571/ Obra revela a difícil tarefa de conjugar presente, passado e sonhos terríveis

Mara Bergamaschi para o Prosa&Verso

John Madere

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Ishmael Beah, ex-criança-soldado, traça impressionante relato de guerra

Sucesso nos Estados Unidos e já lançado este ano em 18 países, “Muito longe de casa”, o livro de Ishmael Beah que chega agora ao Brasil, tem lugar garantido entre os mais impressionantes relatos de guerra. Não apenas por descrever a barbárie de um conflito que se arrastou por uma década (1991-2002), transformando Serra Leoa, ex-colônia britânica, no segundo país mais pobre do mundo. Mas por vir de um garoto que, arrancado da infância e recrutado pelo exército aos 13 anos, não só testemunhou: foi também obrigado a cometer todo tipo de atrocidades.

Sobrevivente de uma guerra civil que deixou 200 mil mortos e uma expectativa de vida de 41 anos para seus compatriotas, Ishmael Beah, aos 26, renasceu escritor. Sinalizam nesta direção a força de seu depoimento, narrado de forma simples, mas original, e o desenho delicado de uma África pura e primitiva — que também surge, surpreendentemente, nesta sua primeira obra.

Infância perdida num caminho sem volta

A infância de Ishmael Beah na pequena aldeia de Mogbweno, no sudeste de Serra Leoa, desaparece numa manhã de janeiro de 1993, quando ele sai de casa com o irmão mais velho e um amigo a fim de participar de mais um show de talentos na vizinha Mattru Jong, distante 26 km.

Para economizar, vão a pé e descansam em Kabati, na metade do percurso, onde a avó os recebe com um almoço. Ishmael leva nos bolsos um tesouro: fitas cassetes com os sucessos dos ídolos americanos de rap e hip hop. As rimas e músicas, uma raridade ali, têm garantido aos adolescentes aplausos por onde passam. Eles se despedem da avó com um até amanhã. Mas nunca mais farão o caminho de volta para casa. Não haverá mais para onde voltar.

Enquanto ensaiavam os passos de dança para se apresentar na feira de Mattru Jong, Mogbweno, sua terra natal, era varrida do mapa pelo ataque dos rebeldes da RUF (Força Unida Revolucionária) — um grupo contra o governo, sem ideologia política ou étnica definida, que se revelaria extremamente cruel. Depois de tomar as minas de diamantes, a RUF começaria a invadir aldeias próximas para tentar manter seu território.

Em poucos dias, a matança — a bala, com granadas, baionetas e machados — dizimaria também Kabati e Mattru Jong. Sem notícias da família, Ishmael, seu irmão e amigos não têm outra saída a não ser fugir sem destino, por um cenário de horror, tendo sempre grupos de rebeldes, quase tão jovens quanto eles, em seu encalço.

Depois de semanas de sofrimento, Ishmael, já sem o irmão e os colegas, chega a Yele, local próximo à Libéria ainda sob controle do governo. Mas seu descanso é breve: só poderá ficar se virar soldado. Ao ganhar seu fuzil AK-47, tênis e camiseta de marca, ele perde, queimadas junto com sua roupa em farrapos, as preciosas fitas cassete que havia conseguido manter consigo até ali.

Perde mais: a companhia das lembranças com as quais atravessara o inferno — o convívio com os pais, as histórias da avó, os costumes e lendas tribais, a casa de sapê, o cheiro da comida com óleo de palmeira, os banhos de rio, o canto dos pássaros, a paisagem da aldeia. Essa terna memória também ajudará o leitor a acompanhar a travessia de Ishmael pelos sangrentos campos de guerra.

O fantasma do primeiro inimigo executado

Em seus dois anos como soldado, Ishmael, assombrado pelo rosto do primeiro inimigo que degolou, não saberá mais o que é ter uma noite de sono. Sob efeito de um coquetel de drogas, incluídas na ração militar diária, vagará alheio à vida e à morte. Retirado do front pelas Nações Unidas, o menino-soldado passará ainda por um difícil período de reabilitação.

A saga terminará em 1998, quando a guerra civil recrudesce e ele é obrigado a fugir para a Guiné. De lá, parte para os Estados Unidos graças a amigos e ao visto que havia obtido ao participar de uma conferência do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em Nova York.

Com sua família adotiva, Ishmael Beah, hoje formado em ciências políticas, continua a viver em Nova York. Tentando, segundo conta em suas memórias, conciliar três vidas: o passado, o presente e os terríveis sonhos. Agora com a ajuda também da literatura.

NA FLIP Domingo, dia 8, às 15h, o autor participará da mesa “Sobre meninos e lobos”, com Paulo Lins. 

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