Estudantes surgem como oposição na Venezuela

Do Repórter Diário

A polêmica aberta com o fim das transmissões da Rádio Caracas Televisão (RCTV) na Venezuela deu visibilidade para uma oposição ao presidente Hugo Chávez muito mais palatável para quem não tem convicções políticas radicais. Saíram de cena as classes políticas tradicionais e as associações empresariais – desgastadas aos olhos de boa parte da população – e entraram os estudantes universitários, atores de novela e outras celebridades.

Na manhã desta quarta-feira (30), até o capitão da seleção venezuelana de futebol, José Manuel Rey, ligou para a emissora Globovisión, única que se mantém na oposição ao presidente, para lamentar a saída do ar da RCTV. As manifestações são muitas e emocionadas. Protagonista da novela mais popular do país, Mi Prima Ciela, a ex-miss Monica Spear, chorou na frente das telas no domingo, último dia da emissora no ar, e o ator veterano Franklin Virgüez ajoelhou-se num programa de televisão na quarta-feira para pedir a volta das transmissões. Mal comparando, é como se o Antônio Fagundes e Claudia Abreu viessem a público implorando para que o presidente lhes devolvesse o emprego.

“Esse tipo de manifestação tem um grande apelo – não só na classe média que é igualmente crítica ao presidente e aos políticos da oposição – até entre os chavistas, que cresceram vendo os humorísticos e novelas dessa emissora privada”, disse o cientista político Herbert Koeneke, da Universidade Simón Bolívar. “Nunca tivemos uma divisão tão profunda na base de apoio do presidente, nem uma crítica tão coesa contra ele na comunidade internacional.”

Há 53 anos no ar, a RCTV era a emissora mais popular da Venezuela, mas o governo se recusou a renovar sua licença para transmitir pelo canal 2 alegando que seus diretores eram “golpistas” e não cumpriram compromissos legais e fiscais. A decisão motivou uma série de protestos de países e organizações internacionais, preocupados com o cerceamento da liberdade de expressão na Venezuela, e desatou uma onda de manifestações estudantis por todo o país, que já deixou um saldo de dezenas de feridos e 182 detidos – menores de idade, na maioria.

Nos últimos anos, a audiência da RCTV rondava os 40% – boa parte das classes D e E. “Sempre apoiei o presidente Chávez porque ele criou muitos projetos para melhorar a vida na comunidade onde moro, no Petare, mas fechar a TV que todos nós víamos desde que nascemos não pode estar certo”, disse Maria Victória Azueta, vendedora ambulante de 30 anos. Como ela, muitos chavistas ficaram decepcionados com a medida, apesar de outros – e especialmente aqueles que fazem parte das missões educativas e das universidades bolivarianas – terem marcado posição em favor do governo em passeatas na capital.

De acordo com uma pesquisa da consultoria Hinterlaces, cerca de 80% da população rejeita a ação contra a TV. Considerando que Chávez se reelegeu com 62% em dezembro, a conclusão é a de que pelo menos 42% da população que deu seu voto ao presidente não está de acordo com a decisão de não renovar a concessão da emissora.

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