Scorsese dá aula de cinema e desmistifica obras

Do JConline

Kleber Mendonça Filho

Martin Scorsese explicou, entre outras coisas, o motivo de Touro Indomável ser em preto-e-branco

Um dos momentos mais esperados da programação 2007 do Festival de Cannes foi a Leçon de Cinèma (aula de cinema), evento que este ano foi promovido para a segunda maior sala, a Debussy, por se tratar do convidado especial de honra do festival, Martin Scorsese. Em anos anteriores, nomes como Wong Kar Wai e Oliver Stone ocuparam salas menores com suas aulas.

Durante 90 minutos, Cannes ofereceu um dos maiores nomes do cinema mundial para uma platéia repleta de críticos, cinéfilos e, principalmente, jovens estudantes, que ouviram Scorsese entrevistado pelo veterano crítico da revista Positif, Michel Ciment. O diretor de Taxi Driver e Os Infiltrados (pelo qual finalmente ganhou seu Oscar, em março) discutiu o seu cinema a partir de cinco trechos da sua filmografia, apresentados na tela. Quentin Tarantino estava na platéia, prestigiando.

Quentin Tarantino prestigiou a aula de cinema

Scorsese, que também está em Cannes promovendo o World Cinema Foundation, entidade por ele articulada para preservar a memória do cinema, deu início à sua aula de cinema lembrando da sua infância e culpando a asma pela provável inclinação natural para o cinema. “Fraco, baixinho e asmático, o esporte não era a minha praia, e eu ainda apanhava. Terminei vendo À Beira do Abismo (The Big Sleep), de Howard Hawks, aos nove anos de idade, fator essencial para a minha formação”.

Sobre estudar em escola de cinema, Scorsese disse que foi importante, embora no final dos anos 60 o conceito de escola de cinema era bem diferente do que existe atualmente. “Na Universidade de Nova York, onde estudei, o curso não era “curso de cinema”, mas existia um departamento de “motion picture” que incluía também televisão e rádio. Digo ainda que você pode aprender cinema sem ir a uma escola; descobri isso quando vi Bonnie & Clyde e guardei uma cena na cabeça de maneira errada. Quando Gene Hackman leva um tiro na cara, pra mim era um close-up, mas depois fui rever o filme e vi que era um plano médio, mais aberto. Entendi que a montagem, o som e o seu envolvimento com o filme ganham contornos pessoais, você seqüestra o filme para você mesmo, e creio que isso é cinema”.

Scorsese falou também que os seus anos de formação e toda a sua geração formada por Brian de Palma, George Lucas, Steven Spielberg, Paul Schrader, foram marcados pelos ventos que vinham da Europa. “Filmes como Jules e Jim, de Truffaut, O Desprezo e Viver a Vida, de Godard, o cinema italiano de Fellini e Antonioni, mudaram por completo a noção de “cinema de narrativa” nos EUA, defendido por Hollywood”. Scorsese ilustrou isso com um trecho do seu Caminhos Perigosos (Mean Streets, que passou em Cannes), onde pulos e o embaralhamento de informações nos primeiros minutos do filme, onde apresenta seus personagens, mostram influências diretas desses cinemas estrangeiros.

“Bom lembrar que antes eu fiz Sexy e Marginal (Boxcar Bertha) para Roger Corman, que foi outra escola importante para mim. Nesse filme, ele me ensinou uma coisa que eu ainda não havia pensado: ‘Filme o mais difîcil no início’. Tínhamos cenas com trens, e vocês sabem que trabalhar com animal, criança e trem é duro. Quer fazer o segundo take com um trem? Espera meia hora o trem poder dar ré e voltar pro lugar certo. Terminamos filmando todas as cenas com trens e vagões nos primeiros quatro dias. Corman me ensinou também a fazer um filme em 24 dias.”

Num contato como este com cineasta cuja obra é tão acompanhada revela-se fonte inesgotável de anedotas que tanto auxiliam na compreensão do cinema e dos seus mecanismos, como também desmistificam obras que muitas vezes são vistas com zêlo excessivo por parte dos que as apreciam.

Scorsese, por exemplo, explicou que um dos motivos que o levou a filmar Touro Indomável em preto e branco foi o fato de seu filme estar sendo lançado numa safra 1979-1980 composta por mais três filmes de boxe, engarrafando o mercado. “Um dos filmes era Rocky II, outro era Negócios Com Mulher, Nunca Mais (The Main Event, com Barbra Streisand e Ryan O’Neal), e um outro com um canguru boxeador. Eu pensei, se o meu for preto e branco, talvez ele se destaque, o que, claro, trouxe problemas para o estúdio United Artists, que não queria lançar um filme preto e branco em 1980. Mas Irwin Winkler, produtor, conseguiu convencê-los, ou lembrá-los, que dois filmes em preto e branco – naquela época recentes – tinham ido bem de bilheteria – Lenny, de Bob Fosse, e Lua de Papel, de Peter Bogdanovitch -, e terminaram aceitando”.

Contextualizando historicamente a sua trajetória, ele mostrou seqüência memorável de Depois de Horas (After Hours, 1986), sua comédia de humor preto-piche sobre um nova-iorquino que se perde na noite louca de Manhattan. Lembrou que o filme marcou precisamente o fim do sonho da sua geração, que surgiu nos anos 70 com filmes autorais bancados pelo mercado.
“Em 1985-86, eu não teria tido mais a chance de fazer um filme como Touro Indomável, da mesma maneira que eu vi o projeto de A Última Tentação de Cristo ser cancelado. Como alternativa, fui fazer Depois de Horas, 40 noites de filmagem que me ensinaram o quanto o gênero comédia é difícil”.

Sobre o uso de música nos seus filmes, Scorsese disse que as imagens puxam as músicas, e mostrou cena de Cassino onde o personagem de Robert de Niro apaixona-se à primeira vista pela mulher interpretada por Sharon Stone. “Em Os Infiltrados, ambientado hoje em dia, eu tive dificuldade porque adoraria conhecer bandas que sei que são boas, como Radiohead, Coldplay, mas não a conheço. Fomos em radiolas de ficha em bares e anotamos músicas presentes, e parte das escolhas veio dessa forma.”

Martin Scorsese trabalha atualmente na continuação de dois projetos que, há dez anos, elevou ainda mais a sua imagem de apaixonado pelo cinema. Depois de 100 anos de Cinema Americano (1995), onde analisou o cinema do seu país que o levou a entender melhor esse meio, e Mio Viaggio in Italia (2001), trabalho ainda melhor sobre a herança de cinema italiano, ele prepara An Observation on British Cinema (Uma Observação Sobre o Cinema Britânico) e a segunda e aguardada parte para a sua viagem ao cinema da Itália. “São trabalhos que estou realizando com Thelma Schoonmaker”, a montadora que é sinônimo do que entendemos como “a Martin Scorsese picture”.

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