802/ Miguel Torga: o desaguar do rio

António Valdemar* para o Diário dos Açores

Completam-se, os 100 anos de nascimento do poeta e ficcionista português Miguel Torga, cuja obra tem como problemática central a busca incessante da compreensão do estar-no-mundo.
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Há poetas e escritores cuja obra e vida passam ignoradas dos seus contemporâneos. Assim aconteceu com o gênio plural de Fernando Pessoa que ainda continua a ser descoberto e redescoberto. Outro exemplo é Camões. Mas existe o contrário. Miguel Torga, à semelhança de Guerra Junqueiro, faz parte dos poetas e escritores que, enquanto vivos, são objeto de todas as consagrações públicas, de estudos de investigação e crítica, nos mais diferentes aspectos biográficos e bibliográficos.

Desde quando se afirma Miguel Torga em plenitude? A trajetória literária começou, em 1928, com o nome civil Adolpho Rocha, num livro de versos com o título Ansiedade (in 8º, 78 páginas, brochado, Imprensa Académica – Coimbra, 1928). Tem capa desenhada por D. Diogo Reriz. Foi a sua primeira obra, com tiragem reduzida e, pouco depois, retirada do mercado. Não é mencionada nas principais bibliografias. Atinge, em leilões e livreiros antiquários, preços estratosféricos: 700 contos (3.491,58 euros), na venda da Biblioteca de Paulo Quintela efetuada em Coimbra e antes do euro entrar em vigor.

Ainda subscrito por Adolpho Rocha e com altas cotações, verificadas no mesmo leilão, destacam-se : Rampa (76 páginas, Imprensa Académica – Coimbra, 1930 – 385 contos, 1.920,37 euros); Tributo (poemas, com retrato de Arlindo Vicente, 43 páginas Atlântida. Coímbra.1931 – 345 contos, 1.720,85 euros); e Abismo (poemas, 27, páginas, Coimbra, 1932. – 650 contos, 3.242.18 euros). Contudo, a poesia de Miguel Torga só ganha amplitude a partir d´O Outro Livro de Job, (Coimbra, 1936) publicado já com o seu nome literário.

Integra-se num percurso, como diria o próprio Torga que é o início de um “longo caminho órfico que principiou por ser vocação irreprimível e acabou por ser penitência assumida”; “um trabalho aceso de muitas horas, muitos dias, muitos anos, o ferro cada vez mais incandescente e o forjador aureolado das chispas que saltam da bigorna”.

O escritor surgiu – também com o nome de Adolpho Rocha – primeiro com Pão Ázimo, (contos, 72 páginas, Atlântida, Coimbra, 1931 – 335 contos, 1.670,97 euros). Publicou, depois, A Terceira Voz, (42 páginas Atlântida, Coimbra, 1934, acompanhado com um retrato feito por António Madeira, pseudônimo de Branquinho da Fonseca). Tinha 27 anos e havia concluído o curso de Medicina. É neste livro de 1934 que passa a assinar Miguel Torga, um nome literário que nunca foi um heterônimo para multiplicar ou esconder a sua personalidade.

Em Torga, o grande prosador da língua portuguesa, tem sido considerado superior ao poeta, embora seja difícil, muitas vezes, separar o poeta do prosador. Na aventura da escrita, cedo alcançou a maturidade: o encontro das harmonias íntimas, na beleza sóbria das linhas arquitetônicas. Algumas das suas obras mais significativas são do fim dos anos 30 e dos anos 40: A Criação do Mundo (1º, 2ºe 3 volumes 1937, 1938 e 1939); Bichos (1940); Diário (1º volume, 1941), Montanha, (1941) e Novos Contos da Montanha, (1944).

Estamos perante um escritor que possui o instinto da língua, a elegância e simplicidade do estilo. Uma escrita – basta ver manuscritos reproduzidos e declarações que fez acerca da criação literária – de fluência elaborada, conseguida sempre com muito trabalho, muita persistência e sofrimento. Mas sem arrefecer a paixão, nem ocultar o sarcasmo.

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São Martinho da Anta, onde Miguel Torga nasceu há 100 anos que se completam – a 12 de Agosto de 1907 -, e em cujo cemitério desejou ficar sepultado, constituiu uma referência contínua, um refúgio para fugir à rotina e à confusão da cidade. Torga nunca se afastou do coração de Trás-os-Montes, “léguas e léguas de chão raivoso, eriçado, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve”; (…) paisagem austera “dos homens inteiros, saibrosos, altos, espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas da terra”. “Nasci” – escreveu no Diário – “para falcão da serra, e não para codorniz de baixio. Nos lavados ares do monte, tudo me excita e os versos nascem às catadupas. Aqui (refere-se a Coimbra) tiro-os a forceps como fetos monstruosos que não querem viver”.

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Era no “reino maravilhoso” que se recolhia e concentrava para aprofundar o grande debate interior em torno das questões teológicas, politicas e sociais e para insistir na urgência de uma sociedade fundamentada nos valores da liberdade e da justiça.

Empenhou-se na oposição ao salazarismo. Fez o que estava ao seu alcance para combater meio século de ditadura, apoiada na Censura e na PIDE e noutros instrumentos repressivos. Recebeu com entusiasmo a madrugada de abril que restituiu as liberdades e pôs termo à intolerância, ao medo e à perseguição. Mas à alegria sucedeu a decepção em face de procedimentos espúrios, vocações totalitárias, novos interesses instalados. Voltou a reclamar, com a mesma coragem, a reposição da legalidade democrática.

Andarilho inveterado, percorreu Portugal de uma ponta à outra. Não se resumiu à paixão de Trás os Montes e uma relação de ódio e amor a Coimbra. Avançou até às praias selvagens, para sentir junto do mar o apelo dos largos horizontes: “Mar! Enganosa sereia rouca e triste!? Foste tu quem nos veio namorar. E foste tu depois que nos traíste”. Sagres proporcionou – lhe um diálogo com os navegadores e as descobertas, a aventura e a coragem, a apoteose e a fatalidade.

Mas transpôs, ainda, os limites do território: “A minha pátria cívica acaba em Barca de Alva: mas a minha pátria telúrica só finda nos Pirenéus”.

“Há no meu peito” – observa noutro passo do Diário – “angústias que necessitam da avidez de Castela, da tenacidade vasca, dos perfumes do levante e do luar andaluz. Sou, pela graça da vida, peninsular”.

Tem a atração do mundo. Faz seus o trajeto planetário de Fernão de Magalhães, a ansiedade perscrutadora dos oceanos, o fascínio das terras achadas: “Ter um destino é não caber no berço / onde o corpo nasceu / É transpor as fronteiras uma a uma / E morrer sem nenhuma, / às lançadas à bruma / a cuidar que a ilusão é que venceu”.

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Trasmontano, português, hispânico e universal, pela sua formação humanista e pelo modo de estar no mundo, Miguel Torga perpetuou na língua e na literatura portuguesa o tempo vivido, a memória geográfica dos lugares, a pulsão dos sentidos, a celebração solar e noturna da natureza humana.

Torga, os Açores e os Açorianos

Torga, desde que chegou a Coimbra nos anos 20, para cursar Medicina teve uma relação direta com muitos açorianos, alguns dos quais como Aurélio Quintanilha (seu professor, de Botânica Médica, nos preparatórios), Álvaro de Athaíde e António de Freitas Pimentel, seus colegas de Faculdade.

Na vida literária conviveu muito de perto com Vitorino Nemésio, antes e depois da Presença e da Revista de Portugal. Aliás o casamento de Torga com Crabé passou, em grande parte, pela relação com Nemésio. Professor em Bruxelas, de André, de língua e cultura portuguesa, quando ali lecionou nos anos 30, Nemésio e sua mulher Gabriela, convidaram-na depois para umas férias na sua casa de Coimbra e aí conheceu Miguel Torga com quem viria a casar e viveu mais de 60 anos.

Por outro lado, Torga no início da sua carreira médica esteve para se radicar nos Açores. Nemésio , em carta, de 6.11.1940, a José Bruno Carreiro recomendou Torga – “pessoa que precisa de ganhar a vida” – para se estabelecer em São Miguel como otorrino. Todavia, José Bruno ponderou que seria melhor Angra pois tinham consultório em Ponta Delgada os drs. Tomás Vieira e José Pacheco Vieira “dois especialistas distintos, das mesmas doenças na mesma terra”, ouvidos, nariz e garganta, restringindo, assim o “campo de trabalho a um terceiro”.

Por isto, Torga não veio para os Açores, nem para São Miguel, nem para a Terceira, fixando-se primeiro em Leiria e, mais tarde e definitivamente, em Coimbra.

Entre outros açorianos com quem conviveu em Coimbra destacam-se além dos nomes que já mencionamos, Raposo Marques, Manuel Sousa Oliveira, Eduíno de Jesus, Jacinto Soares de Albergaria e Vasco Pereira da Costa, este último seu amigo íntimo durante longos anos e distinguido com a primeira atribuição do Prémio Miguel Torga. Sem ser no ambiente de Coimbra podemos acrescentar o jornalista e crítico Jaime Brasil, quando dirigia o suplemento cultural d´O Primeiro de Janeiro; o poeta Pedro da Silveira.

O autor desta nota privou com Torga na casa do Restelo do médico Idálio de Oliveira e na casa da rua Castilho do pintor Guilherme Filipe, muito em especial quando este lhe pintou no fim dos anos 60 ou começo dos anos 70 um segundo retrato a óleo.

De assinalar, ainda, duas visitas de Torga aos Açores (São Miguel, Faial, Terceira) e que permanecem registadas no Diário com notas acerca da paisagem, de usos, costumes e tradições açorianos, entre os quais a passagem de um rancho de romeiros na Ribeira Grande. Mas os textos mais importantes acerca da permanência nos Açores são de 1989. Deparamos com um poema dedicado a Antero, (Âncora) a pretexto do banco, onde se suicidou no Campo de São Francisco; e o discurso proferido no Teatro Micaelense, no âmbito da Presidência Aberta de Mário Soares, e ao receber o Prémio Camões, integrado nas comemorações do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Trata-se, fundamentalmente, de um balanço da sua vida e obra, de um testemunho sobre as responsabilidades do escritor e de uma exaltação à língua portuguesa.

* António Valdemar é jornalista, pesquisador, Membro da Classe de Letras da Academia das Ciências

 

Miguel Torga na Wikipedia

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