792/ Santa Clara de Assis – Uma vida de amor

Por Maria Luísa V. Paiva Boléo para a Revista Máxima

SantaClara

Nasceu em 1194 (ou 1193) numa família nobre e rica, na cidade de Assis. Foi uma jovem alta e loira de grande beleza que esteve prometida em casamento a grandes senhores feudais. A sua recusa ao casamento inseriu-se na “profunda inquietação religiosa” que muitos homens e mulheres sentiram nos séculos XII e XIII e que os levou ao retorno a uma vida ascética e desprovida de bens materiais.

Clara era de uma grande exigência para consigo própria. A opção pela mais absoluta pobreza, para melhor viver o cristianismo, faz dela uma mulher admirável para os parâmetros da sua época e para a eternidade.

Aquela menina loira era sensível

Clara era neta e filha de fidalgos guerreiros das mais ilustres e poderosas famílias de Assis. Viviam num palácio na cidade, possuíam um castelo nos arredores e consideráveis propriedades.

O pai, Favarone Scifi, era conde e como todos os cavaleiros feudais deixava a educação das filhas a cargo de sua mulher e das numerosas damas do palácio. Como guerreiro cabia-lhe também participar nas cruzadas contra os infiéis, mas a sua religiosidade não iria muito além destas belicosas investidas.

O avô de Clara pertencia à nobre família dos Offreducci. Seu filho mais velho, Monaldo, tio de Clara, era um guerreiro brutal e sem escrúpulos, mas na família havia outros parentes cuja generosidade aquela menina loira e sensível iria imitar. Ortolana Fiuni, antes mesmo da sua filha Clara nascer, pediu autorização ao marido para fazer uma peregrinação à Terra Santa, fato que era comum na época, principalmente na nobreza.

Foi acompanhada da sua grande amiga, Pacífica de Guelfuccio, e integradas num grupo maior de peregrinos. Só a muita fé fazia esquecer a travessia do mar em más condições, as caminhadas longas sob diversos perigos, o calor, a escassez de água e alimentos. Toda a adversidade era compensada pelo momento inesquecível da chegada a Jerusalém, e o privilégio de poderem ajoelhar-se perante o Santo Sepulcro. Nessa viagem, Ortolana irá também a Roma. Após o regresso a casa, sabe que vai ser mãe. A lenda diz que a mãe de Clara de Assis ouviu um dia vozes que lhe anunciam que a criança que ia nascer iria ser um clarão de luz para todo o mundo.

Em Roma era papa Celestino III. Corria o ano de 1194.

A recusa do luxo e do poder

Clara é batizada na mesma igreja onde, doze anos antes, recebera o batismo Francisco de Assis (que teve na pia baptismal o nome de João). As suas vidas vão para sempre estar ligadas por uma grande amizade espiritual.

Mas se São Francisco, o santo padroeiro dos ecologistas que tratava os animais e as plantas por “irmãos” e “irmãs” e por quem os adultos e as crianças têm uma ternura muito especial, continua, decorridos tantos séculos, a ser conhecido e venerado, o mesmo não se passou com Clara que é pouco conhecida fora de Itália. Ela foi, porém, a feição feminina do franciscanismo na sua mais absoluta pobreza. Foi a fundadora das Clarissas, que se estenderam rapidamente por todo o mundo. Portugal teria o seu primeiro convento de Clarissas, em Lamego, antes de 1260.

Os franciscanos e as clarissas vão operar uma profunda reforma nos costumes do seu tempo, numa recristianização da sociedade.

A espiritualidade franciscana apontava para uma vida de despojamento de bens materiais e uma verdadeira recusa à subserviência ao dinheiro e ao luxo. Para Francisco de Assis a santificação pessoal era uma obra coletiva, numa união estreita com os outros, fazendo da divulgação da palavra de Cristo uma componente essencial dessa espiritualidade.

Regressemos ao século XlI e a essa bela cidade situada no cimo de uma montanha — Assis.

Clara foi a mais velha de cinco ir mãos — Inês, Beatriz e dois irmãos. A sua infância e juventude foi a de uma menina fidalga. Gostou de vestidos de seda bordados, usou muitas vezes jóias quando com a família ia às festas da sua cidade ou assistia aos torneios onde a destreza dos irmãos e amigos era certamente para ela um motivo de aplauso.

Aos doze anos era considerada de uma beleza fora do vulgar e os seus dotes artísticos eram o orgulho da mãe e do pai. Este, achou que era chegada a idade de a casar, mas Clara foi dizendo que não estava preparada.

Clara encontra Francisco

Nesse tempo nem a própria mãe, profundamente religiosa, poderia adivinhar o futuro daquela filha que viria influenciar toda a família.

Clara teria pouco mais de treze anos quando Francisco, filho de Pedro Bernardone, o rico fabricante e mercador de tecidos: resolveu tomar atitudes “bizarras”, começando por dar as suas ricas roupas e o seu cavalo a um pobre e depois desaparecendo de casa para se refugiar numa ermida abandonada a um quilômetro da cidade, recolhido em oração.

Não se falava de outra coisa em Assis depois de Francisco ter roubado peças de tecido ao pai que vendeu para com o dinheiro reconstruir a capela de São Damião. Mais tarde a sua comunidade muda-se para Santa Maria dos Anjos.

Com o tempo, outros jovens ricos vão juntar-se a Francisco e formarão uma nova comunidade religiosa a quem o papa Inocêncio III, em 1209, vai autorizar a pregação, como se fossem sacerdotes ordenados, embora, de início, a Igreja não entendesse muito bem o que pretendiam estes novos monges, que receberam sempre grande apoio dos beneditinos.

Durante um ano, Clara vai à Capela de Santa Maria dos Ajos ouvir a pregação de Francisco e conversa com ele. Vai vestida de maneira discreta, sobre a cabeça põe um manto pesado para não ser reconhecida e faz-se acompanhar de uma amiga de confiança.

Clara não mais vai esquecer essas conversas nem a forma humilde como ele se vestia – descalço, uma túnica de pano grosseiro, apertada na cintura com uma corda e um cajado encimado de uma cruz e aquele olhar sereno e feliz. Aquela felicidade que só alguns conseguem atingir.

A fuga durante a noite

Durante quatro anos, silenciosamente, sem mesmo dizer à mãe o que se passava no seu pensamento, Clara vai meditar na sua vida.

Aos dezoito anos, no dia 18 de Maio de 1212, sai à noite de casa, acompanhada da amiga fiel, Filipa de Guelfuccio, descem a encosta até à Porciúncula onde Francisco, outros frades e freiras de outros mosteiros as esperam. Leva por baixo do manto um vestido de noiva, adornada com jóias: é o costume que ainda hoje se mantém nas tomadas de hábito das freiras que depois despem as vestes da “riqueza mundana” para envergarem o hábito da pobreza.

Neste caso a verdadeira pobreza franciscana — o véu branco da pureza e o negro símbolo da penitência. Na cerimônia de profissão de fé de Clara, no mosteiro de Francisco, é e!e próprio quem lhe vai cortar os cabelos. Diz-se que ao ver cair aqueles fios doirados no chão, o santo terá deixado rolar uma lágrima.

A família, ao dar pelo desaparecimento de Clara, desencadeia as buscas, tendo à frente o tio de Clara. Pensa-se primeiro num rapto da autoria de algum jovem, o que era vulgar na época (eram chamados os “casamentos por rapto”) mas depois descobre-se que ela se recolhera junto da comunidade de Francisco.

O tio Monaldo diz que a culpa é desse “doido” e jura que a trará para casa. Mas quando chega ao mosteiro das beneditinas de S.Paulo, em Bastia, próximo de Assis, onde Clara se recolhera, vê a sobrinha descalça, vestida pobremente que com serenidade e segurança lhe diz que não mais voltará para casa dos pais, porque é aquela a vida que escolheu. Fica indeciso. Ainda tenta forçá-la a segui-lo. Porém, Clara — para que ele perceba que a sua opção não foi um impulso passageiro tira o véu e mostra-lhe a cabeça rapada. O tio solta um grito de raiva. Aqueles cabelos, elogiados por toda a cidade, já não cobriam a bela cabeça da sobrinha e, meio descontrolado, retira-se com os seus soldados.

Como a família de Francisco, também a de Clara teve de encarar a escolha da filha como algo mais forte que os poderes terrenos. Ortolana, a princípio, não percebe bem o alcance do gesto da filha porque pensa que ela poderia ter escolhido ser freira num convento rico, para onde iam tantas meninas da nobreza. Inês, irmã de Clara, quinze dias depois fará o mesmo e a própria mãe, mais tarde, já viúva, vai também entrar num convento.

Escolher o privilégio… da pobreza

A exigência espiritual de Clara de Assis diferenciava-se das outras comunidades de freiras, principalmente num aspecto — além de ser uma ordem contemplativa, vive o “privilégio da pobreza”.

Esta recusa total dos bens terrenos era completamente inaceitável na época e, daí, Clara ter toda a vida lutado para que a sua Regra fosse aceita pelo Papa que a considerava de uma tal exigência que seria difícil de cumprir. Gregório IX confirmará a nova ordem monástica, em 1228.

Ainda hoje, é difícil, compreendermos o que é este espírito de pobreza de Francisco e Clara. Seria preciso penetrarmos na mentalidade da época, onde a pobreza era uma humilhação, mais do que uma ausência de bens.

Os pobres eram, (como de resto, ainda hoje o são por muitos) tidos de algum modo, marginais que viviam da bondade de quem lhes dava esmola.

Hoje, fala-se de outra pobreza que é o fruto de calamidades naturais e da responsabilidade dos governos de países, exclusivamente preocupados com o progresso material, como se o ser humano só precisasse de bens palpáveis.

Clara de Assis, na sua pequena comunidade com as outras “senhoras pobres”, como se chamaram de início as Clarissas, vai aceitar, apesar de uma primeira recusa, ser a abadessa, sempre como apoio espiritual da comunidade de Francisco. Vão instalar-se num mosteiro beneditino de Sant’Angelo de Ponzo.

Inês, que também vai seguir a vida monástica, irá para outro convento e as duas irmãs ficarão trinta e cinco anos sem se encontrar.

A fama de Clara espalhava-se, gente dos arredores vinha pedir-lhe conselhos e ela, através da oração, fazia curas ditas milagrosas. Surdos que passaram a ouvir, mulheres estéreis que tiveram filhos e muitos outros fatos fora do comum.

Clara de Assis foi canonizada em 1255, apenas dois anos após a sua morte.

O MILAGRE DO SOL

Um dia, Frederico II, com o seu exército composto por sarracenos, desde que fizera uma aliança com o sultão do Egito, aproxima-se do convento de S. Damião. Na sua fúria contra a Igreja católica, tenta penetrar no mosteiro onde se encontra Clara e a sua comunidade. Quando os soldados que tentavam o saque se aproximam, as freiras em pânico vão avisar Clara que, sem ter qualquer meio de defesa, vai à capela e pega na custódia, peça do culto onde se coloca a hóstia, normalmente de ouro ou prata, e empunhando-a com as duas mãos levanta-a de modo a que seja vista pelos invasores. Conta a lenda que os raios de Sol, refletindo-se nela, teriam assustado os guerreiros que, em debandada, fugiram. Será esta a cena mais representada nas gravuras e pinturas que se têm feito de Santa Clara, sendo de referir que em Portugal existem inúmeros quadros desta Santa, principalmente no mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas.

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