501/ A Al Qaeda eletrônica

Artigo de Reinaldo Azevedo na Veja (20/06/2007)

“Quem você pensa que é?”

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Montagem sobre fotos Hamid Mir-Reuters e Pedro Rubens

Nos tempos pré-VEJA, essa era a pergunta com a qual as esquerdas pretendiam me fulminar. Era feita no rastro de alguma contestação às verdades eternas anunciadas por seus doutores. Há um prazer particular em não ser ninguém e flagrar, por exemplo, a pensadora petista Marilena Chauí pulando a cerca que separa o filósofo holandês Spinoza (1632-1677) do vândalo venezuelano Hugo Chávez. O primeiro é um dos pilares do debate ético; o segundo é só um ditador cômico e violento.

É divertido ver um intelectual se enroscando no arame farpado do populismo fantasiado de tirania esclarecida. O que é pior? VEJA, no entanto, me fez conhecido. Já não me indagam quem penso ser. Julgam ter a resposta e a espalham na internet, o novo território da batalha ideológica. Caí na malha da Al Qaeda eletrônica. À semelhança da rede terrorista, também essa não tem um comando centralizado – a não ser o ódio à razão.

A rede nunca foi tão ativa como nestes quarenta dias (enquanto escrevo) de invasão da reitoria da USP, a Universidade de São Paulo, a maior do país. É um daqueles casos em que as células dormentes do nosso esquerdismo, a doença infantil da civilização, acordam com saudade da ditadura. Elas se assanharam também na demonização de Bento XVI, na defesa do fechamento da RCTV na Venezuela ou no apoio à censura prévia no Brasil. Durante a campanha eleitoral, fizeram a denúncia de um fantasioso golpe contra Lula. No caso da USP, foram fazer vigília lá na reitoria invadida, misto de Palácio de Inverno russo com Parque da Xuxa – sem contar o aroma dos roqueiros de Woodstock…

Meu blog tornou-se um Diário da Invasão da reitoria da USP. Passei a publicar textos de alunos e professores que queriam aula e se opunham à violência dos remelentos e das mafaldinhas, os comunistas do Sucrilho e do Toddynho. Mafalda é uma personagem até simpática de Quino, um desenhista argentino. É uma garota baixinha, cabeçuda e feiosa, sempre inconformada com as injustiças do mundo. Injusto talvez seja eu: há um quê de reflexão na menina.

Recebo, por dia, entre 1 500 e 2 000 comentários. Publico entre 450 e 700 – os demais ou trazem uma linguagem inadequada ou são mensagens dos petralhas. Os petralhas são aqueles híbridos de petistas com Irmãos Metralha, os ladrões do gibi do Tio Patinhas. Tentam nos convencer de que os companheiros roubam para o nosso bem. Eu os chuto sem solenidade. Mas eles voltam. No período da invasão, os comentários cresceram entre 50% e 60%. E, em boa parte, esse aumento se deveu à tentativa de aparelhar o blog. Querem me sufocar com mensagens favoráveis aos vândalos, cobrando o que chamam a “sua [minha] democracia”. Ocorre que a minha democracia, que é a universal, não solapa as bases que garantem a sua legitimidade. O outro lado do estado democrático e de direito é o totalitarismo.

Os blogs, até pouco tempo atrás, eram um território quase exclusivo do que os vários matizes da esquerda chamam “direita”. Faz sentido. A internet se consolidou como o lugar dos indivíduos, dos que rejeitam a suposição de que um grupo ou um partido detêm a chave do futuro. Não tardou para que as esquerdas percebessem que estavam perdendo a batalha. E, então, lançaram uma espécie de grito de guerra, de que a campanha eleitoral de Lula, em 2006, é um dos marcos. Valter Pomar, responsável no PT pela área, incitou militantes e simpatizantes a policiar a rede. Tomaram gosto pela coisa. Dedicam-se à tarefa de vigiar. E, se possível, punir.

O cerco chega a ser divertido. Os integrantes da Al Qaeda eletrônica não se contentam só com o envio de mensagens desaforadas: criam páginas anônimas só para esculhambar aqueles de que não gostam; formam comunidades no site de relacionamentos Orkut para odiar pessoas; ressuscitam o hábito nativo de especular sobre a orientação sexual de desafetos; fazem montagens de fotografias em que os “direitistas” são postos em situações pouco lisonjeiras; dão curso, em rede de e-mails, às teorias conspiratórias mais disparatadas. Eu mesmo recebi mensagens me advertindo de que obedeço às ordens da CIA e do Mossad – respectivamente, o serviço de inteligência dos EUA e o de Israel.

A USP, que, nestes dias, não se distingue das favelas cariocas do Complexo do Alemão, com intelectuais de esquerda no lugar dos traficantes, é um elemento fácil de mobilização. A invasão reúne condições para uma causa fácil: os militantes são de classe média ou da elite e se confundem com os filhos dos chamados setores formadores de opinião; o risco de punição por transgredir a lei é mínimo; há sempre um professor de esquerda com o clichê na cara (eles ainda são barbudos, Deus meu!) ou uma filósofa com a bolsa cheia de objetos falsificados da Escola de Frankfurt, a corrente alemã de pensadores muito malsucedida ao tentar desconstruir, como males opostos, porém equivalentes, tanto o capitalismo como o socialismo.

A Al Qaeda eletrônica exige de mim o que avalia ser a “isenção” de alguns setores da imprensa que flertam com a ilegalidade. O que se entende por “isenção” é a adesão a uma vaga de opinião que representaria o bom senso. Ela não se contenta em ser uma leitura da realidade; pretende ser o seu posto mais avançado, o desdobramento necessário e óbvio de uma evolução do pensamento, de modo que ou você passa a integrar essa metafísica influente ou é um “reacionário”. Foi com esse adjetivo que uma jornalista classificou uma manifestação na USP contrária à invasão da reitoria.

A virulência cresce na rede. Aproveito para reiterar minha oposição a qualquer tentativa – incluindo um projeto de que o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) é relator – de censurar a internet, ainda que de forma velada. Aconselho os tucanos a olhar para as suas próprias tentações autoritárias. Os males dessa liberdade hão de ser curados com mais liberdade, como ensinava o pensador francês Tocqueville (1805-1859) em viagem à América. As leis e o aparato técnico disponíveis são suficientes para coibir e punir abusos.

Volto ao ponto. A virulência e a patrulha da esquerda crescem porque, mesmo mobilizando os seus terroristas virtuais e ombreando com seus adversários “da direita”, o empate não lhe serve. Ela não se conforma em não ter, na internet, a presença maciça, com aspirações a ser hegemônica, que tem no jornalismo impresso, nas rádios e nas TVs. A Al Qaeda eletrônica, a exemplo da outra, dedica-se mais a destruir do que a construir. Seus e-mails e comentários não debatem, desqualificam; suas páginas não são quase nunca afirmativas, mas reativas.

Lembro-me de uma reportagem da Folha de S.Paulo que me incluía, entre outros, numa categoria chamada “nova direita”. Um esquerdista qualquer, chamado a comentar a espécie, afirmou, com desdém, que não éramos, assim, um José Guilherme Merquior. Referia-se a um dos mais brilhantes intelectuais contemporâneos (1941-1991), duramente combatido em vida pela hegemonia cultural esquerdista, tornado uma referência só depois de literalmente “do outro lado”. Tolerantes como são, as esquerdas se mostram ainda generosas: adulam cadáveres para desqualificar os vivos. Todos os “direitistas” são nefastos, mas os vivos são mais…

Quer dizer que preciso ser Merquior para flagrar Marilena Chauí pulando a cerca quando ela, mesmo sendo Chauí, quis um dia arrostar com Merquior? Para um esquerdista, já está de bom tamanho ser como o professor e militante petista Emir Sader? Então tá combinado: a rede avisa, urbi et orbi, que Diogo Mainardi não é Paulo Francis, que eu não sou Merquior, que um outro desafeto não é o dramaturgo Nelson Rodrigues… Ao definir o que não somos, eles podem, enfim, se contentar em ser apenas o que são: prosélitos da madraçal esquerdista, agora em sua versão eletrônica. Vamos ver qual vai ser a próxima causa a mobilizar as tais células dormentes na internet.

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