Bem-vindo a nova Caledônia

  Por Malu Gaspar/ Portal Exame

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Neocaledônios: resistentes à poluição e aos imigrantes

A maioria dos brasileiros não tem a menor idéia do que é nem onde fica Nova Caledônia. Trata-se de uma colônia francesa na Oceania com 270 000 habitantes, a meio caminho entre Austrália e Nova Zelândia, que ganhou uma súbita relevância para um grupo de executivos, analistas e acionistas da Companhia Vale do Rio Doce.

É lá, a 14 000 quilômetros da sede da mineradora, no Rio de Janeiro, que está o maior teste para a internacionalização da empresa: a mina de Goro, uma das maiores reservas de níquel do mundo. A mina, ainda em construção, é parte do “pacote” de compra da Inco, a mineradora canadense adquirida pela Vale em outubro do ano passado por 18 bilhões de dólares.

Encravada num paraíso tropical e próxima a uma barreira de corais, Goro sempre esteve no epicentro de disputas entre a Inco e ambientalistas, aborígenes e sindicatos. Agora está também no topo das prioridades de Roger Agnelli, o presidente da Vale. Habituado a delegar esse tipo de negociação, Agnelli acompanha pessoalmente o processo na Nova Caledônia. Foi duas vezes à ilha em cinco meses e tem mais duas viagens previstas até o fim do ano.

A mina de Goro é o maior e mais caro projeto da Vale no mundo, com custo total de 3,2 bilhões de dólares. Uma vez em operação, poderá atender até 4% da demanda mundial de níquel. O metal, usado na fabricação de aço inoxidável e baterias e na indústria aeroespacial, é o que mais se valorizou nos últimos 12 meses – 137%.

Para que a companhia consiga explorar todo o potencial de seu novo negócio, é crucial que a mina entre em funcionamento o mais rápido possível. Mas as obras só devem ser concluídas em 2009 – isso se não houver atrasos. O maior desafio da Vale na Nova Caledônia tem sido conseguir um acordo com os kanak, os aborígenes que vivem na ilha. Com aliados do porte do Partido Verde francês e do encrenqueiro José Bové (famoso por depredar lanchonetes do McDonald’s na França e invadir plantações no Brasil), os aborígenes têm sido irredutíveis.

No ano passado, protestos acabaram em prisões e depredação. Há três meses, eles bloquearam um emissário submarino para o lançamento dos resíduos da mina. Os aborígenes – e os ambientalistas – afirmam que as descargas vão poluir os corais e prejudicar a pesca. Segundo a Vale, os resíduos serão tratados e o impacto será mínimo. “A questão é que os kanak não querem cano algum”, diz Catherine Coumans, da ONG internacional Mining Watch.

O problema ambiental não é a única pendência da Vale com os neocaledônios. Há ainda outro conflito com os kanak, que nesse caso têm como parceiros os sindicatos. A Nova Caledônia segue a legislação trabalhista da França – com jornada de trabalho de 35 horas, impostos e confortáveis direitos trabalhistas que encarecem a mão-de-obra.

Quando a Inco iniciou as obras da mina, em 2002, foram importados cerca de 3.000 trabalhadores, a maioria filipinos, para reduzir os custos. Os kanak não aceitam os estrangeiros e já realizaram várias greves gerais em protesto, a última delas no ano passado. Os aborígenes reclamam que a imigração trouxe aumento da violência, da prostituição e de doenças, e querem ser compensados por isso. Os representantes da Vale alegam que, dos 5 000 funcionários da mina em construção, 3 000 já são locais e que os estrangeiros irão embora assim que a mina for concluída. “Todos, incluindo trabalhadores e sindicatos, agora entendem a situação”, afirma Corry McPhee, porta-voz da Vale baseado na sede da Inco, no Canadá. Jacques Boengki, um dos líderes dos aborígenes, diz que não é bem assim. Para ele, a perspectiva de um acordo ainda está muito distante.

Por que Goro é importante

A mina de níquel da Vale do Rio Doce na Nova Caledônia tornou-se o maior e mais ambicioso desafio da empresa. Os motivos:

Projeto estratégico

A mina de Goro, obra estimada em 3,2 bilhões de dólares, é o maior projeto da Vale em andamento. Quando pronta, atenderá 4% da demanda mundial de níquel

Impacto ambiental

Do total de investimentos previstos, um terço do valor — pouco mais de 1 bilhão de dólares — será destinado apenas a compensações ambientais

Teste de resistência

O empreendimento enfrenta a resistência de nativos, ONGs, sindicatos e organizações sociais preocupadas com a imigração descontrolada

A Vale tem se esforçado para manter o diálogo e ser simpática aos neocaledônios. Nas duas vezes em que esteve na ilha, Agnelli conversou com os operários e até rezou numa igreja local, o que foi muito bem recebido pela população profundamente católica do lugar.

A Vale também já trouxe ao Brasil duas delegações de aborígenes para conhecer seus projetos. Os kanak adoraram a visita, mas saíram um pouco chateados porque não tiveram a chance de se reunir com os índios brasileiros (um encontro que a empresa achou por bem não promover, sobretudo após os conflitos que envolveram a companhia e os xicrins, no ano passado). “A Vale conversar e negociar já é um grande avanço, algo que a Inco nunca fez”, diz Raymond Goldie, analista da corretora canadense Salman Partners.

Para a mineradora, a situação na Nova Caledônia é uma espécie de prova de fogo — segundo executivos da empresa, o sucesso na Oceania seria a consagração de sua estratégia de internacionalização. “Temos experiência com índios, ambientalistas e políticos no Brasil, isso não é pouco”, diz um desses executivos. Aparentemente, a estratégia da Vale começou a fazer efeito. “Os kanak já foram mais unidos. Depois das viagens ao Brasil, existem divisões entre eles”, diz a ambientalista Catherine Coumans.

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