675/ Amazônia – pobre, mas limpinha

VALTERLÚCIO BESSA CAMPELO para Agência Amazônia

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Nos últimos anos convencionou-se denominar de “suja” toda produção de energia de fontes não renováveis. Aquela que vem de fontes renováveis é chamada de “limpa”. Petróleo, por exemplo, é fonte suja, pois sua utilização emite CO² e, segundo os adeptos da hipótese do aquecimento global antropogênico (AGA), este seria o principal gás causador do efeito estufa (GEE).

Hidrelétricas são fontes limpas, pois apesar de interferirem no meio ambiente, alterando biomas e paisagens, não causam emissões de GEE. Mesmo assim, se o dano ambiental for grave, é suja. Biocombustíveis são considerados fontes limpas, pois emitem quase 80% a menos que o óleo diesel.

Entre fontes sujas e fontes limpas caminhava a humanidade até que o Brasil começou a expandir seu programa de biocombustíveis. Novas usinas de álcool, carros flex, aumento do consumo, biodiesel, oleaginosas, mamona, dendê, pesquisas, leis, regulamentos, mistura com o óleo diesel…

Enfim, vários termos entraram na agenda energética brasileira. Tudo no sentido de substituir a fonte suja (petróleo) por fontes limpas (biomassa). O mundo agradecendo. O Brasil se apresentou como o país do biocombustível. Coisa de fazer inveja aos Estados Unidos. Tanto que o Bush veio aqui só pra falar disso e sentir o cheiro do biodiesel.

O Brasil tem área agricultável, tecnologia, capital, organização, mão-de-obra e mercado. Alguém já disse que seremos a Arábia Saudita dos biocombustíveis. Eis que alguém lá no exterior perguntou a alguém aqui no Brasil: E se os biocombustíveis forem produzidos na Amazônia?

Ih, sujou! Pois é. Se depender da Amazônia apague o que você leu aí em cima. Não tem nada de área agricultável, tecnologia, capital, organização, mão-de-obra e mercado. Lá não pode. Álcool produzido na Amazônia é álcool sujo. Biodiesel também. O presidente Lula foi cobrado por isso recentemente na Europa e respondeu como ignorante. Disse que na Amazônia não dá cana-de-açúcar porque o clima não é propício (sic). Segundo ele, se desse, os portugueses teriam colocado seus engenhos por lá. Com isso caiu na cilada. Deu razão aos europeus e se obrigou a frear a produção de álcool na região, embora muitos projetos já estejam em andamento. Logo depois vetou a instalação de novas usinas de álcool na Amazônia.

O mesmo vale para os biocombustíveis. Quem tiver projeto de produção em escala de biocombustível na Amazônia pode guardar na gaveta. Óleo de mamona lá também é fonte suja. Dendê idem.  A Embrapa nem precisa tocar seus experimentos.

E então, qual a explicação para este mecanismo que dispara sujeira em todas as fontes renováveis de energia viáveis na Amazônia? Simples. Qualquer alternativa exige terra desflorestada e, para os defensores da hipótese AGA, área plantada na Amazônia ou é mais queima de floresta (mais emissão de CO²) ou é ratificação de queima anterior, portanto, não pode ser aprovada. Ocorre que segundo estimativas de vários grupos ambientalistas (ver a carta dos ecoartistas da Globo em www.amazoniaparasempre.com.br), existem na Amazônia nada menos que 165.000 km² de área desflorestada e abandonada ou semi-abandonada.

Trocados na medida agrária são 16,5 milhões de hectares. Segundo a Embrapa, bastariam 3,0 milhões de hectares para que toda a nossa necessidade de biocombustivel B5 (5% de adição de óleo vegetal ao diesel mineral) fosse suprida. Ou seja, se utilizarmos 18% da área já desflorestada e abandonada na Amazônia, suprimos toda a nossa demanda por biodiesel B5. É, mas não podemos. Alguém falou que produzido na Amazônia o biocombustível é sujo.

Então, vamos produzir biodiesel aonde? Onde vamos encontrar 3,0 milhões de hectares aptos ao cultivo de oleaginosas? Essa perguntinha nos coloca diante de outro dilema bastante sério, nos fazendo lembrar declarações recentes de Fidel Castro, que está velho, mas não pirou totalmente.

Para se ter uma idéia, apenas o B5 requer o incremento de uma área aproximadamente igual a toda a área plantada com arroz no Brasil na safra 2005/2006. Isto dobrará com o B10, obviamente. É evidente, portanto, que a produção de oleaginosas nesta escala em outras regiões somente se dará em substituição ou em renúncia à produção de alimentos. A não ser que o arroz e o feijão se mudem para a Amazônia, mas aí teríamos baião-de-dois sujo.

Enquanto isso, a Amazônia e seus 20 milhões de habitantes padecem de uma pobreza estrutural de dar dó. Temos as maiores taxas de natalidade, enfrentamos um processo de urbanização acelerada, violência, tráfico de drogas, nas cidades não há saneamento nem moradia digna, sobram favelas e insegurança alimentar, os empregos são escassos, a saúde é uma lástima (vejam as taxas de mortalidade infantil, hepatite, malária, dengue, hanseníase…), a política de pesquisa e desenvolvimento é um faz de conta… Basta ir às estatísticas e verificar. Está diminuindo a diferença entre os estados da região Norte e os do Nordeste. Já estamos disputando os piores indicadores do Brasil.

Enfim, somos apenas os guardiões miseráveis de um rico território que alguns, brasileiros inclusive, julgam pertencer à humanidade absolutamente.

Então, vamos combinar. Na Amazônia carne é suja, soja é suja, álcool é sujo, biodiesel é sujo, madeira é suja, ouro é sujo, diamante é sujo, aço é sujo e, dependendo do lugar, até hidrelétrica é suja… Petróleo, então, é sujíssimo.

Nada disso será permitido. Limpo mesmo só borracha, artesanato e o boi-bumbá. É isso aí.

Decretaram na Europa que nosso destino é ser pobre, mas limpinho.

 

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