594/ Prostituição e moda: conheça as mulheres da Daspu

Por Lina de Albuquerque. Fotos: Everton Ballardin/MarieClaire

Com dois anos de vida, a Daspu já chegou ao Olimpo e vive dias de glória. Mas o que aconteceu com as prostitutas da grife carioca? Conheça a história das mulheres que provocaram o mais luxuoso templo de consumo paulistano, desfilam com graça e irreverência por muitas passarelas, agitam a imprensa e, de quebra, atraem os olhares da rede de magazines mais famosa de Paris.

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Momentos antes do desfile em Botafogo, todas estão eufóricas, mas  Val e Gerenilza (da esquerda para a direita) disfarçam e fazem pose.

As garotas da Daspu continuam dando o que falar. Depois de ajudarem a compor a personagem da atriz Camila Pitanga para a novela ‘Paraíso Tropical’, elas agora são tema do recém-lançado livro ‘As Meninas da Daspu’ (Ed. Novas Idéias, 248 págs., R$ 39), da socióloga Anna Marina Barbará.

Em dois anos de atividade, a marca carioca acumula fama, e as modelos já ganharam páginas de jornais e programas de TV. Mas, apesar disso, não deixaram a prostituição e ainda dependem dela para sobreviver. ‘Continuo batalhando como sempre batalhei’, diz a carioca Gerenilza da Silva, de 53 anos, cinco filhos e 15 netos. Batalhar, no caso, é sinônimo de programa.

O sucesso começou quando a loja de luxo Daslu, de São Paulo, acusou a Daspu de estar ‘denegrindo’ o seu nome.

O barulho foi o suficiente para a marca carioca participar do ‘Fantástico’. Depois, Adriane Galisteu usou um vestido criado pelas prostitutas – originalmente uma camisola ‘da noite’ -, causando inveja em Jô Soares.

Artistas como Marisa Orth, Betty Lago e Supla posaram com as mulheres da Daspu, usando suas camisetas. Os apoios vieram de todos os lados. A Daslu, já enfrentando processo por sonegação de impostos, parou de reclamar, e a Daspu continuou causando furor.

A marca já foi até aplaudida no restrito mundo das artes plásticas, a convite do esloveno Tadej Pogcar, que expôs, na última Bienal de São Paulo, algumas peças da Daspu.

Foi nos corredores do prédio do Ibirapuera que a prostituta Jane Eloy, de 32 anos, desfilou com um vestido de noiva, decorado com desenhos de casais copulando e grinalda de camisinhas. Não bastasse tudo isso, a rede de magazines mais famosa de Paris, Galerias Lafayette, encomendou lingeries da Daspu – até agora ninguém sabe dizer quando as peças chegarão à capital francesa, mas o acordo existe, elas garantem.

Apesar da fama e do êxito no negócio, as mulheres continuam na luta, ‘batalhando’ nas esquinas. Mas verdade seja dita: a proposta da Daspu nunca foi tirar ninguém da profissão.

E uma coisa é absolutamente certa. Com a marca, as prostitutas ganharam notoriedade e estão com a auto-estima lá em cima. ‘Passei a gostar mais de mim. É muito bom fazer sucesso’, afirma Jane.

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A cor preta domina a coleção outono-inverno, mas o vermelho tambérm aparece com destaque

Sexo e mentiras

Ela foi uma das modelos que mais se destacaram nas passarelas desde o início da Daspu.

Por isso, todo mundo acreditou quando Jane disse que estava emagrecendo porque queria se tornar uma grande top. Mas a história era bem diferente.

Mãe de três filhos, Jane perdia peso porque é soropositiva. Contraiu o vírus da aids do marido, com quem teve o primeiro filho. ‘Caí na vida cedo, aos 17 anos, porque sentia, e ainda sinto, prazer em viver assim’, diz. ‘Mas sempre usei preservativo com os clientes. O que eu não imaginava é que meu marido, que já morreu por causa da doença, transava desprotegido com um travesti.

‘Quando descobriu o vírus, há exatos dez anos, Jane entrou em desespero. Foi deixada pelo segundo marido, que não queria viver com uma ‘mulher HIV’. Por ironia do destino, um ano depois da separação, ele foi assassinado com um tiro. ‘Fiquei revoltada, batia nas pessoas que encontrava pela rua e até pensei em me matar.’

Nem o vírus da aids foi capaz de afastá-la da prostituição. Jane diz que avisa os clientes que é portadora do HIV e, por incrível que pareça, tem homem que insiste em não usar camisinha.

‘Não topo, não acho legal. Estou tomando os remédios e minha carga viral está baixa, estou bem. Quem me garante que o cara não tem aids e não vai me recontaminar com um vírus mais forte?

Com os rendimentos da prostituição e do trabalho na Daspu, comprou um terreno e construiu uma casa de três cômodos em Manguariba, região próxima ao bairro da zona oeste de Paciência, a mais de uma hora de distância do centro do Rio. Jane vive com os três filhos de 17, 5 e 3 anos, que teve com companheiros diferentes. Nenhuma das crianças é portadora do HIV.

De sorriso largo e longa cabeleira, Jane é toda prosa com a sua rotina na Daspu. Ela conta que conhece gente famosa, se inspira na vida dos outros.

Outro dia, nos bastidores de um programa de rádio, recebeu o abraço da cantora Ivete Sangalo. Em janeiro, conheceu a irreverente Elke Maravilha. Ganhou dela um par de brincos em forma de cachos de uva e se divertiu ao vê-la com um gigantesco pênis de brinquedo nas mãos, desfilando na praça Tiradentes – conhecido reduto de prostituição no centro do Rio de Janeiro -, para uma platéia de 450 pessoas que foram conferir o primeiro desfile da Daspu deste ano.

O evento foi planejado para acontecer ao mesmo tempo que o desfile da top Gisele Bündchen no Fashion Rio.

No dia seguinte, a foto de Jane apareceu na coluna social de um dos principais jornais cariocas ao lado da de Gisele. ‘Quer glória maior do que isso?’, ela diz.

Mas quem disse que a fama melhorou sua saúde financeira? Hoje, Jane ainda conta com a ajuda de um site abastecido de ‘fotos eróticas e sensuais’ para agilizar o ritmo de seus programas. Mas o seu passe nem por isso ficou mais caro. Tudo igual.

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Jane, uma das modelos da marca carioca.

A grande noite

O desfile vai acontecer daqui a pouco. Jane e outras mulheres da Daspu vão mostrar a coleção outono-inverno, criada pelo estilista Sylvio de Oliveira e batizada de ‘Puta Arte’.

Serão apresentados 15 modelos, inspirados em obras do cinema, da música e da pintura que abordam o universo da prostituição. O evento vai acontecer no Espaço de Cinema, em Botafogo, na pré-estréia do filme ‘Princesas’, do espanhol Fernando León de Aranoa -que conta a vida de prostitutas que disputam um território.

No camarim, o clima é de excitação. Cabelos sendo arrumados, um fio de sobrancelha tirado às pressas, uma lixada rápida na unha e muita, muita maquiagem.

Lá dentro, ninguém economiza base, pó, sombra, batom. O make up é carregado. E ninguém parece estar preocupada com o valor do cachê: R$ 50, o equivalente ao preço de um ‘programa completo’. É a hora da metamorfose. Apressada, Jane capricha no último detalhe: pega os brincos que ganhou de Elke para completar o visual.

O desfile começa na hora. Luzes coloridas iluminam as tops da Daspu. Acompanhando o ritmo da trilha composta pelo funkeiro Gutz – ‘Daspu é uma puta parada. Daspu é uma parada de puta’ -, a mineira Maria Nilce Evaristo dos Santos, de 60 anos, a top veterana da grife, abre o espetáculo, mandando beijos e sorrisos para a platéia.

Outras mulheres e dois homens vão surgindo na passarela improvisada, exibindo camisetas, vestidos e saias com detalhes do filme ‘Moulin Rouge’, obras de Picasso e de Lasar Segall. Naquela noite, o preto desbancou o vermelho e é a cor dominante da coleção.

Quem assiste aplaude com entusiasmo. Dá para perceber que é muito ousada a jogada promocional que esse tipo de evento costuma representar.

Famosos, ou quase famosos, como a modelo e atriz Viviane Araújo, ex-mulher do cantor Belo, aderem voluntariamente à causa e topam se misturar entre as garotas de programa. A participação de anônimos também é bem-vinda. Tudo funciona como política para não estigmatizar as prostitutas e aproximá-las de todos os mortais.

Esse tipo de vida pode espantar quem é da família. ‘Já me senti discriminada pelas minhas irmãs’, diz Jane. Mas hoje é diferente. ‘Nossos caminhos não foram os mesmos, mas tenho orgulho por ela ter se assumido. Jane é guerreira’, diz Rose Reis, de 24 anos. Ela e Janaína, de 34 anos, ambas empregadas domésticas, foram prestigiar a top do clã no desfile em Botafogo.

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Maria Nilce em momento relax, em casa.

Sempre nas esquinas

Como Jane, a maranhense Valkíria Pereira Costa, a Val, também de 32 anos, não abandonou a prostituição, o trabalho de diarista e um outro bico que faz durante o dia como distribuidora de panfletos.

Numa esquina do Catete, na zona sul, todo o glamour do desfile da véspera parecia ter sido levado pelo chuvisco que ela tomava enquanto entregava folhetos para os passantes de guarda-chuva.

‘Será que precisam fazer a minha foto de ‘mulher sanduíche’?’, pergunta ela, vestindo um uniforme inspirado na placa de madeira carregada por gente que trabalha para casas ligadas ao comércio de ouro, vales-refeição, empréstimos e afins.

O seu dia de linda mulher tinha passado. Val não dormiu um segundo depois do desfile. De lá, fez ponto na avenida Atlântica, mas não arrumou cliente. ‘A maré estava fraca.’ Ela conta que junta ‘uns’ R$ 1.500 por mês, somando todos os seus trabalhos e a ajuda de custo que recebe da Ong Davida – a organização que serviu de berço da Daspu. Mas a prostituição ainda é sua principal fonte de renda.

Val se mudou para o Rio para ser doméstica em casa de família. Há três anos, diz ter se encontrado fazendo programas.

‘Enjoei de ser mandada por madame.’ Ela tem uma filha de 8 anos, que ficou com um de seus nove irmãos em Imperatriz, no oeste do Maranhão. Apesar do pouco tempo de ofício, Val diz não ter ‘nem um pingo’ de vergonha de sua nova profissão.

Por isso, fez questão de avisar a família quando participou, tempos atrás, de uma entrevista no programa do Jô Soares.

‘Sempre quis ser modelo, e a Daspu está me ajudando a realizar um sonho de menina.’ O outro sonho, acredita, levará um pouco mais de tempo. ‘Quero ganhar dinheiro.’

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Gabriela Leite, criadora da Daspu

Não é moleza

A carioca Maria Aparecida também entrou ‘para a vida’ meio tarde, aos 30 anos, ou 12 anos atrás. ‘Um dia, percebi que em uma só noite faturava o que recebia em um mês como atendente de padaria.

‘Era namoradeira e foi tendo um filho atrás do outro, quatro, cada um de um homem. ‘Sempre fui solteira’, diz. A prostituição começou em uma boate em Nova Iguaçu. De lá, partiu para a Vila Mimosa, a histórica zona de prostituição que, no passado, teve clientes célebres, como o poeta Manuel Bandeira.

Avó de duas crianças, Maria Aparecida vive com toda a família na casa que construiu em Itaguaí, no Grande Rio, com a ajuda de dois clientes casados -um colaborou na compra do terreno, e o outro custeou o material.

Hoje, ela se divide entre a prostituição, os desfiles da Daspu e o trabalho voluntário na Davida, distribuindo camisinhas. ‘Com a Daspu, sou mais bonita por dentro e por fora.’

Nesse tempo de existência, a Daspu apresentou coleções esporádicas, desfiles relâmpagos e uma notável vocação para o improviso. E ficou mais famosa que a Ong que gerou a marca: a Davida.

Em outras palavras, a Daspu é o lado fashion da Davida – que, há 15 anos, promove ações sociais junto às prostitutas, entre elas, a realização de encontros da categoria e a articulação de políticas de prevenção de saúde.

Tanto uma quanto outra foram criadas pela prostituta, socióloga e militante Gabriela Silva Leite, de 56 anos. Filha de um crupiê e uma dona de casa, ela diz que sempre teve paixão pela noite. Esse amor, aliado ao tédio da vida de datilógrafa despertaram nela o interesse pela profissão.

Da Boca do Lixo, em São Paulo, foi para Belo Horizonte e, mais tarde, para a Vila Mimosa. Hoje Gabriela, além de mãe de duas filhas e autora do livro ‘Eu, Mulher da Vida’, é também o nome que está por trás da Daspu – que, por ironia, se tornou menos polêmica que a marca elitista que a inspirou.

Mas Gabriela avisa: ‘A moda da Daspu é para quem quiser usar. Só que nós temos um estilo único, uma sensualidade própria’.

Você é do tipo que pensa que é fácil ganhar a vida desse jeito? A mineira Maria Nilce responde: ‘Quem pensa que é moleza ser puta está enganado’.

Natural de Ubá, terra de Ary Barroso, teve quatro filhos com o primeiro marido. Dois morreram. Entre os dez netos, os mais velhos sabem o real motivo que faz a avó voltar tarde para casa.

Depois de viúva, ela se casou com um cliente, que hoje tem 65 anos e aceita a sua condição. É um sujeito boêmio – joga sinuca, bingo e aposta em corridas de cavalo. Ele só volta para casa ao amanhecer. ‘Somos um casal moderno’, diz Maria Nilce.

Em seguida, reconhece que rejuvenesceu ao se tornar modelo da Daspu. ‘Tenho muitos clientes antigos e alguns não me trocam por nenhuma putinha mais nova. E agora que sou da Daspu tenho certeza de que não vão me trocar mesmo.’ E reforça: ‘Virei tão fashion!’

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4 comentários sobre “594/ Prostituição e moda: conheça as mulheres da Daspu

  1. AS prostitutas são mulheres e principalmente meninas adolescentes que ao invés de estudarem ou trabalhar elas preferem vender o corpo eu mesma ja tentei ser prostituta mais vi que não valia apena pois estou na 7 série e tenho 13 anos eu ja pensei em ser e tabém ja falei pra todo mundo que o meu sonho era ser PROSTITUTA pois os homens onde eu vo falam não quer me da não gostosa ou vc tá pegável pois tenho um corpo belíssimo muita garota tem inveja de mim eu jaa me esfreguei em vários garotos e eu me arrependo profundamente as meninas que querem ser eu pesso desistem não vai levar vcs a lugar nenhum.

  2. gostaria de conversar com maria aparecida que começou sua vida aqui em nova iguçu
    Adorei todos os depoimentos
    E moro em nova iguaçu

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