624/ Em apoio ao naturalista Marc Van Roosmalen

Artigo de Palmira F. da Silva do De Rerum Natura

A primeira instituição de história natural no Brasil, o Horto Botânico Real, hoje Jardim Botânico do Rio de Janeiro, foi criada em 1808 por D. João VI que se refugiara no Brasil um ano antes para fugir às invasões napoleónicas.

Quando em 1817, o herdeiro do trono português, mais tarde Pedro I do Brasil, se casou com Leopoldina da casa Habsburg, esta incluiu cientistas e artistas no séquito que a acompanhou até ao Rio de Janeiro. Entre estes acompanhantes destacam-se o botânico Carl Friedrich von Martius e o zoólogo Baptist von Spix. Um ano depois do casamento real, foi fundado, igualmente no Rio de Janeiro, o Museu Nacional, na época denominado Museu Imperial, que tinha como objectivo propagar o conhecimento e promover os estudos de Ciências Naturais.

Antes da formalização do estudo da História Natural do Brasil esta tinha sido efetuada por Pero Vaz de Caminha na sua carta descritiva da nova terra e mais tarde pelas narrativas dos jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta.

Foram holandeses, 150 anos antes das expedições de Alexander von Humboldt pela América Latina e da sua obra «Voyages aux régions équinoxiales du Nouveau Continent», os autores de um estudo científico pioneiro da História natural e científica do Brasil. Em 1637 chega à colônia holandesa ‘Nieuw-Holland’, no nordeste do Brasil, o conde (depois príncipe) Johann Moritz zu Nassau-Siegen, conhecido como João Maurício de Nassau, nomeado governador-geral do Brasil holandês. Como Leopoldina uns séculos depois, Maurício de Nassau deslocou-se para o Brasil com uma comitiva de pintores, artistas e cientistas. Entre estes incluiam-se o seu médico, Willem Pies (Piso ou Pison como se lhe refere Humboldt), considerado o fundador da medicina tropical, e Georg Markgraf, o astrônomo que fundou na cidade do Recife o primeiro Observatório Astronômico das Américas, reconhecido no século XIX por Martius como o pai da História Natural brasileira.

Estes naturalistas protagonizariam em 1638 a primeira expedição científica no Brasil, incluindo à Amazônia, que teve como fruto a extraordinária compilação intitulada Historiae Rerum Naturalium Brasiliae, publicada dez anos depois por Johann de Laet, em Amsterdã. Wilhelm Piso, que estudou os efeitos do clima tropical para a saúde tanto dos indígenas quanto dos europeus e analisou as propriedades das plantas autóctones medicinais, não apreciou os erros contidos na compilação de Laet e publicou em 1658 uma versão com o título De Indiae Utriusque re naturali et medica libri quatuordecim. Esta versão foi posteirormente resumida como ‘Oost- en Westindische Waarande’ e funcionou, desde 1694, como um manual de doenças tropicais.

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Outro naturalista holandês, naturalizado brasileiro em 1997, Marc Van Roosmalen, mereceu igualmente as atenções internacionais pelo seu trabalho, científico e em defesa da Amazônia, sendo nomeado um dos heróis do planeta pela revista Time em 2000. Na sua entrevista à Time, o cientista avisou que era necessário tomar medidas para proteger a Amazônia dos madeireiros e plantadores de soja caso contrário “a floresta tropical será destruída mesmo antes de nós sabermos que plantas e animais lá existem.”

Aparentemente, como foi referido pelo Guardian e muitas outras fontes, o primatólogo chamou igualmente as atenções daqueles que criticou, que teriam urdido uma vendetta, concretizada dia 8 de Junho. Como afirma Bert de Boer, diretor do Apenheul, uma organização de conservação da Natureza holandesa, Van Roosmalen, que fundou em 1999 a Associação Amazônica para Preservação de Áreas de Alta Biodiversidade, é “Um grande defensor da natureza e muito apaixonado em relação a isso. O que é algo acerca do qual se tem de ser muito cauteloso no Brasil”, acrescentando que suspeita que as grandes empresas com interesses na região tenham subornado o governo local para calar o mui vocal biólogo.

O naturalista foi condenado há um mês a uma pena de 14 anos de prisão, por dar abrigo em sua casa a 28 macacos orfãos, sem autorização do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), autorização que ele pedira anos antes e pensava ser automática mas ficara retida nas malhas burocráticas brasileiras.

Assim, o anterior herói do planeta que descobriu, para além de outras espécies de mamíferos terrestres, cerca de 20 novas espécies de primatas, os sauá Callicebus bernhardi e Callicebus stephennashi, por exemplo, foi condenado por biopirataria pela Justiça Federal a uma pena sem paralelo, cumprida na prisão Raimundo Vidal Pessoa em Manaus, onde ocorre pelo menos um assassínio por noite.

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, aproveitou para protestar o sucedido na abertura da 59ª Reunião Anual desta sociedade. A sua intervenção merece ser lida na íntegra, mas saliento o seguinte parágrafo: “Van Roosmalen é um cientista, que, por sua obra, merece o nosso respeito e a nossa defesa. A alegada desobediência burocrática não justifica a pena. Não há noticia de penas semelhantes aplicadas a burocratas que nunca respondem aos pedidos de autorização: formal e pacientemente solicitados por pesquisadores.”

O Brasil abriga a mais diversificada e a menos conhecida flora e fauna do mundo, de importância ignorada e incalculável, que se perde a um ritmo acelerado, especialmente pela ação dos madeireiros, criadores de gado e plantadores de soja (e, contrariamente ao que afirmou o presidente Lula da Silva na recente Conferência Internacional de Biocombustíveis, cana do açúcar). Urge defender este património de depredações sortidas mas não creio que a prisão de Roosmalen configure uma medida neste sentido.

O advogado de Roosmalen está preparando um apelo da sentença, que indigna cientistas no Brasil e um pouco por todo o mundo. Aparentemente a WWF, que está investigando o assunto, espera apoio a nível mundial. Este site holandês pede que não sejam iniciadas petições em seu nome, para que não interfiram no processo judicial em curso. De qualquer forma, considero que a notícia deveria ter uma divulgação, que, tanto quanto me apercebi, não mereceu ainda nos media nacionais!

avatar_13263_32 O Blogvisão se associa a esta causa e estaremos acompanhando o caso.

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2 comentários sobre “624/ Em apoio ao naturalista Marc Van Roosmalen

  1. Fiquei muito aflito com esta história. Tenho desde Agosto no Brasil e não sabia nada do que lhe esta ocorrendo a este homem. Paréceme um crime contra a natureza e contra a humanidade, o que o governo brasileiro está fazendo. Um governo que não faz nenhum esforço em fiscalizar os delitos ambientais que se cometem em todo momento, e que prende a um homem que só fez bem para o país e para o planeta.

    Uma pena.

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