672/ Ecologia e biocombustíveis

Artigo escrito por Palmira F. da Silva* para o De Rerum Natura (com adaptações)

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O artigo “Present Forest Biodiversity Patterns in France related to former Roman Agriculture” do número de junho da revista Ecology apresenta dados completamente inesperados.

Mais concretamente, o estudo sugere que, contrariamente ao que se pensava de estudos análogos em outros pontos do globo, os efeitos da atividade agrícola na biodiversidade local persistem pelo menos por dois milênios e não apenas algumas centenas de anos.

O estudo incide sobre Tronçais, uma antiga floresta de carvalhos na região de Auvergne – que deve o seu nome aos Arvernes, uma tribo gaulesa que durante as Guerras Gálicas tinha Vercingétorix como o rei que uniu as tribos gaulesas e foi derrotado por Júlio César na célebre batalha de Alésia.

Voltando à ecologia moderna, nos últimos anos os arqueólogos têm descoberto uma série de vestígios de explorações agrícolas romanas, cerca de 108, na floresta de Tronçais. Uma investigação conjunta com biólogos levou à conclusão que embora estas explorações tenham sido abandonados com o colapso do Império Romano, deixaram uma marca que ainda hoje se manifesta numa maior biodiversidade vegetal e animal em relação a áreas vizinhas.

O artigo indica ainda que o estudo dos ecossistemas localizados em antigos sistemas agrícolas romanos em florestas francesas contemporâneas sugerem que, contrariamente ao que se pensava, é necessário levar em conta a história da utilização de um dado solo para se entender a biodiversidade encontrada em muitas florestas, milênios após a exploração agrícola desses locais ter sido interrompida.

Os romanos fertilizavam os solos com cinzas, estrume e ‘lixo’ doméstico, incluindo restos de cerâmica.

Esta alteração química induzida há milênios pelo homem provocou efeitos “possivelmente irreversíveis” via alteração nos ciclos biogeoquímicos dos solos fertilizados.

No caso das antigas explorações romanas, a ação humana traduziu-se no aumento da biodiversidade – após abandono das explorações – mas este artigo deve nos fazer refletir sobre efeitos, igualmente “possivelmente irreversíveis” mas certamente com efeitos opostos na biodiversidade, que a nossa ação induz nos solos.

Um artigo recente de Jesse H. Ausubel, o diretor do Program for the Human Environment da Universidade Rockfeller em Nova Iorque que foi um dos pioneiros a trazer ao público a questão do aquecimento global, aborda diretamente a utilização dos solos na produção de energias renováveis.

Embora seja cética em relação à defesa da energia (de fissão) nuclear elaborada ao longo artigo, concordo com Ausubel que é necessário “quebrar o tabu de falar sobre aspectos fortemente negativos das energias renováveis”. Notadamente em relação à energia renovável que foi alvo da recente Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, organizada pela UE, conferência que segundo o presidente Lula será repetida daqui a um ano no Rio de Janeiro.

Alvos principais nesta crítica de Ausubel, que ecoa críticas de muitos outros ecologistas, são os chamados biocombustíveis, derivados essencialmente de cana de açúcar, cereais, palma e soja, cuja cultura, embora por enquanto majoritariamente para outros fins, já invadiu as florestas tropicais brasileiras e asiáticas.

Notadamente na Malásia, as plantações destinadas à produção de óleo de palma (óleo de dendê no Brasil) foram responsáveis, entre 1985 e 2000, por 87% do desmatamento neste país, pondo em risco o habitat natural de inúmeras espécies.

Nos últimos anos, milhões de hectares de floresta tropical na Sumatra, Bornéu, Malásia e Indonésia foram arrasados para alimentar a produção de biocombustíveis. Correm risco de extinção, entre outros, o orangotango (relatório em formato pdf da UNEP e UNESCO) e o rinoceronte de Sumatra.

As estimativas publicadas num relatório recente das Nações Unidas indicam que 98% da floresta tropical da Indonésia estará degradada ou destruída em 2022. E a produção de óleo de palma destinado ao mercado europeu de biocombustíveis é atualmente a causa principal de desflorestação naquele país.

George Monbiot, colunista do Guardian, alerta desde 2004 para os problemas ecológicos e não só da agricultura destinada a alimentar carros, não pessoas. O seu artigo no Guardian de 27 de março é especialmente contundente em relação aos programas europeus e norte-americanos referentes aos biocombustíveis a que chama “uma fórmula para o desastre ambiental e humanitário”.

Monbiot indica que “o preço do milho duplicou desde o princípio do ano passado. O preço do trigo atingiu o máximo dos últimos dez anos, enquanto que as reservas mundiais dos dois cereais desceram para o valor mais baixo dos últimos 25 anos.

Já houve conflitos por causa de comida no México e chegam de todo o mundo relatos de que os pobres estão a sentir o impacto. O Departamento de Agricultura americano avisa que ‘se tivermos uma seca ou uma colheita muito pobre poderemos presenciar o tipo de volatilidade que vimos nos anos 70 e, se não acontecer este ano, estamos prevendo igualmente reservas mais baixas para o próximo ano’.

Segundo a FAO, das Nações Unidas, a principal razão é a procura de etanol: o álcool utilizado como combustível, que tanto pode ser produzido a partir do milho como do trigo”.

Embora eu distinga os biocombustíveis obtidos por reciclagem de “lixo” sortido, os biocombustíveis secundários que considero de fato verdes, partilho as dúvidas de Monbiot em relação à bondade da produção de biocombustíveis primários. Pessoalmente espero que o ITER, Reactor Termonuclear Experimental Internacional, projeto internacional que tem como presidente do Conselho de Administração do consórcio europeu o meu colega Carlos Varandas e que constitui a maior experiência mundial de fusão nuclear, nos permita ter disponível em breve energia barata, abundante e produzida com impacto ecológico praticamente nulo.

Espero ainda que os muitos projetos em curso, por exemplo o projeto que integra uma equipe do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IBMC), ‘Engineered Modular Bacterial Photoproduction of Hydrogen’ – que pretende criar cianobactérias geneticamente modificadas para funcionarem como fotoreatores eficientes para produção de hidrogênio – permitam em breve a produção limpa e barata do único combustível cuja queima não produz CO2.

De fato, os biocombustíveis são compostos de carbono e como tal a sua combustão produz CO2. Monbiot no seu último artigo cita um estudo conjunto da consultora ambiental holandesa Delft Hydraulics, da Wetlands International e do Alterra Research Center da Universidade de Wageningen que indica que, considerando a destruição da floresta e solos de turfa associados à produção de óleo de palma, o balanço total de CO2 na utilização de biocombustíveis derivados de óleo de palma não é nulo como se pensava, pelo contrário, a sua utilização é francamente pior em termos de emissões de CO2 que o uso de derivados do petróleo.

*Palmira F. da Silva é química e professora universitária e integrante da equipe de redatores de De Rerum Natura

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