Capitalismo e marxismo falharam, diz o papa Bento XVI

Por Carmen Munari e Philip Pullella

APARECIDA (Reuters) – Em seu pronunciamento mais politizado feito no Brasil, o papa Bento XVI condenou o crescimento da desigualdade social na América Latina e afirmou que tanto o capitalismo como o marxismo foram incapazes de combater a pobreza e ficaram longe de levar justiça social à região.

O discurso, o último da viagem de cinco dias no Brasil, marcou a abertura da 5a Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe em Aparecida, a 167 quilômetros de São Paulo. O evento, com a presença de 162 bispos de toda a América Latina, vai discutir até o final do mês diretrizes para estancar a perda de fiéis da Igreja Católica para outras religiões. A região reúne a metade do 1,1 bilhão dos católicos de todo o mundo.

“Tanto o capitalismo como o marxismo prometeram encontrar o caminho para a criação de estruturas justas e afirmaram que estas funcionariam por si mesmas… Esta promessa ideológica ficou demonstrada que era falsa. Os fatos o demonstram”, atacou Bento 16 sem meias palavras.

Ao marxismo imputou a pena de ter realizado “uma destruição do espírito humano”, enquanto o capitalismo levou ao aumento da distância entre ricos e pobres e a uma “inquietante degradação da dignidade pessoal com as drogas, o álcool e ilusórias formas de prazer”.

As duas ideologias, para o papa, compartilham o que ele chamou de “o erro mais destrutivo” porque ambas “falsificam o conceito realidade separando-o de Deus”.

O papa também se referiu à globalização, tendência econômica em que ele vê um avanço pela unidade que proporciona, mas que apresenta “os riscos dos grandes monopólios e de converter o lucro em um valor supremo”. Pregou em seguida que a globalização deve ser marcada exercício da ética.

Ele elogiou o avanço da democracia na região, mas disse que há motivos de preocupação com as formas de governo autoritárias, “sujeitas a ideologias que se acreditava superadas”. Sem mencioná-los diretamente, o papa mandou um recado para países como Venezuela, de Hugo Chávez, e Bolívia, de Evo Morales, que experimentam um giro ao socialismo.

Outro recado recai nos religiosos que optaram pela Teologia da Libertação, tendência que ressaltava o engajamento da Igreja Católica na questão social utilizando a teoria marxista como fundo. Vigorosa nos anos 70 entre latinos, foi condenada pelo Vaticano anos depois.

REESCREVENDO A HISTÓRIA

Bento XVI também voltou no tempo ao mencionar o papel da Igreja junto aos povos que habitavam a América Latina há 500 anos. Ele não considerou impositiva a postura das inúmeras missões que catequitazaram os antigos habitantes ao continente.

“De fato, o anúncio de Jesus e seu evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estranha”, disse logo na abertura de seu longo discurso, lido na maior parte em espanhol, com alguns trechos em português.

Ele justificou a aceitação do catolicismo por esses povos, como natural, uma vez que as culturas, segundo ele, não são fechadas nem “petrificadas”.

Bento XVI também exortou a América Latina a defender a tradição da família e atacou as ameaças de legalização do aborto, o materialismo e a vida marcada pelo prazer.

Apesar de defender que a Igreja Católica na região apóie a justiça social, o papa, que rezou missa para 150 mil pessoas na parte externa da basílica de Aparecida, deixou claro que não permitirá que ela se politize. A Igreja, disse, deve atuar como um “advogada da justiça e da verdade” enquanto a população da América Latina precisa da palavra de Deus como gênero de primeira necessidade.

Ele voltou ao aborto e aos métodos contraceptivos, ao dizer que são práticas que “ameaçam o futuro dos povos”. Recentemente, o aborto foi legalizado na Cidade do México e, no Brasil, o ministro José Gomes Temporão (Saúde) defende a realização de um plebiscito para discutir a legalização do aborto, prática que considera uma questão de saúde pública.

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