ETA volta a assombrar a Europa

Renate Krieger para o G1

O medo e a insegurança voltaram ao cotidiano dos europeus nesta semana com o anúncio do grupo separatista basco ETA de que retomaria suas atividades terroristas.

O grupo, que havia declarado paz nos últimos 15 meses, recorre à luta armada desde 1968 pela independência do País Basco, uma região que se estende entre o Norte da Espanha e o Sudoeste da França.

Desde então os atentados do ETA já mataram mais de 800 pessoas. O grupo, cuja sigla é uma abreviação de Euskadi Ta Askatasuna (“país basco e liberdade”), quer transformar essa região da Europa em um Estado socialista e antiliberal.

Agora, o alerta voltou ao velho continente. A polícia acredita que o ETA pode praticar um ato terrorista a qualquer momento.

Em entrevista ao G1, ainda antes do anúncio da interrupção do cessar-fogo, o porta-voz do Batasuna (partido radical de esquerda e, na prática, o braço político do ETA), Xabier Larralde, afirmou que a culpa é do governo espanhol.

“A repressão policial e judicial é uma fórmula que fracassou durante todos esses anos”, disse Larralde, aludindo a quase 40 anos de conflitos. “O processo pacífico requer vontade política. O triste é que, com a falta dessa vontade e com a perspectiva de Zapatero [José Luis Rodríguez Zapatero, atual presidente espanhol], o conflito vai continuar”, afirmou.

Larralde falou ao G1 de Bayonne, cidade do sudoeste francês, após o atentado que matou dois imigrantes equatorianos no aeroporto de Madri-Barajas, em dezembro passado.

Com o atentado de Madri, o governo de Zapatero admitiu o fracasso de sua política antiterrorista. Rompeu o diálogo com os rebeldes porque viu na explosão de dezembro o fim do cessar-fogo.

Para Xabier Larralde, o ataque foi apenas uma maneira de alertar o governo para sua insatisfação com a atitude de Zapatero. “O processo de paz no País Basco não significa uma rendição do ETA: eles não querem trocar prisioneiros por armas. Com o atentado, o grupo quis dizer que ainda tem as armas na mão, continua lá, quis demonstrar força”, explica.

AP

Xabier Larralde, à esquerda, ao lado de outro líder do Batasuna, Zigor Gogeaskoetxea (Foto: AP)

O ETA foi criado em 1959, durante a ditadura do general Francisco Franco, inicialmente para manter viva a cultura basca durante o regime militar. Anos depois é que o grupo passou a defender a independência do País Basco -que é sua bandeira atual.

Assim como o ETA, o Batasuna também culpa o governo espanhol pelo fracasso do processo de paz. Na semana passada, o braço político dos terroristas descreveu como “extremamente grave” a situação das negociações entre o ETA e o governo espanhol.

Arnaldo Otegi, porta-voz da fração espanhola do partido, alertou que a “trégua” do ETA levou a “perseguições ainda maiores” à esquerda radical, “em vez de acelerar as soluções”. Mas a decisão de encerrar a trégua é de responsabilidade “única e exclusiva” do ETA, disse Otegi ontem, distanciando o Batasuna dos rebeldes.

Não somos gângsteres

O Batasuna (que significa unidade, em basco) nasceu em 1978, como coalizão de quatro partidos de esquerda que defendiam a independência do País Basco.

Apesar de ser visto pela comunidade internacional como o braço político do ETA, o partido nega qualquer envolvimento com o grupo separatista basco. “Não existe nenhuma relação entre o ETA e o Batasuna”, disse Larralde ao G1.

Para o porta-voz do partido basco, associar as duas organizações é ‘intriga’: “O pretexto da luta antiterrorista justifica muita coisa, como ações policiais e prisão dos militantes. E também acusa [erroneamente] formações políticas como o Batasuna de terem ligações com grupos antiterroristas”.

AP 

Zapatero passa pela destruição causada pelo último atentado do ETA (Foto: AP)

Mas o Batasuna nunca condenou os atentados do grupo separatista. “Isso não quer dizer que fazemos apologia ao terrorismo”, rebate Larralde. ”Nós não condenamos o ETA, porque o que quer que eles façam, não são mafiosos, gângsteres. São pessoas com armas na mão porque existe um problema político na base do conflito”, diz.

Por amparar o ETA, o Batasuna foi ilegalizado pelo governo espanhol em 2003. O veto poderia ter sido retirado este ano, caso o cessar-fogo durasse. A formação é legal na França.

Novo ataque

Especialistas da luta antiterrorista acreditam que, enquanto os políticos discutem, o ETA já prepara seu próximo ataque. Os 15 meses de cessar-fogo teriam servido para que o grupo desenvolvesse novas estratégias e adquirisse mais armas.

Segundo a agência alemã de notícias DPA, especialistas estimam que o ETA tenha entre 200 e 300 militantes e cerca de 50 membros em comandos de reserva. Todos prontos para atacar imediatamente. Empresários no País Basco também tinham voltado a receber cartas de extorsão para financiar os ataques do grupo.

Para os analistas, a França continua sendo uma espécie de santuário dos ativistas bascos. Trata-se de uma zona de preparo logístico para atentados que podem ser perpetrados na Espanha. O vespertino francês Le Monde destacou ontem um seqüestro na cidade de Vauvert em outubro de 2006, quando 200 armas foram roubadas de um depósito. As autoridades contaram 12 atentados ou tentativas no País Basco francês desde o início do ano. Na Espanha, a polícia prendeu e desmontou diversas células terroristas. 

Zapatero perde força

Com o fim do cessar-fogo, os rebeldes do ETA parecem ter escolhido um momento propício para minar ainda mais a posição política de Zapatero. A tática já funcionou com os antecessores do premiê, o conservador José Maria Aznar e o socialista Felipe González. Ontem, Zapatero pediu o apoio de todos os partidos políticos na luta antiterrorista.

Na próxima segunda-feira (11/06), Zapatero encontra Mariano Rajoy, líder conservador do Partido Popular e o crítico mais virulento da postura socialista “ambígua“ contra o ETA. “O presidente do governo precisa dizer que não haverá nenhuma decisão, nem negociação com o ETA“, disse Rajoy, na terça passada.

O assunto divide os partidos espanhóis. Além da desunião política, o partido socialista de Zapatero também saiu enfraquecido das eleições municipais, em maio, consideradas um ensaio-geral para as eleições parlamentares, que acontecem em março de 2008. Apesar da vitória estreita, a oposição de direita se fortaleceu com a incerteza dos eleitores sobre as intenções do governo socialista com o ETA.

Em maio, a Espanha cancelou cerca de 400 candidaturas ilegais da esquerda independentista para as eleições municipais. O Batasuna, que normalmente distribui cédulas ilegais, foi vetado. Segundo o comunicado do ETA, esse foi um dos motivos para voltar à luta armada.

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