506/ Gregory Pence defende a clonagem humana sob reserva

Do Notícias da UFMG

Arquivo pessoal
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Gregory Pence

Dono de um dos mais expressivos currículos acadêmicos dos Estados Unidos, Gregory Pence vem se dedicando sistematicamente há mais de três décadas aos temas relativos à ética no âmbito da atividade científica. Ao longo dessa trajetória, tornou-se personagem de referência no campo da bioética, matéria que vem despertando o interesse não apenas dos especialistas, mas de toda a sociedade, em plano internacional, especialmente depois dos avanços conquistados pela biotecnologia.

Convidado pela Universidade Federal de Minas Gerais como conferencista do ciclo da palestras Sentimentos do mundo, comemorativo dos 80 anos da UFMG – honraria que compartilha com intelectuais do porte de Beatriz Sarlo, Mia Couto, Boaventura de Souza Santos, Fernando Galembeck, Bernardo de Carvalho e Karl Johan Aström – o cientista norte-americano abordou o tema Trinta anos de bioética: o que aprendemos, para onde vamos?

Entrevista
Em entrevista concedida via Internet, Gregory Pence discorreu alguns tópicos de sua fala em Belo Horizonte. Confira abaixo os principais trechos da conversa.

UFMG – Hoje em dia há um grande debate entre as diversas correntes da bioética: utilitaristas, principalistas, pragmatistas e outras. O senhor se inscreve em alguma dessas posições ou qual delas julga que está pensando mais adequadamente as questões dessa ciência?

Gregory Pence – Embora o principalismo domine a bioética no mundo, incluindo os Estados Unidos e o Brasil, eu, pessoalmente, acredito que essa seja uma abordagem incorreta. Creio que envolver os quatro princípios básicos da pesquisa ética geralmente descreve o caso em um alto nível de abstração, mas ninguém nos diz como encontrar um equilíbrio para um julgamento correto de um caso. Geralmente, os detalhes de um caso e outras variáveis determinam a resposta correta, que apuramos por meio da experiência e do raciocínio.

Advogo o estudo de caso por meio do raciocínio, que é às vezes descrito como casuística (casuistry), embora o termo tenha conotações religiosas e meu método, não. Por exemplo, acredito que você aprende mais sobre a ética da morte ao estudar como os casos passados foram determinados. Ao aprender sobre esses casos, adquirimos a base para fazer uma generalização em casos semelhantes. Este método de raciocínio ético se baseia no sistema de aprendizagem da educação médica geral.

UFMG – No Brasil, está pendente no Supremo Tribunal Federal decisão sobre uso de células-tronco embrionárias na pesquisa científica (a legislação brasileira atual é muito restritiva a respeito). Há questões éticas e religiosas em pauta, entre elas a definição sobre a partir de quando o embrião pode ser considerado um ser vivo. Qual a sua posição a respeito?

Gregory Pence – Acredito que as células-tronco embrionárias são uma das grandes descobertas médicas das últimas décadas e seria uma tragédia não usar este presente para beneficiar pacientes que sofrem de doenças como a de Parkinson. Acredito ainda que é possível usar embriões humanos em pesquisa médica com respeito, da mesma forma que tratamos cadáveres humanos, que usamos para transplantes de órgãos.

UFMG – Outro problema, que decorre desse, é a possibilidade futura de clonagem de seres humanos. Com o avanço do conhecimento científico sobre o assunto, incluindo o das técnicas de clonagem de animais e plantas, é inevitável que a questão se coloque em algum momento. Qual sua posição a respeito dessa possibilidade?

Gregory Pence – Aqui penso de forma bem diferente da maioria dos estudiosos da bioética. Por causa de minha própria história, por 30 anos tenho escutado argumentos alarmistas falsos sobre os danos de novas formas de reprodução assistida. Sou cético com relação a tais argumentos. Por causa da reprodução assistida, um milhão de seres humanos, que são muito queridos por seus pais, agora existe. Como isso pode ser algo ruim? Espanta-me o fato de que a Igreja Católica se oponha a essa forma de concepção. As mesmas pessoas que usam esses falsos argumentos agora nos dizem que o céu pode cair se clonarmos um ser humano.

A clonagem de seres humanos não é a coisa terrível que dizem ser. O único argumento moral real contra isso agora é que, com o atual estado do conhecimento médico, é possível que se produza um bebê anormal. Uma vez que se torne seguro, todos os outros argumentos contra esse procedimento se mostrarão infundados ou baseados em raciocínio errôneo. Reconheço que estou quase sozinho nesta posição, mas acredito que o passar do tempo provará que estou certo. Sou bem conhecido por minha defesa desta questão sobre clonagem humana e por defender uma abordagem com base em estudos de caso no estudo e ensino da bioética.

UFMG – Há correntes de pensamento, como os neo-luditas, que advogam não apenas limites éticos para a atividade científica, mas um controle social mais efetivo, contrariamente aos que pensam aqueles para quem o progresso científico é sempre bem-vindo e não deve ser cerceado em qualquer hipótese. O que pensa a respeito desse assunto?

Gregory Pence – Com a grande quantidade de dinheiro que circula nesta área, acredito que alguma regulamentação e revisão da ciência são necessárias. As tentações financeiras para economizar ou cometer fraudes, bem como para criar conflitos de interesse entre pesquisadores da área médica, podem ser tão grandes que qualquer ser humano pode sucumbir a elas. A relação entre médicos/cientistas e as companhias de medicamentos é especialmente suspeita.

UFMG – Na nossa Universidade temos em funcionamento dois comitês de ética, um para assuntos de pesquisa com seres humanas e outro para pesquisa com animais. Diante da nova realidade provocada pelo acelerado desenvolvimento da biotecnologia, qual seriam suas recomendações para comitês como esses, em funcionamento nas mais diversas instituições de pesquisa?

Gregory Pence – O filósofo George Santayana afirma que “aqueles que são ignorantes do passado estão condenados a repetir seus erros”. Eu insistiria que esses comitês estudassem a história dos abusos na pesquisa médica, tanto em relação a humanos quanto a animais. Meu livro Classic Cases in Medical Ethics: Accounts of the Cases that Have Shaped Medical Ethics [Casos Clássicos na Ética Médica: relatos de casos que moldaram a ética médica] relata muitos desses casos em detalhe, incluindo pesquisa nazista, o estudo de sífilis de Tuskegee no Alabama, e os casos com animais de Genarelli e Taub, nos Estados Unidos.

UFMG – Falando especificamente sobre experimentos com animais, que são obviamente os mais frequentes, como se estruturam os comitês de ética das instituições norte-americanas? Na sua composição entram exclusivamente os cientistas que pesquisam com animais, ou eles são abertos à participação de profissionais de outras áreas do conhecimento, filósofos por exemplo?

Gregory Pence – Participei, durante um ano, do primeiro comitê de pesquisa animal em nossa universidade. Foi um trabalho penoso, mas necessário (também participei por 22 anos do comitê de pesquisa humana). Geralmente, nos Estados Unidos, há um membro que não é cientista e seis outros que o são. Durante o ano em que integrei o comitê de pesquisa animal, descobri que cientistas podem ser bastante duros como seus colegas cientistas que fazem pesquisa absurdas ou desnecessárias que causam danos aos animais, e que os médicos veterinários em tais comitês estão sob uma pressão enorme, por causa do duplo papel que desempenham. (Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida)

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