordeiro

O evangélico Luís Paulo Miranda, responsável pela área educacional da Igreja do Evangelho Quadrangular, também atribui o crescimento do número de evangélicos ao tradicionalismo da Igreja Católica. “Me parece que a Igreja Católica parou no tempo. Não acompanhou o desenvolvimento e as características das gerações. Talvez a maneira de pregação, e a aproximação do evangelho na vida contribuam também nisso”, diz Paulo.

Somente na Grande Aracaju estão instaladas mais de 20 Igrejas do Evangelho Quadrangular. Semanalmente mais de 1.500 pessoas visitam a filial do bairro Jardins, onde o culto mais cheio acontece aos domingos. A sede fica na avenida São Paulo, bairro Siqueira Campos.

Vendo o crescimento dessas vertentes da Igreja o professor Márcio não hesita em falar do caráter estratégico da visita do Papa ao Brasil. “O papa é um grande estrategista. E eu acho que ele tem uma estratégia clara de reestruturação da Igreja Católica. Acho isso legítimo, observando do ponto de vista que ele preside uma Igreja. Mas tirando o aspecto teológico é uma instituição multinacional. E é uma multinacional que está apresentando problemas na América Latina, por isso resolveu investir nesse local”, explica o professor.

O evangélico Luís Paulo, da Igreja do Evangelho Quadrangular

Para ele, um dos fatores notórios de investimento é o aumento da participação da Igreja Católica com meios de comunicação. Hoje, os católicos têm dois canais de TV abertos em rede nacional, a Rede Vida e a TV Canção Nova. “Eu acho perfeitamente compreensível. Isto é mais do que uma reconquista de rebanho é um certo direcionamento. Bento XVI é um papa que claramente tem problemas com a modernidade e tenta enquadrar seus fiéis num novo mundo” explica.

“E como fazer isso? Indo pessoalmente aos lugares e arrumando pessoas de sua confiança. Ele não quer perder fiéis, mas também mantém um discurso tradicionalista”, completa o professor.

Em seu discurso na última sexta-feira, 11, para os bispos na Catedral da Sé, Centro de São Paulo, o sumo pontífice criticou a mídia, as ‘seitas’, e a saída de fiéis da Igreja Católica. “Entre os problemas que afligem a vossa solicitude pastoral está, sem dúvida, a questão dos católicos que abandonam a vida eclesial. Parece claro que a causa principal possa ser atribuída à falta de uma evangelização em que Cristo e a sua Igreja estejam no centro de toda explanação. As pessoas mais vulneráveis ao proselitismo agressivo das seitas são geralmente os batizados não suficientemente evangelizados, facilmente influenciáveis, porque possuem uma fé fragilizada e, por vezes, confusa, vacilante e ingênua, embora conservem uma religiosidade inata”, disse Bento XVI.

Leia o discurso do Papa Bento XI para os bispos na íntegra

Missão de Fé

Multidão à espera do Papa Bento XVI no Campo de Marte – SP / foto: João Gustavo Racca – press@opusdei.org.br

Bento XVI, ainda em seu discurso na Catedral da Sé, foi claro ao pedir que os bispos que busquem seus rebanhos. “Trata-se efetivamente de não poupar esforços na busca dos católicos afastados e daqueles que pouco ou nada conhecem sobre Jesus Cristo, através de uma pastoral da acolhida que os ajude a sentir a Igreja como lugar privilegiado do encontro com Deus e mediante um itinerário catequético permanente”. 

No avião rumo ao Brasil, Joseph Ratzinger afirmou que está preocupado com o aumento de evangélicos na América Latina. “O avanço das seitas (evangélica) significa que há uma sede de Deus” e que a missão da Igreja e dos católicos é “oferecer seu testemunho para que todos juntos encontrem um caminho que ofereça condições de vida mais justas para estas pessoas”.

O Papa não está errado quando julga que as pessoas ainda procuram por Deus no Brasil. A pesquisa Datafolha apurou que 97% dos brasileiros acreditam em Deus. Para o Monsenhor Carvalho, expressivo representantes da Igreja Católica em Aracaju, isso expressa a sensatez da população brasileira. O clérigo disse acreditar que a Canonização de Frei Galvão vem para reascender a chama católica no povo.

Monsenhor Carvalho

“A canonização do Frei vai estimular os brasileiros à compenetração pela vocação da santidade. Todos nós somos chamados à salvação”, disse. O Monsenhor também afirma que a Igreja está procurando se atualizar e agregar os jovens. Uma prova disso seria a “celebração da palavra” que aconteceu no Pacaembu para 30 mil jovens católicos na quinta-feira, 10.

“A Igreja está sempre em renovação. A preocupação do Papa é mostrar aos jovens que há outros ideais para a juventude se ocupar. Para que assim os jovens possam contribuir na construção de uma nova sociedade”, ressaltou Monsenhor Carvalho. 

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