Ecologia no século XVIII

Palmira F. da Silva para o DeRerum Natura

“Atlas Miller”, atribuído a Lopo Homem Reinéis, 1519. Bibliothèque National de France, Paris.

Domenico ou Domingos Vandelli, o primeiro diretor do Gabinete de História Natural e do Laboratorio Chimico da Universidade de Coimbra. Vandelli, que iniciou a atividade docente em Maio de 1773, dever-se-ia debruçar sobre História Natural e Química. No entanto, foi a História Natural que lhe mereceu atenção e Vandelli relegaria para um plano secundário o ensino e a pesquisa em química (que ficaram entregues a lentes substitutos dos quais se destacam Thomé Rodrigues Sobral e Vicente Coelho de Seabra). Nunca concluiu o manual de química que, como recordou D. Maria I na Carta Régia de 26 de Setembro de 1786, de acordo com os estatutos todos os docentes deveriam escrever. Vandelli, dispensado esse ano da docência para poder dedicar-se à escrita, escreveu nessa altura os Prolegomena ao sistema de Lineu.

De acordo com o historiador brasileiro José Augusto Pádua, coordenador do projeto “Brasil Sustentável e Democrático”, a preocupação expressa em português com o meio ambiente traça as suas raízes ao grupo que orbitava Vandelli na recém-criada (em 1779, por iniciativa de João Carlos de Bragança, segundo duque de Lafões) Academia de Ciências de Lisboa.

Embora a palavra ecologia tenha surgido em meados do século XIX, a perspectiva ecológica já se desenhava na economia da Natureza do século XVIII. Esta era uma visão integradora que considerava que, por serem interdependentes os elementos naturais, ao destruir parte do sistema danifica-se o resto, visão na qual se revia Domingos Vandelli, que abraçou o ecletismo do reformismo iluminista. O pequeno grupo de intelectuais brasileiros e portugueses que se reuniu em torno de Vandelli — composto por cientistas com formação básica em medicina, química e história natural — esboçaram uma ‘visão de mundo’ que centrava no domínio da natureza a recuperação do atraso nacional em relação à Europa das Luzes, refletindo igualmente sobre a questão da sustentabilidade ecológica. Deste grupo fez parte José Bonifácio, o Patriarca da Independência do Brasil – cuja filha mais velha Carlota Emilia, se viria a casar com Alexandre Vandelli, filho de Domingos Vandelli – considerado pelo historiador o primeiro e um dos mais importantes ecologistas deste país.

José Bonifácio de Andrada e Silva foi nomeado pela Carta Régia de 15 de Abril de 1801 lente da cadeira de Metalurgia – criada por outra Carta Régia dois meses antes-, que deveria ser ensinada no quarto ano do curso de Filosofia da Universidade de Coimbra. Tendo sido visitante das principais escolas de minas da época, como Freiberg e Paris, José Bonifácio verificou o atraso entre as referidas escolas e a “reformada Universidade de Coimbra”, sobretudo no campo das ciências naturais. Deficiências que impediam o desenvolvimento das ciências naturais em Portugal e que apontou num manuscrito denunciando, entre outros fatores, a falta de museus, gabinetes de física e laboratórios; a ausência do estudo das ciências naturais no plano de educação dos jovens e o pequeno número de imprensas para difundir o conhecimento científico. Todos esses fatores impediriam assim que o país superasse o atraso cultural e científico em relação à Europa das luzes.

José Bonifácio, que ficou mais de 30 anos fora do Brasil, regressou nas vésperas da independência, cujo processo liderou, e disseminou em terras de Vera Cruz as críticas ambientais que bebeu na Academia das Ciências de Lisboa. O filósofo, que se autodefinia “Eu não sou partidário da mitosofia ou da teosofia. Sou filósofo, isto é, constante indagador da verdadeira e útil sabedoria”, previa em 1823 que “o Brasil vai-se transformar nos desertos da Líbia em dois séculos”.

É curioso verificar que nos seus primórdios a ecologia foi assim influenciada pelo iluminismo e pelo racionalismo e não pelo retorno à “pureza” poética do romantismo brasileiro, com muitos pensam. E mais curioso verificar os seguidores de Vandelli no Brasil propunham “juntar o avanço racional da tecnologia com o cuidado ambiental” e consideravam que “a destruição ambiental é o preço do atraso, uma herança do passado colonial, da tecnologia rudimentar”.

Isto é, preconizavam que a harmonização ambiental é apenas possível via uma ação política integrada, que simultaneamente atue a nivel profundo na estrutura social de um país. Assim, consideravam que eram as relações sociais e econômicas perversas as principais responsáveis pela degradação ambiental. Nomeadamente e segundo José Bonifácio, “Só com a abolição da escravatura vamos mudar as nossas relações com as florestas, a terra, o território” já que considerava que a escravatura gerava preguiça nos donos das terras (e escravos) e falta de inteligência no uso do território. Hoje em dia não há escravos mas continuam atuais as reflexões catalisadas há mais de 200 anos pelo grupo da Academia de Ciências de Lisboa…

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