A pergunta que não quer calar…

Por Eurípedes Alcântara para Veja

Chegou às livrarias americanas mais um livro que se propõe a esclarecer definitivamente a verdadeira história do assassinato de Kennedy…

A verdade pesa 2,5 quilos –

O promotor americano Vincent Bugliosi acaba de publicar a mais pesada prova, um livro de 2,5 quilos e 1 600 páginas, de que o presidente americano John Kennedy foi morto em 1963, em Dallas, pelo tiro disparado por uma única pessoa, Lee Oswald.

Bugliosi demole cada uma das teorias conspiratórias segundo as quais Kennedy foi morto ora pela Máfia, ora pela KGB ou pela CIA, ora pelo seu vice-presidente… ou por Fidel Castro, por supremacistas raciais, por traficantes de droga franceses…

Ah… o assassino pode também ter sido Larry Crafard. Larry quem? Ora bolas, o vigia noturno do Carousel Club, a boate cujo dono era Jack Ruby, o homem que matou Lee Oswald.

Crafard é o candidato a assassino preferido do maior de todos os autores de teorias conspiratórias, o promotor Jim Garrison, de Nova Orleans, vivido no cinema pelo astro Kevin Costner em JFK, filme de Oliver Stone, exibido no Brasil em 1991. Qual a evidência contra Larry Crafard? Depois do assassinato de Kennedy, o desempregado Crafard voltou de carona para sua cidade natal, no estado de Michigan. Só isso? Só. Mas é desse material que são construídas as teorias conspiratórias. A escassez de lógica, paradoxalmente, as torna bem mais difíceis de ser dinamitadas por provas reais.

Além de fluidas, incorpóreas, transmissíveis como o vírus da gripe no vagão do metrô, as teorias sobre a morte de JFK têm um grande aliado, a natural, e em muitos casos amplamente justificada, incredulidade das pessoas diante de versões oficiais.

Sete de cada dez americanos recusam a idéia de que Lee Oswald agiu sozinho no dia 22 de novembro de 1963, em Dallas. Cinco em dez preferem acreditar que Deus criou todos os seres vivos como descrito no livro bíblico Gênesis a aceitar a teoria da evolução de Charles Darwin. Quatro em dez acham que o homem nunca foi à Lua e que a Nasa inventou tudo. O número de americanos que acreditam em anjos é maior que o daqueles que acreditam em antibióticos.

Mas, como Vincent Bugliosi mostra, não se pode colocar todo o peso da propagação das mentiras no caso JFK sobre os ombros das pessoas que acreditam nelas.

O livro de Bugliosi tem o pomposo título de Reclaiming History, que pode ser traduzido para História Resgatada. Ele foi escrito não apenas para convencer o leitor de que Lee Oswald agiu sozinho mas para provar que as teorias conspiratórias não passam de idiotices produzidas por pessoas movidas pelas mais diversas razões.

Essa é uma abordagem bem mais proativa do que, por exemplo, a adotada por outro formidável livro, Case Closed (Caso Encerrado), de Gerald Posner, que se limita a demonstrar que o tiro que matou Kennedy foi dado por Lee Oswald.

Bugliosi faz um livro de combate. Ele assume o tom usado pelos promotores nos tribunais do júri. Quer e consegue incriminar Lee Oswald, que, pelas páginas de “História Resgatada”, finalmente enfrenta a justiça dos homens – uma vez que Jack Ruby o colocou diante do tribunal divino dois dias depois do crime.

Bugliosi consegue também, e o faz com um prazer indisfarçável, destruir as teorias conspiratórias que proliferaram depois da morte de Kennedy.

O promotor mostra que aqueles que produzem essas histórias e as defendem são gênios, alguns muito bem-intencionados, outros simplesmente profissionais da ilusão, embusteiros disciplinados, dispostos a mentir por dinheiro e fama, como o cineasta de JFK, Oliver Stone.

Bugliosi entrevistou todas as pessoas que ajudaram Oliver Stone a coletar “dados” para o filme. Sem exceção, os pesquisadores relatam a obsessão do cineasta em recolher apenas relatos de pessoas que “discordem da versão oficial”. O filme é o resultado dessa escolha. Em vez de ouvir, por exemplo, os cirurgiões e intensivistas que atenderam o presidente Kennedy no Parkland Hospital, de Dallas, onde ele chegou ainda com vida, Stone só entrevistou Charles (“Chuck”) Crenshaw, um médico residente que foi até a sala de trauma número 1, onde Kennedy era atendido. Ele chegou ali sem ser convidado e o deixaram ficar apenas porque os especialistas estavam fora da cidade participando de um congresso médico. Crenshaw ficou dez minutos ao lado de Kennedy, ajudou a passar um cateter por algum vaso da perna do presidente na tentativa de fazê-lo chegar ao coração e reanimar suas batidas. Em vão. Crenshaw saiu da sala, do hospital e reapareceu anos depois com um livro sensacionalista intitulado A Conspiração do Silêncio.

Atrás apenas de Oliver Stone, o alvo preferido do promotor Bugliosi é o inglês Nigel Turner, produtor inglês de documentários autor de Os Homens que Mataram Kennedy, um filme exibido apenas na televisão na Inglaterra e nos Estados Unidos mas que foi visto por cerca de 100 milhões de pessoas.

“O filme é simplesmente um desastre”, diz Bugliosi. Ele pode ser visto ainda hoje dividido em seis capítulos no site do Google Video. É mesmo um desastre. Depois de dar vazão a todo tipo de teoria, o filme se concentra nos achados de um roteirista de Hollywood que, trabalhando sozinho, diz ter desvendado o mistério da morte de Kennedy. Seus assassinos, o filme não tem dúvida, foram contratados pela Máfia americana e vieram todos de Marselha, na França. A fonte do roteirista? Um traficante de drogas preso mas que se diz inocente e se propõe a contar tudo o que sabe sobre a morte de Kennedy em troca de sua liberdade.

Bugliosi levanta minuciosamente a vida de cada um dos acusados pelo misterioso traficante e descobre que no dia do crime um estava, a serviço, a bordo de um navio militar francês em alto-mar e os outros dois se encontravam presos, cumprindo pena em presídios na França. Confrontado com esses fatos, o diretor Nigel Turner não vacilou: “São assassinos, você sabe. Assassinos sempre têm álibis”.

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“Um zero, um nada… esse Oswald matou um gigante como Kennedy. Ele desgraçou Dallas e nosso país”, repetia Jack Ruby antes de matar Lee Oswald com um tiro na barriga quando ele saía da cadeia para depor, dois dias depois do assassinato de JFK

 

O bravo promotor não se abate. Tem casca grossa e traquejo profissional para lidar com embusteiros.

Em um dia ruim, ele é melhor do que os Stones e Turners da vida em seus melhores dias. Ele ataca as questões em todas as suas dimensões. Examina os aspectos psicológicos, técnicos, jurídicos, as circunstâncias familiares e sociais de cada uma das figuras vitais do livro.

O perfil de Lee Oswald é, obviamente, o mais completo. Bugliosi revira todas as entranhas da vida do assassino de John Kennedy – suas visitas à antiga União Soviética, a Cuba e a seus amigos comunistas. Penetra nos labirintos psicológicos do assassino. Descreve manias, trejeitos, obsessões, fraquezas e a decisão mais profunda de “matar algum desses bastardos”. Na preparação para atirar em Kennedy, Oswald tentou, sete meses antes, assassinar a tiros um general americano chamado Edwin Walker, mas falhou. Bugliosi mostra que, ao contrário do que propagam os conspiracionistas, Oswald, um ex-fuzileiro naval americano, tinha uma arma eficiente nas mãos e era excelente atirador. Os registros militares demonstram a consistência de atirador de elite. A mulher de Oswald, Marina, conta que ele praticava tiro ao alvo “todos os dias”. Usava sempre o mesmo fuzil, um Carcano, arma de longo alcance que era, então, adotada oficialmente pelo Exército italiano. Oswald comprou o fuzil por 12 dólares e com ele matou John Kennedy. Diz Bugliosi: “Ele atirava tão bem com aquela arma que minha convicção é que nem precisou usar a mira telescópica para acertar a cabeça do presidente”.

Demolidas as teorias mais estapafúrdias, o promotor centra fogo nas duas mais controversas e sérias questões: a chamada “bala mágica” e o fato de Oswald ter sido assassinado à queima-roupa por Jack Ruby, eliminando assim a chance de o suspeito ir a julgamento.

A teoria da “bala mágica” é desmontada com a precisão de um relojoeiro. Ele não deixa dúvida. Os conspiracionistas estão errados quando sustentam que seria impossível uma mesma bala entrar pelas costas de Kennedy, sair pelo pescoço em um ponto acima do de entrada e depois ter atravessado o peito do governador John Connally, que viajava na limusine no banco logo na frente do presidente. Dali a bala seguiria em seu balé mágico até o punho de Connally para depois ferir-lhe a perna esquerda e cair mansamente no chão do carro.

A bala foi encontrada, após tantas peripécias, quase intacta, na maca em que Connally foi levado para o hospital onde se recuperou dos ferimentos sofridos. Bugliosi demonstra que a bala não fez curvas. Ela atravessou como uma seta “carnes moles” no corpo de Kennedy e Connally, tendo encontrado um obstáculo mais resistente apenas no punho do governador. O promotor mostra fotografias do projétil feitas em outros ângulos e que destroem as insinuações de que ele foi encontrado intacto.

Vincent Bugliosi chega então ao ponto mais perigoso de sua travessia, a explicação de que Jack Ruby não matou Lee Oswald em uma operação de “queima de arquivo”.

O promotor entra de sola com a força de convencimento lógico que o ajudou a condenar antes 21 assassinos em Los Angeles. O famoso jogador de futebol americano O.J. Simpson, acusado de matar a ex-mulher e o amante dela, escapou de ser processado por Bugliosi em 1995, mas não da condenação. No livro Outrage (Indignação), o promotor refaz o trabalho que a acusação não fez no julgamento real e com simplicidade demonstra como O.J. Simpson matou e se safou das garras da lei.

Tony Gutierrez/AP

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Bugliosi posa com seu livro: 21 anos de pesquisa feita pelo homem que condenou Charles Mason, autor de outro assassinato-espetáculo, o da atriz Sharon Tate

A bala mágica era um espinho na garganta a asfixiar as conclusões da Comissão Warren, o grupo de notáveis que examinou o assassinato de Kennedy nos anos 60.

A comissão, que levou esse nome por ser chefiada pelo inatacável Earl Warren, presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos, concluiu pela culpa exclusiva de Oswald. Segundo o Relatório Warren, Oswald agiu sozinho, tendo disparado três tiros contra a limusine presidencial.

Um errou o alvo totalmente, o outro produziu ferimentos leves em Kennedy e Connally e um terceiro estourou os miolos do presidente. Bugliosi tirou esse espinho. Mas e o outro? Como explicar que Ruby possa ter burlado a vigilância e matado o suspeito antes que ele pudesse ser julgado e contar quais eram seus motivos, quem eram seus comparsas? O promotor, calma e metodicamente, mostra que Ruby matou Oswald por impulsividade, motivado pelo desejo de vingança e para satisfazer sua vontade interior, imperiosa de “fazer alguma coisa boa pelos Estados Unidos e por Dallas”.

Jack Ruby amava Kennedy como a um deus. Nas horas que se seguiram ao assassinato, Ruby chorava como uma criança e beijava constantemente uma foto do presidente que trazia no bolso do terno. Ruby morreu de câncer, na cadeia, condenado pela morte de Oswald.

Os 2,5 quilos de verdade produzidos pelo severo promotor de Los Angeles vão enterrar para sempre as teorias conspiratórias sobre a morte de John Kennedy? Deveriam. Mas não vão. Nem Vincent Bugliosi acredita nisso.

 

 

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