Banco Central muda regras de câmbio nos bancos

Gustavo Freire para o Estadao.com.br

O Banco Central anunciou na noite de sexta-feira, 8, três circulares que modificam as regras de operação dos bancos no mercado de câmbio e podem ajudar a conter a valorização do real frente ao dólar. “Isto pode ser uma demonstração de que o BC chegou ao limite em suas intervenções no mercado de câmbio à vista e futuro”, avaliou o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luiz Otávio de Souza Leal.

Por uma das medidas, aprovadas em reunião da diretoria do BC, o limite das operações dos bancos no mercado de câmbio – a chamada exposição cambial – será reduzido de 60% para 30% do patrimônio de referência, já a partir de segunda-feira. O limite de 60%, de acordo com informações do BC, estava em vigor desde o início de dezembro do ano passado.

A exposição cambial corresponde ao saldo líquido de operações de compra e venda. Como a maioria dos bancos está hoje “vendida” em câmbio, é provável que a mudança anunciada pelo BC nos limites de exposição cambial provoque alguma elevação na procura por moeda estrangeira. “O banco que estive vendido em câmbio terá que passar a comprar dólares para se enquadrar à regra”, disse um gestor de risco de um grande banco.

No entanto, o tamanho do impacto desta decisão sobre a taxa de câmbio, de acordo com o economista-chefe do Banco ABC Brasil, poderá ser limitado se o clima nos mercados externos permanecer tranqüilo na segunda-feira. “Nesta situação, é possível que o câmbio fique estável ou experimente alguma desvalorização”, comentou Leal.

Outras exigências

O Banco Central apresentou as mudanças como decisões que buscam aprimorar a segurança e solidez do sistema financeiro. De acordo com nota divulgada pelo BC, as medidas têm o objetivo de “atualizar a norma prudencial ao quadro de contínuo aumento das exposições cambiais do Sistema Financeiro Nacional”. Com o crescimento dos fluxos de dólares na economia, estima-se que a exposição cambial dos bancos teve um crescimento de aproximadamente 40% neste ano.

A diretoria do BC decidiu também aumentar de 50% para 100% a exigência de capital dos bancos necessário para fazer frente ao nível de exposição cambial. “Um banco que tem hoje R$ 100 milhões em exposição cambial passará a ter que possuir capital de pelo menos R$ 100 milhões se quiser manter o mesmo nível de operações”, explicou um gestor de riscos de um banco nacional de grande porte.

Essa alteração, entretanto, só entrará em vigor a partir do próximo dia 2 de julho. “Neste caso, o BC parece que teve a preocupação de dar aos bancos um prazo mais elástico de enquadramento ao novo regulamento”, disse a fonte.Em outra medida,o BC passou a exigir dos bancos que contabilizem na exposição cambial as operações feitas por filiais ou subsidiárias suas no exterior. “Aparentemente, a decisão visa frear a forte especulação com o real feita nos mercados de derivativos”, disse uma fonte do mercado financeiro.

Para os analistas, as posições vendidas em câmbio nos mercados de derivativos são uma das principais fontes de pressão sobre o real. Essa mudança também só entrará em vigor a partir de 2 de julho próximo. “Não acredito que o BC esteja querendo adicionar volatilidade aos mercados com estas medidas. Para mim, elas têm mais um caráter prudencial de garantir a solidez do sistema financeira num momento de aumento das instabilidades nos mercado externos”, disse uma outra fonte do mercado.

Para Luiz Otávio Leal, do ABC Brasil, o anúncio das medidas deve ainda provocar uma elevação das expectativas sobre a possibilidade de outras ações do BC. “O mercado ficará `ressabiado´ e passará a esperar que o BC adote outras medidas administrativas para conter a valorização do real”, disse. Por este motivo, ele acredita que o impacto maior das medidas será “psicológico”.

Antes disso, disse Souza Leal, será fundamental acompanhar os passos do BC na próxima semana. “Vamos ver se ele vai parar de atuar nos mercados à vista e futuro ou não. Vamos saber se o BC optará por adotar medidas administrativas e continuar atuando no mercado cambial”, comentou. Nos últimos meses, o BC comprou quantias bilionárias de dólares, o que elevou as reservas internacionais a níveis nunca vistos, mas essas operações não foram suficientes para evitar que o dólar caísse abaixo dos R$ 2,00.

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