712/ Suíça – Um discreto retrocesso aos anos 40

Rui Martins*/Especial para BR Press

Manuel, um angolano de 21 anos, há mais de um mês na penitenciária suíça de Witzwil, é a gota d´água que faz transbordar o acúmulo de medidas consideradas arbitrárias pela Associação SOS Racismo. De maneira discreta mas constante, a Suíça está renegando seu passado de terra de asilo e, como não pertence à União Européia, vai além das medidas defendidas, há algum tempo, pelo austríaco Jorg Haider sem provocar reações.

Alguns militantes de direitos humanos na Suíça, têm uma explicação: “Os tempos mudaram, a Europa quer se livrar dos estrangeiros e, se os métodos suíços aplicados pelo ministro Christoph Blocher não provocarem reações, provavelmente serão levados aos outros países”. Por isso, nada de se estranhar os elogios do candidato francês Jean-Marie Le Pen à política de imigração suíça, no seu encontro com a imprensa, na semana passada, em Paris.

Publicados com destaque na Suíça, os elogios da extrema-direita francesa ainda não conseguiram levar a imprensa suíça a definir o líder do Partido do Povo com a mesma severidade da imprensa francesa a Le Pen. Entretanto, muitos vêem uma consonância entre as declarações entre o “Ministério da identidade nacional” do francês Sarkozy com a política suíça.

Visto provisório F

Manuel, o jovem angolano preso cristaliza hoje a política qualificada por muitos de “racista” e vem merecendo destaque em alguns jornais. Ele chegou à Suíça com 7 anos, quando Angola vivia a guerra civil. Veio com a mãe e, embora seu país fosse inseguro, não teve aceito o pedido de asilo. Recebeu um visto provisório F, entregue a requerentes vindos de países inseguros.

Durante sua infância, Manu frequentou a escola primária e secundária em Bienne, aprendeu o francês, fez amigos, teve pequenos empregos, enfim, se integrou. O jovem de hoje de nada se lembra da Angola de sua infância, mesmo porque seus pais tinham se separado e pouco recebeu de sua mãe, com a qual já não vive há algum tempo.

Ao chegar à maioridade, o serviço social local ajudou Manuel a escrever um pedido ao serviço de estrangeiros para lhe dar um visto correto ou a nacionalidade, para poder trabalhar e ter uma vida normal. Com o visto F, Manuel não pode ter emprego e nem onde morar, mas para ter um visto normal, é preciso ter emprego e um endereço. Esse é um dos cinismos da nova lei para imigrantes que acaba por transformar todos os requerentes de asilo em delinqüentes.

Outra lei aprovada no ano passado torna praticamente impossível o pedido legal de asilo. As muitas exigências enquadram imediatamente o requerente como NEM, a sigla que define os casos Não Entrados em Matéria e considerados como infratores da lei suíça de asilo. O caso de Manuel, preso e aguardando expulsão, é um entre milhares. Muitos já foram expulsos, nem sempre para seus países de origem, por acordos passados com certos países africanos, alguns relacionados com a restituição de dinheiro bloqueado em contas bancárias secretas.

Enquanto isso, discute-se na Suíça o passaporte provisório para os estrangeiros nacionalizados e, uma comissão parlamentar votou pela concessão da nacionalidade suíça só em votações populares pelas comunidades locais. Os habitantes recebem os nomes, origem e fotos dos estrangeiros desejosos de se naturalizar suíços. Os portugueses geralmente são aceitos mas os negros, árabes e da ex-Iugoslávia são sistematicamente rejeitados, como mostraram as votações feitas na cidade de Emmen.

(*) O veterano correspondente europeu Rui Martins reside há 20 anos na Suíça, depois de ter vivido em Paris (exílio) e Amsterdã. É autor do livro Dinheiro Sujo da Corrupção, indicado ao Prêmio Jabuti 2006 de Livro Reportagem, no qual denuncia as contas de Paulo Maluf no exterior (Geração Editorial). Fale com ele pelo e-mail: rmartins@brpress.net .

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