569/ Cientistas criam nova substância que pode substituir quimioterapia

De Roberta Jansen – O Globo

Cientistas brasileiros foram buscar na natureza a inspiração para desenvolverem uma nova substância contra o câncer que, em testes preliminares em laboratório, se revelou mais eficaz e menos tóxica do que os produtos usados atualmente como quimioterápicos. Publicada na revista européia “Biorganic Medicinal Quemistry”, a pesquisa parte agora para a segunda etapa, que consiste em testar os efeitos do produto em camundongos.

A partir de estudos sobre o uso na medicina popular do ipê (Tabebuia ) já se conhecia a atividade anticancerígena de três substâncias dessa planta: lapachol (que chegou a ser usado clinicamente), alfa-lapachona e beta-lapachona.

– As pesquisas de um modo geral partem de substâncias já conhecidas nas plantas por meio das tradições indígenas, do conhecimento oral que passa de família em família – explica Marcos Moraes, coordenador do Programa de Oncobiologia da UFRJ, uma rede integrada de pesquisas sobre o câncer.

– Um segundo momento é a síntese em laboratório dessas substâncias a partir do conhecimento da forma da molécula, da sua composição. No caso da nova substância, estudada nos laboratórios de Química Biorgânica e de Imunologia da universidade, os cientistas foram além e aperfeiçoaram a molécula, tornando sua forma sintética mais eficiente que a natural.

– Nos inspiramos na substância natural e fizemos uma parecida com ela em laboratório, alterando sua estrutura para aprimorá-la — conta o pesquisador Paulo Roberto Ribeiro Costa, coordenador do estudo. Já havíamos observado, por exemplo, que os produtos naturais do ipê eram inativos em células de leucemia resistentes a diversos fármacos. Mas a substância que preparamos se mostrou ativa, inclusive em células de câncer de pulmão, muito difíceis de serem combatidas com tratamento quimioterápico. Portanto, as modificações possibilitaram que a molécula apresentasse mecanismos de ação um pouco diferentes, o que permitiu driblar a resistência dessa células. A nova molécula criada pelos cientistas tem como alvo justamente células de leucemia que apresentam o que se chama de resistência a múltiplas drogas. Quando isso ocorre, os tratamentos quimioterápicos tradicionais passam a não ter efeito. A substância mostrou também baixa toxicidade.

– Os testes em laboratório com células sanguíneas revelaram que ela alcança as células cancerígenas mas preserva as sadias — diz Costa.
O próximo passo é testar a nova molécula em modelos vivos, no caso camundongos. – Vamos testar a substância em animais com câncer para ver se no modelo vivo conseguimos obter os mesmos resultados constatados em cultura.

Rede contra o câncer reúne mais de cem pesquisadores de instituições do Rio

Para os pesquisadores, o fato de estarem integrados a uma rede de pesquisa faz toda a diferença.

— A rede é um ovo de Colombo — compara Marcos Moraes.
— Porque ela oferece instrumentos mais simples para os pesquisadores se comunicarem entre si no momento em que as pesquisas ainda estão sendo feitas. Esse é o grande segredo, possibilidade de acompanhamento das pesquisas como um todo.

Criada há seis anos, a rede conta hoje com mais de cem pesquisadores de instituições como o Instituto Nacional do Câncer, UFRJ, Uerj, UFF reunidos em 27 linhas de estudo sobre o câncer.

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