779/ Viver de orgânicos. Já é possível?

Por Priscilla Santos para Revista Vida Simples

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Os números são animadores. Até 2004, o Brasil ocupava o 34º lugar na escala mundial de produtores de orgânicos. Avançou e hoje ocupa a segunda posição (só fica atrás da Austrália), com cerca de 6,5 milhões de hectares de área destinada aos alimentos que respeitam a saúde, o ambiente e as relações sociais.

O salto se deve à inclusão do extrativismo sustentável, que abocanha a maior fatia do bolo, 5,7 milhões de hectares, no cálculo da produção orgânica nacional. A quantidade de propriedades orgânicas passou de 14.866, em 2003, para 19.003 em 2004. Hoje são cerca de 20 mil produtores. O crescimento da produção nacional segue avançando à média de 30% ao ano.

Mas, para quem mora em grandes centros urbanos, os produtos são fáceis de se encontrar? As feiras seguem sendo uma boa opção? E as cestas entregues em casa? E as grandes redes? Orgânicos são mesmo mais caros e menores? E o sabor? As respostas começaram a aparecer numa feira.

É possível viver na cidade alimentando-se apenas de orgânicos?

Em termos. Poderia tascar logo um sim se considerasse que esta cidade é São Paulo e trata-se de alimentação em casa – comer fora todo dia é complicado por questão de tempo, dinheiro e variedade. Mas o maior porém, e igualmente o mais óbvio, é: depende do que você come.

A variedade de produtos orgânicos cresceu. Hoje se encontram, além de frutas (banana e laranja são as mais comuns), legumes e verduras, grãos, laticínios, molho de tomate, temperos, mel, frango, carne bovina, camarão, massas, pães, doces, bebidas alcoólicas e até hambúrguer, sorvete, ketchup e pratos congelados (os alimentos processados devem ter ao menos 95% de ingredientes orgânicos).

Em suma, apesar de não chegar aos pés da variedade de alimentos convencionais, há ingredientes suficientes para café da manhã, almoço e jantar.

Feiras livres são boas opções?

Em geral, sim. Mas, se a feira perto da sua casa for pequena, será preciso ir a mais de um supermercado para suprir suas necessidades. Em São Paulo, a Feira do Parque da Água Branca é a grande opção. Quando foi criada, em 1991, contava com oito expositores. Hoje são 37. As mercadorias vão de hortaliças a laticínios, pães e bolos.

O preço é mais acessível se comparado aos demais pontos de venda – o que se confirmou também na feira do Ibirapuera, com quatro barracas. Fácil entender: nas feiras você compra diretamente do produtor. E o freguês tem a oportunidade de conhecer e trocar idéias com ele. Pois cerca de 80% da produção orgânica nacional é originária da agricultura familiar.

E o tête-à-tête só traz vantagens. Peguei um vistoso maço de rúcula. Mas eram folhas demais. “Pode levar metade”, disse a vendedora. Comprar a granel é um ganho nas feiras e raridade nos demais pontos de venda de orgânicos.

Na feira, comprei uma erva-doce pensando em bater com suco de abacaxi. Mas cadê o abacaxi? “Só dá no fim do ano”, diz a moça que vende laranjas. “E manga?”, indaguei. “Nunca vi por aqui.” Estamos tão acostumados a ter tudo na mão que nos esquecemos de que os alimentos que vêm da terra também têm seu ciclo de vida e não estão aí, para dar e vender, só porque estamos com vontade. Com a facilidade de ter qualquer ingrediente na hora que bem entendemos, acabamos afastando nossa civilização do ciclo natural das coisas.

E as cestas entregues em casa?

Em São Paulo, há mais de 40 distribuidores. Recebi de um deles a previsão dos itens da semana.

Pensei em desistir, pois havia na lista pepino e repolho, alimentos que eu não costumava comer. Um ensinamento que ouvi dias depois de Joop Stoltenborg, holandês radicado no Brasil, fundador do Sítio A Boa Terra, faria com que me arrependesse.

“Quando cheguei ao Brasil, achei batata-doce, quiabo e outros alimentos horríveis”, diz. Estranhamento semelhante ao dos botânicos que fizeram os primeiros registros de nossas espécies, parecidos com os aí ao lado.

“Com o tempo, percebi que não existe ingrediente ruim e sim desconhecimento de alguma receita”, diz. Consumir os alimentos da nossa região é melhor por evitar o gasto de energia com transporte. E se faltarem coisas? Dá para viver com menos.

Dá para contar com os empórios e restaurantes?

Novidade de 2003 para cá, os empórios dedicados exclusivamente aos orgânicos, em geral conjugados com restaurantes, pipocaram em São Paulo. Somente em novembro passado surgiram duas casas com proposta inédita: ser um protótipo de supermercado só com produtos orgânicos certificados, onde o cliente possa abastecer todas as suas necessidades, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, onde já existem grandes cadeias no ramo.

O primeiro, o Taya, num bairro de classe média alta, comercializará 1.500 mercadorias, entre bebidas alcoólicas, alimentos, cosméticos e artesanato. Até o uniforme dos funcionários será de algodão orgânico. “A principal vantagem é não ter a concorrência direta do produto convencional”, diz Patrícia Hamra, uma das sócias.

Com a mesma idéia, foi aberto o Espaço Aldeola. No pátio central da casa, no bairro de Pinheiros, duas vezes por semana há uma feira com hortaliças e alimentos processados, enviados por produtores de Botucatu, interior do estado, num modelo parecido com os farmers markets americanos. A idéia é que, a partir de 2007, haja feira todos os dias, num rodízio entre diversos produtores.

Como anda a oferta nas grandes redes?

A maior parte tem áreas reservadas para as hortaliças orgânicas. Muitas também agrupam itens de mercearia numa única prateleira. A oferta desses produtos ainda é pequena, mas aos poucos eles vão invadindo as gôndolas. O problema está na distribuição dentro das lojas.

Fui a um supermercado de uma grande rede nacional e perguntei pelos orgânicos. Numa prateleira ao fundo havia grãos, geléias, compotas e café.

Não achei azeite. O atendente checou também na parte de convencionais e nada. Já em direção ao caixa, passo o olho e, por sorte, vejo um azeite orgânico junto aos convencionais.

Em outra loja da mesma rede, procurei por pão orgânico e me informaram que não havia. Passei pelos pães convencionais e lá estava ele.

Parece que um dos dilemas dos supermercados é decidir onde colocar os produtos orgânicos. Alguns optam por deixá-los na seção correspondente ao tipo de produto – ou seja, azeite orgânico fica na seção de azeites – e correm o risco da concorrência com os produtos convencionais, mais numerosos. Agrupá-los em prateleiras únicas, por outro lado, pode significar a perda de um comprador em potencial. E assim a coisa fica no meio do caminho. Isso sem contar quando se jogam “naturais, diet e light” no mesmo saco, com uma gôndola só para tudo.

Uma rede européia de supermercados que atua em todo o Brasil resolveu atacar em várias frentes. Em 2004, inaugurou em quatro lojas de São Paulo uma seção com cerca de 200 itens orgânicos. Mas não deixou de alocar as mesmas mercadorias nas prateleiras convencionais.

Hoje, o setor existe em oito lojas. Em algumas, houve um aumento de até 50% na venda de orgânicos. Prova de que a facilidade em encontrar o produto é um belo empurrãozinho.

Orgânicos custam os olhos da cara?

Em geral, são 30% mais onerosos. Mas depende do produto. O tomate, um dos alimentos mais borrifados com agrotóxicos na produção convencional, pode custar até 500% a mais.

Já o macarrão e o queijo costumam ter preço similar ao dos convencionais. O orgânico em geral custa mais devido à baixa escala de produção, o que implica custos fixos maiores, e porque a demanda é maior que a oferta. A tendência é o preço baixar, em especial o dos hortifrútis, quando a produção atingir uma certa escala e a logística melhorar. Mas que a profissionalização não saia caro a certos ideais.

A produção orgânica baseia-se na interação harmônica entre o solo, as plantas, os animais e o homem. Nada de abusar dos recursos naturais. Por isso, a rotação de culturas, adubos verdes e preservação do solo e da água.

Manter viva a fauna da roça (inclusive os bichinhos que não vemos a olho nu), veja só, é o que mais garante a saúde dos alimentos.

“Os organismos competem uns com os outros e vão se equilibrando, diminuindo o número de pragas e doenças. Mas é sempre importante lavar as hortaliças antes de comer, orgânicas ou não”, diz o agrônomo José Pedro Santiago, do Instituto Biodinâmico (IBD), maior certificador de orgânicos do país.

O respeito às leis trabalhistas e o envolvimento do produtor em projetos sociais e ecológicos são levados em conta na produção.

Mas faltam essas informações ao consumidor. Para seu mestrado na USP, em 2005, a administradora de empresas Roberta Teixeira da Costa entrevistou 980 consumidores de feiras, supermercados e deliveries de São Paulo. Ao perguntar se deixavam de consumir orgânicos por causa do preço, 40,9% disseram que sim. Quando perguntou se faltava informação sobre orgânicos, 88,6% concordaram.

São menores e mais feios (porém mais saborosos)?

Salvo exceções, as frutas, legumes e verduras são menores e nem tão atraentes à primeira vista (mas as aparências enganam: quando você abre a fruta, vê que ela está ótima por dentro, e ainda por cima dura mais). E tem explicação: os alimentos sem agrotóxicos possuem menos água, o que os faz crescer menos, mas os torna mais concentrados, ricos em vitaminas e mais saborosos.

A confirmação de que alimentos orgânicos têm mais sabor começou com um comentário num almoço de sábado. “Esse tomate é bem mais doce. Vai ver esse é o sabor verdadeiro de tomate e nós é que não estamos acostumados.”

Idéia que só foi reforçada quando pensei em um hambúrguer de carne bovina orgânica que provei. Tinha mais gosto das almôndegas feitas pela minha avó do que de qualquer outro hambúrguer que já experimentei. Sabor forte, até estranhei.

Sensação desvendada por minha mãe, que foi criada no interior: “O sabor é mais caseiro”, disse. Quantos outros alimentos já provei na vida e mesmo assim continuei sem saber seu real sabor? Estamos retornando à era da comidinha da vovó. Porque, no final das contas, o orgânico é a redescoberta do alimento mais puro, mais fresco e mais verdadeiro.

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