Gil Vicente e sua senhora

Esta historinha, além de muito divertida, ilustra a utilização da tão famigerada crase. Bom proveito:

Josué Machado in Revista Língua Portuguesa

Conta-se que a mulher do dramaturgo português Gil Vicente (1465-1536), um dos pais da língua, gostava muito de ir à padaria. (Para crer na história é preciso crer que os portugueses inventaram a tradicional padaria, que continuam a dominar por aqui.) Pois Maria saiu num domingo à tarde para ir à padaria do Ricardo a poucas quadras de casa.

Compraria pão e frios para o lanche da tarde. Mas tardou acolá mais de uma hora, como sempre fazia, às vezes até por mais tempo. E o Gil Vicente, lá, batucando no computador a Farsa do Juiz da Beira. De repente, ligou-se. Não era a primeira vez que Maria saía à chucha-caladinha (de fininho).

Mais que desconfiado de alguma tratantada da mulher, partiu para Madri e deixou-lhe um bilhete, que já brotou em redondilhas maiores, mais ou menos como as linhas abaixo (as redondilhas são deste escriba, que as compôs em homenagem a Gil e sua senhora):

“Mi mui fremosa Meria,
se levas mais de uma hora
para ir aa paderia,
acho que devo ir-me embora.
 Se não te dou o que queres,
e o buscas na paderia,
não penses que tu me feres,
fica aa vontade, ó M’ria.”

A desdita de Gil Vicente com sua senhora vem a calhar para resolver a dúvida de muita gente. Os versos da época usavam “aa vontade”. Agora, seria “à vontade”. “À vontade” e  locuções semelhantes têm acento? Sim. A locução adverbial “à vontade” leva o acento grave. Assim como “às claras”, “às tontas”, “às escuras”, “às vezes”, “à uma hora”, “à risca”, “à tripa forra”, à choldraboldra” e muitas outras.

Gil Vicente não o usou, porque naquele tempo não ficava bem indicar uma cópula gramatical: a do a com o a. Ele e seus coevos, como se chamavam os contemporâneos da época, juntavam os dois “as”, um ao lado do outro. Portanto, a menos que se queira tomar a liberdade – não a de Maria, a vil, mas a que tomou Gil – de escrever “aa vontade”, é melhor usar o acento. Depois da invenção desse acento indicador da crase, da fusão, da cópula abençoada da preposição “a” com o artigo “a”, tudo ficou mais fácil.

Até ir à “paderia” à vontade, à larga, à margalhota, à mossa, à muita, à oculta, à portuguesa, à precaução, à procura de, à pura fome, à quieta, à rangalheira, à rébria, à reçaluta, à refalsa, à socapa, à sôfrega, à solapa, à sorrelfa, à sucapa, à surdina, à surrelfa, à toa, à toinha, à traição, à tuna, à ula-ula, à vontade a gosto, à vontadinha, à vontadíssima. E por aí vai.

Nem sempre crase

É preciso lembrar, no entanto, que nem sempre o acento grave indica a fusão de dois “as”. No caso de algumas expressões formadas com palavras femininas, ele serve apenas como sinal de clareza ou para atender às tendências históricas da língua. É o que lembrava o filólogo Said Ali, já no céu. Por exemplo: à força, à maneira de, à medida que, à proporção que, à toa etc. Em caso de dúvida, o dicionário esclarece, como sabemos todos, quando se procura nele a palavra fundamental da locução. “À vontade”? Procura-se “vontade”.

Claro que não se acentua o a de locuções formadas com  palavras masculinas. (“A Justiça não pune colarinho-branco nem a cacete.”) Nem se a palavra, ainda que delicadamente feminina, estiver no plural e o a, no singular, como em “a expensas de” ou “a súbitas”. Não se acentua também o a de locuções formadas por substantivos iguais: “de parte a parte”, “face a face”, “frente a frente” e todas as outras que Gil Vicente, Camões e Antônio Houaiss já usaram tão bem.

Na locução “a distância”, acentua-se o a apenas quando  a palavra “distância” é definida, determinada, seguida de uma expressão restritiva. Em caso contrário, nada de acento.

Com determinação da distância:

“Vi o candidato repelente, que diz não ter dinheiro no exterior, à distância de cinco metros.”
“Eles estavam à distância de uma boa e rendosa privatização.”

Sem determinação da distância:

“Vi o candidato suarento a curta distância e senti arrepios.”
“O presidente ignorou o aviso para ficar a distância dos corruptos mais desavergonhados.”
“Nota-se a distância que a Justiça tarda, mas falha.”

Alguns sábios, no entanto, para simplificar as coisas, consideram que o a de “a distância” deve ser acentuado sempre, haja ou não determinação da distância. Um desgosto para os mais cuidadosos. Convém ficar a distância, assistindo aos arrufos deles, como o Gil Vicente assistia a tudo filosoficamente, deixando sua dadivosa senhora à vontadinha.

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