674/ Vila das finanças

ANA CLARA COSTA, DE PIRAQUARA (PR) para IstoÉ Dinheiro

Projeto social ensina crianças a gastar e a poupar. O que se pode aprender com elas?

 

Foto: Wellington Cerqueira/Ag.IstoÉ

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Quando uma criança é questionada sobre o que gostaria de comprar, a resposta vem rápida e sem rodeios: brinquedos, roupas, o tênis da moda ou aquele joguinho de computador que acabou de ser lançado. Algumas até arriscam palpites mais ousados, como celulares e tocadores de MP3.

Em meio ao turbilhão de produtos que assola a sociedade do consumo, conter os desejos infindáveis dos pequenos e fazê-los entender o valor do dinheiro parece impossível. Mas a experiência comprova que não é.

Em Piraquara, cidade de 100 mil habitantes localizada na região metropolitana de Curitiba, crianças estão aprendendo na prática a gerir suas “finanças” e a entender o que é o consumo. E o mais incrível: em uma cidade feita especialmente para elas.

Luiz Fernando dos Santos tem apenas oito anos e cursa a segunda série do Ensino Fundamental na Escola Municipal Marilda Cordeiro Salgueiro. Assim como tantas outras crianças, sua rotina diária inclui estudar, brincar e fazer a lição de casa. No entanto, uma vez a cada catorze dias seu cotidiano muda completamente. Em vez de ir à escola, vai “trabalhar”. Seu trabalho? Já fabricou ímãs de geladeira, mas hoje sua função é ser agente de saúde, com direito a cheque-salário.

Não se trata de faz-de-conta e muito menos de exploração infantil. Como ele, outras 4.200 crianças de escolas municipais de Piraquara aprendem a ganhar e a gastar o próprio dinheiro (esse sim, de mentirinha) na Vila da Cidadania, uma cidade-miniatura construída pela empresa paranaense de pneus remodelados BS Colway. As lições já começam a surtir efeito. Luiz Fernando poupa dentro de uma caixa de sapatos a mesada de R$ 15 que recebe da mãe. “Quero comprar uma bicicleta”, confessa.

Durante o período em que freqüentam a Vila, os pequenos possuem uma rotina regrada.

Na função de agentes de saúde, são instruídos com noções de higiene e têm a tarefa de aplicá-las em casa, de preferência ensinando os irmãos e, em muitas ocasiões, os próprios pais. Muitos moram em barracos. “Na maioria, são crianças carentes da favela Guarituba, onde vive metade da população da cidade”, explica Sandra do Rocio Ferreira de Deus, coordenadora da Vila da Cidadania.

Depois de “trabalhar”, as crianças recebem um cheque-salário e se dirigem à miniagência do Bradesco no local, para trocar o cheque por dinheiro. Com o “salário” de R$ 2 em mãos, elas vão até a lojinha da cidade. “Vou comprar uma escova de dente”, diz a extrovertida Joice de Oliveira Fragoso, de 8 anos.

Foto: Wellington Cerqueira/Ag.IstoÉ

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NAS COMPRAS: Luiz Fernando (à esq.) e colegas aprendem o valor do dinheiro

Outra atividade envolvendo a relação das crianças com o dinheiro é a ida ao supermercado, que fica dentro da Vila. Lá, recebem uma quantia fixa para gastar. É quando os coordenadores percebem qual é a noção de gasto que as crianças possuem.

Alguns têm consciência e dó de gastar o dinheirinho, talvez o único que já tenham visto. Outros não têm noção e pegam tudo que desejam”, comenta a coordenadora.

Na agência do Bradesco, todos eles já abriram uma conta e recebem semestralmente um holerite. Os cartões magnéticos para cada um também já estão prontos. Mas só deverão entrar em vigor em 2008. “Conforme as crianças forem adquirindo maturidade, poderão até mesmo pedir uma linha de crédito no banco”, conta Francisco Simeão, presidente da BS Colway e idealizador do projeto.

O crédito, obviamente, segue os padrões da Vila, e o dinheiro só pode ser trabalhado lá. Simeão acredita que esse tipo de iniciativa estimula as crianças a serem empreendedoras e a quererem ganhar dinheiro. “Elas aprendem também que o dinheiro não é a coisa mais importante da vida. O mais importante é o caráter”, afirma.

Com esse mesmo objetivo de estimular o controle financeiro dos pequenos, a escola bilíngüe Alpha Jr., de São Paulo, criou até um minishopping em sala de aula. Lá, a partir dos cinco anos, os alunos recebem moedas em dólar para fazer compras. Não levam nada para casa, mas a lição é aprendida.

“Os próprios pais já vieram nos dizer que os filhos estão mais sensatos e não querem comprar tudo que vêem pela frente”, comenta Carmem Lúcia Assim, coordenadora da escola. A Alpha Jr. tem um programa para ensinar as crianças a administrar a própria mesada.

Esse empenho entre pais, sociedade e educadores em criar jovens consumidores conscientes é um fato novo no Brasil.

Os pais de hoje viveram o boom inflacionário, época em que poupar não era um bom negócio. “Educação financeira dos filhos exige uma posição vigilante dos pais, pois eles não tiveram isso”, argumenta o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, autor do livro Filhos Inteligentes Enriquecem Sozinhos.

O problema é saber detectar a linha tênue que separa a educação financeira da supervalorização do dinheiro, principalmente quando na mídia há uma grande exposição de pessoas enriquecendo rapidamente.

“Os pais precisam tomar cuidado para não criarem adultos materialistas e mesquinhos”, diz. A receita, para Cerbasi, é simples: “Além de ensinar a poupar, é necessário ensinar a doar”. Alguém discorda?

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