Governo chinês declara guerra ao ‘vício na web’

Ariana Eunjung Cha/The Washington Post
Pequim

REUTERS

ADOLESCENTES NA MIRA – Maioria dos “viciados” em internet tem entre 12 e 24 anos; na foto, jovens em cybercafé na cidade de Suining

Sun Jiting está trancado em uma base militar. O estudante de 17 anos não pode se comunicar com amigos ou voltar para casa. Seu único contato é com psiquiatras, enfermeiros e outros pacientes. A cada manhã, pontualmente às 6h30, é acordado por um soldado que diz: “É para o seu próprio bem.” O crime de Jiting? Vício na internet.

Assustado com uma pesquisa que apontava a vulnerabilidade de 14% dos adolescentes na China em se viciarem na web, o governo lançou uma campanha para tratar “esse grave problema social”. O país já luta contra vícios em drogas e álcool. Agora, se vira contra o abuso na web, o que a mídia estatal local já aponta como causador de assassinatos e até suicídios.

Há alguns meses, a China tomou medidas para limitar o tempo de conexão dos jovens. Já existe censura há tempos sobre o que a população vê na rede. Agora, com a cruzada contra o vício, oito clínicas de reabilitação estão sendo montadas.

Há controvérsias quanto a se o uso excessivo de web é uma doença. Os defensores dizem que o vício causa desinteresse no trabalho, na escola e na vida social. Mas nenhum país havia abraçado tanto essa teoria.

Em Pequim, uma clínica no bairro de Daxing, na periferia, é a mais antiga da China, com média de 60 pacientes. A maioria tem entre 12 e 24 anos. Muitos foram levados pelos pais.

Coordenado por Tao Ran, um militar que fez carreira tratando de viciados em heroína, a clínica utiliza métodos como disciplina militar, drogas, hipnose e choques elétricos. A idéia é que há semelhanças entre viciados em internet e em drogas.

“Se um viciado não puder entrar na web, há reação física, como nas drogas”, diz Ran. “E a necessidade aumenta. Se você usa hoje meia hora, no próximo dia, precisa de 45 minutos.”

A clínica conta com grades nas janelas. Na sala 8, há brinquedos para os pacientes se distraírem enquanto são vigiados. Na 10, máquinas de tiro falsas dão a impressão de jogar games de verdade. Já a 4 reconstitui o ambiente doméstico, com móveis e flores, para os internados se sentirem em casa ao falar com os conselheiros.

Entre os internados estão Yu Bo, de 21 anos, e Li Yanjiang, de 15 anos. Os dois passavam cerca de cinco horas semanais conectados e dizem que isso não afetava suas vidas. Mas seus pais não queriam que ficassem no PC. Bo concordou em ir para a clínica, pois queria se tratar. Yanjiang, por querer “se livrar da aporrinhação dos pais”.

Antes que o personagem do início da reportagem, Jiting, entrasse na clínica, em janeiro, ele ficava 15 horas direto nos games. “Não tinha rotina”, diz. Em dezembro, concluiu que a escola “não era interessante.” Desesperados, seus pais o internaram. Agora, ele quer terminar o colegial, ir para a faculdade e, depois, trabalhar.

Na clínica, ninguém fica confortável ao falar no terceiro andar. Por lá estão os casos mais sérios. O responsável pela clínica, Ran, diz que já houve um paciente que cortou os pulsos, mas sobreviveu. Os jovens são supervisionados permanente.

Segundo ele, a chance de cura é pequena nesse andar. “As almas dos garotos foram sugadas pelo mundo virtual”, diz. Nos demais andares, a chance de recuperação é de 70%.

Depois de todos os tratamentos que recebeu, o jovem Jiting diz que a conversa foi o que mais surtiu efeito. Ele quer ir para a escola e para a sua nova vida. O primeiro compromisso em sua agenda quando chegar em casa?

Entrar na internet. “Preciso contar para os meus amigos virtuais, que estão preocupados, onde estive nesses últimos tempos.”

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