693/ Filhas da esperança

Por Marta del Riego. Fotos: Diego Calvín para MarieClaire.es

No Nepal, único país do mundo onde a expectativa de vida dos homens é maior que a das mulheres, uma ONG luta para dar esperança a meninas marcadas pelo sofrimento. Para elas, a vida adulta começa cedo, no árduo trabalho dos campos e em casamentos forçados.

Diante de um futuro que promete apenas dor, elas fogem e caem nas redes de criminosos sem escrúpulo. Mas, com a ajuda de voluntários, muitas estão conseguindo escapar desse destino.

Grupo de garotas entre 13 e 15 anos, que conta com a ajuda da Ong Plan para adiar a data de casamento até os 18 e ficar mais tempo na escola

São seis da manhã no vale de Katmandu, no Nepal. O sol se levanta sobre os arrozais e as cabanas feitas de barro e bambu.

Maya Tamang, de 25 anos, acorda seus filhos: as meninas Kamala, de 10 anos, Dipak, de 3, e o pequeno Suni, de 2. Ela passa delineador nos olhos de Kamala filha e desenha um ponto entre as suas sobrancelhas. Para ela, ter um filho homem é uma bênção dos deuses. Ela o carrega nas costas e o leva ao canteiro onde todos trabalham.

Ali, recolhe pedras que transporta em um cesto de vime. São até 50 quilos, seis vezes por dia, levados até uma clareira num bosque próximo, onde mulheres e crianças trabalham com pesadas marretas. As lascas voam, o som do martelo é contínuo. Às 10h, os pequenos deixam suas ferramentas cair e correm animados para a escola. Para todos eles, aulas são sinônimo de descanso.

Casa da Paz, abrigo da Ong espanhola Plan em Shantri Griha. A jovem Prabita, de 15 anos, mexe na horta ao lado de Praba, de 16. Ficaram para trás os seus dias em um acampamento da guerrilha maoísta, dormindo na selva, sem alimentos, e carregando fuzis e munições.

Ao sul, o nevoeiro ergue-se sobre a selva do Parque Nacional Chitwan, onde vive Shanti, de 17 anos. Já na froteira com a Índia, Sunnita Ram, de 13 anos, segue até sua aldeia, Chhaptapipra. Hoje é um dia especial: a jovem vai negociar o dote para o seu casamento. Se tudo der certo, ela se casa em dezembro.

Fogo Cruzado

Todas essas cenas têm em comum o duro cotidiano de mulheres e crianças no Nepal, um país de 28 milhões de habitantes, entre os quais quase metade é menor de 18 anos. Esse pequeno país, tão amado pelos turistas e trekkers do mundo inteiro, sede do Monte Everest, a montanha mais alta da Terra, é extremamente complexo. Situado entre a Índia e o Tibete, sob a influência dessas duas culturas, divide-se entre hindus (80%) e budistas (10%), além de uma minoria muçulmana e cristã.

O sistema de castas, similar ao dos indianos, está impregnado na sociedade. Ao todo, existem mais de cem grupos étnicos e nada menos que setenta línguas. O sistema monárquico que governa o país corre risco de extinção: em junho de 2001, o herdeiro assassinou os 11 membros da família real e suicidou-se em seguida, deixando o trono nas mãos do único sobrevivente, seu tio, Gyanendra. O povo crê de pés juntos que o atual monarca foi o real executor. Mas o clima já estava pesado desde 1996, época em que um levante da guerrilha maoísta passou a ter o controle da região oeste.

A situação econômica não é melhor que a política. O Nepal é um dos países mais miseráveis do mundo: 75% da população vive abaixo do nível de pobreza.

Nessas condições, ser homem é duro, mas ser mulher ou criança é bem pior. O Nepal é também o único país do mundo onde a expectativa de vida dos homens é maior que a das mulheres: 61 anos para os homens e 60 para as mulheres. Além disso, 73% delas são vítimas de violência doméstica, e uma em cada 200 mães morre no parto -número aterrorizante tendo em vista que, na média, cada uma traz 4,6 bebês ao mundo.

As mulheres também não podem ser herdeiras nem tomar nenhuma decisão. Esses direitos pertencem ao seu pai, marido ou filhos homens. Aos 16 anos, mais de 60% das mulheres estão casadas. Se a família for pobre a ponto de não poder pagar pelo dote da menina, o destino dela certamente será a escravidão.

Maya e seus filhos quebram pedras numa cratera nas proximidades de Katmandu

Fugitivas

A organização não-governamental Plan luta para acabar com a desigualdade e a exploração infantil.

Foi na companhia de membros dessa Ong que a reportagem de Marie Claire visitou o país, partindo de Katmandu. Não há dúvida de que se trata de uma cidade belíssima, repleta de pagodes (templos) de monges budistas e santos hindus, que parece ancorada na Idade Média. Não é diferente nas cercanias da capital, onde vive e trabalha Maya Tamang. As duas filhas a ajudam quebrando pedras, até a de 3 anos, que mal agüenta o peso do martelo. Ela diz que este é único trabalho que foi capaz de encontrar. Por aqui, uma criança ganha menos de meio euro por dia; um adulto, 1 euro.

A maior parte dos rendimentos delas vai parar no fundo de uma garrafa: seus pais gastam em álcool. Um dia de trabalho equivale a dois copos de cerveja. É por isso que é tão importante que as crianças tenham um lugar para guardar seu dinheiro.

Annita exibe a caderneta onde guarda economias do salário

No Centro de Informação Tecnológica de Katmandu, Annita, de 14 anos, mostra a caderneta onde está aplicando o que junta na sua caixa de madeira. Ela trabalha com entrega de verduras. De cada 45 cents que ganha, deixa cinco na caderneta e, com o que sobra, compra arroz para a família. Diz que quer ser médica. Se conseguir terminar a escola, claro, ela não vai às aulas todo dia. Nem ela nem a maioria das meninas: somente 27% das menores de 15 anos sabem ler e escrever. Entre os meninos, esse percentual sobe para 62%.

A reportagem foi visitar as jovens Praba e Prabita na Casa da Paz, mantida pela Plan no vale de Katmandu. Uma centena de meninas de 5 a 17 anos corre até a recepção. Quase todas elas mantinham vínculos com a guerrilha maoísta. A verdade é que grande parte da população apóia os guerrilheiros. Muitas crianças são seduzidas por grupos de teatro que cantam as virtudes do maoísmo. A estratégia deu certo com Prabita.

O pai dela morreu e a família não encontrou outra solução a não ser enviá-la para viver com um primo. Este, por sua vez, obrigou a menina a casar-se com ele. Foi aí que ela fugiu.

Prabita tinha 13 anos. Viveu por vários meses no acampamento. Ela recorda sua saga: ‘Não tinha comida. Nós dormíamos no chão e éramos obrigadas a carregar armas muito pesadas. Quando o Exército se aproximava, a gente se embrenhava na selva. Era bem duro. ‘Certo dia, eu e uma amiga decidimos que íamos fugir. Caminhamos três dias pela selva até encontrarmos soldados e então nos entregamos’. O Exército a levou para um campo de concentração. Eles a interrogaram. Torturaram? ‘Não’, ela diz.

O tradutor faz um sinal. Mais tarde, ele iria explicar que a maioria das meninas sofre abusos sexuais da guerrilha e do Exército. Mas elas jamais vão pronunciar uma só palavra sobre isso, muito menos dizer que participaram de combates. Os líderes chegam a pôr as crianças na dianteira para que elas sejam as primeiras vítimas de alguma das mais de 20 mil minas enterradas no país.

No inferno

Prabita tem olhos enormes e amendoados, que contemplam seu interlocutor com tristeza absolutamente devastadora. Ela não pode voltar a sua aldeia.

Teme-se que os guerrilheiros a levem de volta e, além disso, ela é muito mal vista pela própria comunidade: é uma traidora. Diante de uma pergunta perturbadora (‘Os maoístas são bons ou maus?’), ela simplesmente responde que não sabe dizer.

Primeiro, os guerrilheiros submetem as crianças a lavagem cerebral. Depois, o Exército as tortura, corta seus dedos, as espanca. No fim de tudo, eles não sabem mais de que lado estão.

A viagem segue rumo ao sul. O carro atravessa o centro montanhoso do país por uma estrada infernal, sem asfalto.

Chegamos a Tarai, na zona de fronteira com a Índia. Nesse lugar, crescia uma selva impenetrável, hábitat de tigres, rinocerontes e crocodilos e infestada de malária. Até que, nos anos 50, o governo começou a deflorestação e a desinfecção.

Hoje, essa área concentra metade da população do país, e muitos pertencem à casta mais pobre. Trata-se de uma zona insalubre, extremamente úmida, onde proliferam doenças infecciosas e a aids, que chega da Índia, ainda que não existam estatísticas. É mesmo o lugar ideal para o tráfico infantil; crianças são vendidas como escravas a fábricas de tapetes, a bordéis e a centenas de circos.

Cara de choro

A cidade de Hetouda é barulhenta e malcheirosa.

Os caminhões são montes de sucata decorada com desenhos de deuses hindus. Também há bicicletas, riquixás, carros puxados por cavalos esquálidos e pedestres, milhares de pedestres com cargas na cabeça, nas costas, nos braços, além de vacas de corcunda e chifres largos, das quais todos se desviam com cuidado, porque são sagradas.

Depois de atravessar, com muita paciência, essa massa colorida e densa, alcança-se Jogital. O lugar se resume a um punhado de casas de bambu e de barro nas margens da mata. A família de Shanti Maya Blon, de 17 anos, oferece esteiras para os visitantes se sentarem. Shanti trabalhou por quase cinco anos em um circo. Ela fala num fio de voz: ‘Meu pai estava preso, acusado de traficar peles de tigre, apesar de ter sido provado que ele era inocente. Não tínhamos nada para comer. Então, chegou uma senhora de Hetouda e disse que, no circo, ganhava-se muito dinheiro. Eu e outras 20 meninas decidimos ir com ela’.

Quando o pai saiu da cadeia, foi buscá-la, mas disseram a ele que a menina tinha um contrato de cinco anos e não poderia ir embora.

Foi resgatada por uma Ong.

Durante todo o tempo em que ficou no circo, não recebeu uma só rúpia. Levantávamos às 4h30. Ensaiávamos até a primeira apresentação. Havia três por dia. A última terminava às 21h. Se a gente errava algum movimento, apanhávamos.

A repórter de Marie Claire pede à menina que faça uma pequena demonstração, mas ela está inibida. Quando nos despedimos, Shanti conta que está aprendendo corte e costura. Mas não parece muito feliz. É bem provável que ela tenha muitas lembranças para esquecer: a maioria das meninas nepalesas não trabalha como acrobata, mas como prostituta, fazendo ponto próximas dos caminhões do circo. Ela não devia saber fazer o malabarismo que pedi.

No último dia da viagem, assistimos à boda de Sunnita em Chhatapipra. Sua família considera que é o momento certo para casar a menina. Eles são pobres, mas possuem meio hectare, uma casa de barro, uma ovelha, um porco e algumas galinhas.

Sunnita olha no espelho e vê toda sua tristeza: ela vai se casar aos 13 anos

O pai dela se casou pela segunda vez quando sua primeira mulher ficou doente; agora as duas convivem na casa, com três filhos e as respectivas esposas. Já não há mais lugar para Sunnita. Quando uma moça completa 14 anos e não está casada, abre-se espaço para a maledicência e fofocas. Por isso, o padre incumbiu o sacerdote hindu e o barbeiro de encontrar um noivo para ela.

Ele tem 18 anos e vive a cerca de 20 km dali. Hoje, os homens da família do moço virão visitá-la, exceto ele mesmo, a quem ela só conhecerá no dia do noivado. De olhos baixos, Sunnita mostra a eles as mãos e os pés. As visitas degustam pratos tradicionais enquanto a examinam, vestida com a sua melhor roupa de gala. Nesta manhã, sua mãe e sua madrasta a pentearam, puseram pulseiras nos seus braços e tornozelos. Ela exibe uma expressão de tristeza: ‘As noivas choram -vão comentar conosco mais tarde- porque, quando deixam a casa da família, tornam-se propriedade do marido’.

Começa a negociação do dote de Sunnita. Seu pai terá de pagar algo em torno de 770 euros, parte em presentes (jóias, utensílios etc.) e parte em espécie. Para arcar com os custos, pedirá crédito aos agiotas locais. Mesmo assim, ele está contente porque esta é a última filha que falta casar.

A tradição do dote é uma das causas do casamento precoce: quanto mais velha for a menina, mais dinheiro a família terá de gastar para casá-la. Depois da cerimônia, na frente do seu pai. Sunnita se mostra encantada. Mas suas feições mudam quando ele não está mais presente. ‘Como você imagina o seu noivo?’, pergunto. ‘Bonito, educado, uma pessoa que me deseja. Mas, sinceramente, eu preferiria continuar indo à escola.’

Os funcionários da Plan vão tentar convencer o marido de Sunnita para que permaneça na escola. Eles já conseguiram isso com outras garotas, por meio de um programa chamado ‘Better Life Options’ (Melhores Opções de Vida). Com a ajuda da Plan, grupos de meninas organizam-se para persuadir seus pais a atrasar o casamento.

Nos últimos dez anos, elas conseguiram que a idade média passasse dos 9/10 anos para os atuais 14/15 anos. Ainda que essa mudança pareça mínima, esse é, sem dúvida, um avanço importante. Com certeza, haverá outros. Uma onda de esperança vital paira sobre esse país. Perto da casa de Sunnita, um grupo de adolescentes diz, em coro, qual é o seu sonho: ‘Queremos ser crianças e que, no futuro, nossas filhas possam ter direito à infância’.

Como ajudar

A ONG Plan é uma organização com foco na infância, sem afiliação política nem religiosa e com 70 anos de experiência.

Seu objetivo é melhorar as condições de vida das crianças em países em desenvolvimento. Atualmente, coordena projetos em 62 países e ajuda mais de 12 milhões de pessoas. Mais informações no site: www.planespana.org.

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