800/ A nova cara da ciência

Camila Antunes Com reportagem de Marcos Todeschini para a Veja

Quem são os três jovens brasileiros que aparecem na lista dos cientistas mais influentes do mundo

Foto:Nélio Rodrigues/1° Plano

gazzinelli  

O mineiro Gazzinelli criou uma vacina contra a leishmaniose: trabalho citado por 7.500 pesquisadores no mundo todo

Há três maneiras de aferir o grau de relevância de um cientista numa sociedade moderna. A primeira é saber quantos dos artigos publicados em revistas de alto nível acadêmico levam o seu nome. A segunda mede o número de vezes em que seu trabalho aparece citado por outros pesquisadores. Por fim, são contabilizados os mestres e doutores formados sob a batuta daquele cientista. Da combinação desses três medidores surge um poderoso indicador – aplicado em países da Europa, nos Estados Unidos e agora no Brasil – capaz de atestar não só o nível de um especialista e sua obra mas também seu efeito multiplicador.

Um novo ranking revelou que quinze cientistas brasileiros estão entre os mais influentes do mundo, segundo esse critério. Três deles nunca haviam aparecido numa lista desse tipo. Eles chamam atenção pelos feitos científicos, todos na área da biomedicina, e pela faixa etária. Aos 40 e poucos anos, são precoces em um ambiente em que o apogeu se dá, em geral, uma década mais tarde. Por essa razão, despontam no levantamento feito pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o órgão de apoio à pesquisa do governo federal, como expoentes de uma nova geração de cientistas brasileiros.

A pesquisa tomou como base o Scopus, banco de dados com sede na Holanda, que reúne informações de 97 países e armazena 1% dos periódicos científicos – justamente aqueles de maior repercussão internacional. É uma referência mundial.

Foi nesse seleto conjunto de publicações que o veterinário mineiro Ricardo Gazzinelli apareceu no topo, ao lado dos especialistas mais influentes do mundo em sua área: a imunologia.

Pesquisador da Fiocruz e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Gazzinelli está entre os melhores por ter sido o primeiro a desvendar a função de um hormônio na defesa das células contra microrganismos causadores de doenças típicas de países pobres, como a malária e o mal de Chagas. O fato lhe deu fama internacional e perspectiva de utilização prática para algo que consumiu três anos consecutivos de sua vida acadêmica.

Na semana passada, Gazzinelli, cuja maior obsessão é ver sua descoberta transformada em vacinas que previnam as doenças, recebeu a notícia de que o governo federal destinará 4 milhões de reais para a fabricação de uma delas, contra a leishmaniose (espécie de micose profunda). Ele diz: “Produzir conhecimento que traga benefícios práticos às pessoas deveria ser a ambição de qualquer cientista”. É certamente uma prioridade para Gazzinelli e seus dois colegas de ranking, a carioca Patricia Bozza e o mineiro Mauro Teixeira: em comum, as pesquisas dos campeões reúnem credencial básica para tomar o rumo do mercado – há demanda para elas.

São raridade no Brasil. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dimensiona a distância que separa a academia do mundo real. Apenas 7% das empresas no país recorrem à universidade. Nos países da Europa esse número é quatro vezes maior.

Foto:Selmy Yassuda

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A carioca Patricia Bozza, especialista em inflamações: sua meta é formar novos cientistas

Além de uma visão mais pragmática da ciência, há outros pontos que unem o trio revelado no levantamento da Capes – e eles ajudam a esclarecer os caminhos para o sucesso acadêmico.

Primeiro, depreende-se de sua trajetória a lição do esforço (sim, todos varavam madrugadas em laboratórios e começaram a aventurar-se como jovens cientistas ainda na graduação). Os três têm ainda em comum passagens por universidades estrangeiras, o que lhes proporcionou contato com alguns dos melhores especialistas do mundo em suas respectivas áreas. De volta ao Brasil, até hoje eles se beneficiam da experiência.

Eis o exemplo do médico Mauro Teixeira, referência mundial na pesquisa sobre processos inflamatórios, que se graduou na UFMG e fez doutorado na Universidade de Londres. Ele não só mantém vivo o intercâmbio acadêmico com pesquisadores de diferentes nacionalidades que conheceu em sua temporada fora do país – o que claramente o ajuda a distinguir-se da média – como acabou descoberto por empresas estrangeiras.

Foi recentemente contratado por uma companhia suíça para desenvolver um remédio para tratar a arteriosclerose. Ganhará pelo trabalho 120.000 reais, quantia 40% mais alta do que a que recebe hoje por ano como pesquisador da UFMG. Resume Teixeira: “Cientista brasileiro precisa ser contorcionista”.

Os especialistas são unânimes ao afirmar que a ciência brasileira carece de dois fatores básicos para que avance: mais investimento e um sistema de distribuição de verbas capaz de incentivar os melhores pesquisadores.

Na comparação internacional, o Brasil aparece em 37º lugar num ranking que mede quanto cada país gasta com pesquisa: apenas 0,8% do PIB, no caso brasileiro, bem menos do que outros países emergentes, como a Coréia do Sul, que destina à ciência 3% de seu PIB.

O segundo problema é que pesquisadores como Gazzinelli e Teixeira, reconhecidos entre os mais influentes cientistas do mundo, recebem salários semelhantes aos de pesquisadores que, do ofício, só preservam o título. “Para o Brasil se tornar mais competitivo, precisa superar a visão corporativista e atrasada de que o meio acadêmico é uma grande família”, afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os efeitos negativos disso se refletem na produção acadêmica. Embora o país tenha melhorado em alguns dos indicadores, os brasileiros ainda são bem menos citados em publicações de relevo acadêmico do que os pesquisadores de países como a China e a Índia: o Brasil ocupa a 22ª posição nesse ranking.

Foto:Nélio Rodrigues/1° Plano

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O médico Mauro Teixeira: ele conseguiu vender sua pesquisa à iniciativa privada

Nesse cenário, surpreende o fato de a carioca Patricia Bozza ter-se tornado, com apenas 40 anos, uma das mais influentes farmacologistas do mundo.

Formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ela conta histórias típicas da vida de qualquer cientista no Brasil, como os meses em que passou à espera de um reagente, cujo pedido exigiu assinatura em cinco vias, ou os leilões dos quais participou para comprar algumas das máquinas que usa em sua pesquisa. Sobreviveu a tudo com um feito extraordinário no currículo: Patricia desvendou um método para medir o grau de evolução de diferentes tipos de inflamação, fundamental para o diagnóstico e o tratamento de doenças.

Com uma passagem de quatro anos pela Harvard Medical School, nos Estados Unidos, onde completou o doutorado, ela relevou esses e outros obstáculos ao tomar a decisão de retornar ao Brasil. Como seus colegas de ranking, Patricia é menos científica ao explicar sua escolha: “Acredito que a ciência brasileira vá avançar”. Ao divulgarem seus trabalhos e formarem novos pesquisadores no país, Patricia, Gazzinelli e Teixeira dão sua contribuição para isso.

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