832/ Entrevista com Milena Rodrigues, ganhadora do Prêmio Jovem Cientista

avatar_13263_32 O Blogvisão publicou Jovem cientista ganha prêmio com pesquisa que usa casca de banana para remover matérias pesadas da água no dia 26.04.2007, que é uma das matérias mais lidas. Atendendo a diversas solicitações, em especial a de nossa leitora Tatiane Marcolino apresentamos esta entrevista que a jovem cientista concedeu ao Novasinapse.com

foto:www.barueri.sp.gov.br

Perfil da Entrevistada

Nome: Milena Rodrigues Boniolo

Email: milenaboniolo@yahoo.com.br

Entrevista concedida a Alexandre Mello e Daniel Muniz

Consultoria Técnica: Paulo Abrantes (INTEGRA)

Milena Rodrigues Boniolo cursou Química nas Faculdades Oswaldo Cruz. Apesar da juventude, tem posições bastante firmes em relação ao Universo Acadêmico que conhece bem de perto, e a necessidade da academia rever suas relações com a Indústria, os Setores Produtivos e Sociedade em geral.

Reconhecida como pesquisadora de talento extraordinário, MILENA recebeu em maio/07 o Prêmio Jovem Cientista, edição 2006, na categoria graduados, com o trabalho “Uso da casca de banana para tratamento de efluentes radioativos”, que faz parte de seu projeto de mestrado desenvolvido em pesquisa no Centro de Química e Meio Ambiente do Ipen.

1- Sabemos que os aspectos quantidade e qualidade da água estão relacionados, podendo haver escassez mesmo em condições onde a água é abundante. No chamado primeiro mundo, é crítico o tratamento de efluentes industriais. No terceiro mundo, o problema dos efluentes domésticos. Qual a importância de avançar nesse conhecimento para a conservação dos recursos hídricos e dos ecossistemas e quais as perspectivas para os próximos anos?

Milena: A qualidade da água interfere diretamente na qualidade de vida de uma população. Veja o exemplo das doenças de veiculação hídrica e seu crescimento. O país economizaria e MUITO na área da saúde se investisse na melhoria da qualidade das águas. Para os próximos anos, acredito que o Brasil precise sair das “ilhas de conhecimento”, conhecidas como UNIVERSIDADES e possa tornar as idéias um negócio.

Isto é, precisamos sair do mundo das idéias (de Platão) e partir para a ação.

O que as pesquisas científicas de caráter estritamente acadêmico mostram-nos é apenas uma impressão da realidade quântica e problemática que está ao nosso entorno.

Torna-se cada vez mais útil ter idéias, fazer pesquisas e aplicá-las, como um ciclo que teria a capacidade de fornecer ao nosso país competitividade tecnológica. Parece, infelizmente, que paramos na etapa da pesquisa!

Muitas universidades ainda têm caráter mais acadêmico que tecnológico. A indústria e os centros de pesquisa parecem fazer parte de uma verdadeira TORRE DE BABEL, cada um em sua ilha com seus prazos e linguagem próprios.

Para que migrem menos cérebros brasileiros é preciso que existam mecanismos de interligação entre Empresas e a Universidade e que hajam incentivos para este tipo de sociedade.

2- Você considera que hoje, além da falta de cultura de valorização científica desde as escolas, falta cultura ao empresariado, no sentido de investir nas pesquisas desde a sua origem, na academia, contribuindo para as soluções ao invés de correr atrás apenas de “bater metas” de produtividade? Muitos consideram a biodiversidade tropical, por exemplo, uma mina inexplorada, a céu aberto? Que idéias e soluções são possíveis vislumbrar para esse quadro?

MRB: Mais uma vez a forma de trabalhar da Academia e da Indústria são totalmente diferentes. Muitos pesquisadores estão bem em suas rotinas, sem pressão ou cronograma. Sua rotina resume-se em publicar alguns artigos e ir a alguns congressos.

Já no setor privado existem metas, prazos e cronogramas. Alguns pesquisadores fogem deste tipo de trabalho porque se torna mais cômodo permanecerem no menor nível energético. Os que gostam de desafios e os assumem ainda são minoria dentro da Universidade, infelizmente!

A pesquisa deve ter aplicação prática senão, para que tanta pesquisa? Para fazer um pôster e pendurar em um congresso que poucos frequentarão?

Na verdade, hoje a mentalidade no Brasil assemelha-se em, alguns aspectos, a rotina de bombeiros, apagando o fogo, atuando na remediação. Sem prevenção e educação, o custo se torna muito elevado.

A biodiversidade tropical tem sido alvo até de propostas como a internacionalização da Amazônia, o que sou contra. Países desenvolvidos exploraram toda sua biodiversidade e agora que não têm mais nada a ser “explorado” querem a nossa Amazônia.

O Brasil não explorou. Mais que isso, vem “detonando” toda a Amazônia por falta de recursos financeiros e de consciência ambiental. Se nossa farmácia tropical for estudada de forma sustentável, não haverá problema algum. O que não pode ocorrer é a plantação de soja, desmatamento (gado ou madeireira) e queimadas.

3- Em termos de aplicação prática do conhecimento científico, segundo sua experiência universitária e docente, qual a proporção existente hoje de pesquisas focadas na solução de problemas ecológicos, digamos, cotidianos, sobretudo no Terceiro Mundo? A ciência ainda esbarra na política?

MRB: Existem trabalhos de extrema qualidade realizados por pesquisadores brasileiros, comparados aos do primeiro mundo. Mas, o retorno que muitos gostam de receber não é da aplicação do estudo realizado em questão, mas sim em ter seu trabalho publicado em uma revista científica de Qualis A e ponto.

O pesquisador é julgado e qualificado por sua produção e participação em eventos e periódicos, então faz o que lhe é pedido. Deveriam avaliar os pesquisadores também pela questão da aplicabilidade e do custo do projeto, o que já seria um grande começo.

Volto a criticar a postura cômoda de alguns pesquisadores. O jovem pesquisador com ousadia nem sempre é bem recebido nas academias, não tem o perfil necessário e muitas vezes é absorvido por indústrias multinacionais que assolam mais ainda o nosso país como subdesenvolvido.

Existem inúmeros trabalhos preocupados com questões ecológicas atuais, que acabam indo parar nas bibliotecas com o final da dissertação ou da tese.

4- Em sua opinião, como o meio acadêmico vê a força das pequenas comunidades de aprendizagem (virtuais ou não), no sentido de espaços para discussões abertas de conhecimento enquanto fator de desenvolvimento humano, digamos, na contramão da banalização tradicional proposta pela Redes de Mídia de Massa e pela Indústria Cultural?

MRB: Deveria haver um programa “Por dentro das universidades”, sei lá! O espaço ainda é curto, fala-se mais em pseudo-ciência que em ciência. A mídia mais alarma que informa.

Para citar um exemplo, quase todos sabem o que é aquecimento global, mas ainda pensam que as gerações futuras é que sofrerão. Que no cotidiano não tem como nós ajudarmos em nada. Que as autoridades precisam fazer alguma coisa e frases do tipo.

Entrando na questão comercial, pode-se questionar sobre o que é rentável exibir numa capa de revista. Quais são os valores que norteiam nosso país? Pra que tanto espaço para escândalos e celebridades “sem cérebro”?

5- Em quatro meses, um Blog iniciante, com um autor que se dedica a escrever assuntos sérios, publicando artigos a cada dois dias, em média, pode chegar a 15 Mil acessos. São milhares de pessoas impactadas, refletindo numa rede de interatividade, a partir de um epicentro formador de opinião. Como você avalia este potencial? E complementando, você tem Blog? Porquê?

MRB: Ainda não tenho blog, falta de tempo. Mas estou a pensar em criar um. Trata-se de uma importante fonte de informação e capacidade de divulgação.

6- Não se pode mais teorizar apenas em como a Educação muda as Comunidades mas, em acréscimo, em como as Comunidades mudam a Educação. Você concorda com este argumento?

MRB: É uma pena, mas muitas escolas tratam seus alunos como clientes. São os alunos que ditam o horário de entrada e saída das aulas, se vão ou não utilizar uniformes, se o professor trabalhará na instituição no próximo ano letivo, dentre outros.

O professor, dentro deste contexto, perdeu seu valor. Mas muitos esquecem da profissão fundamental que é ser professor. Preparar mentes para o futuro é fantástico, é como educar filhos. Se um professor falhar, a sociedade falhará junto com ele !!!!

A atividade de um professor reflete nas inúmeras esferas da sociedade.

Devemos, claro, resgatar valores culturais das comunidades, respeitar e bio-regionalidade e trabalhar os conteúdos escolares contextualizados.

E assim, a educação auxilia na melhoria de qualidade de vida das populações ao entorno das escolas, como exemplo, com feiras culturais, palestras, eventos artísticos, enfim, a escola (educação) deve contribuir para a melhoria das características das comunidades ao seu redor, deve atuar como agente expansor de conhecimento.

7- Poderia comentar sobre a questão da supersimplificação, onde pessoas acham que ao plantar uma arvorezinha no fundo da escola ou no grupo de escoteiros, só no Dia Mundial do Meio Ambiente, estão contribuindo com alguma coisa?

MRB: Realmente, a maioria das pessoas só lembra do meio ambiente na semana do meio ambiente, ou quando assistem desastres ecológicos junto à TV. Acreditam que o meio ambiente é algo separado de SUA vida. Cuidar da natureza é antes de tudo, cuidar de si próprio.

Quando me preocupo com a contaminação de algas por metais pesados na água penso em mim também. Se existem peixes trocando de sexo por presença de hormônios na água isso interfere diretamente em minha vida!

8- Para fazer o contraponto, a tendência oposta seria a da superestimulação, onde se introduz na mídia a estratégia do pânico, com o chamado “ecoterrorismo”, travestido de conscientização ecológica, fazendo reportagens catastróficas, talvez com a intenção de vencer pelo cansaço. Como equilibrar essa questão?

MRB: A culpa não é apenas da mídia. A população parece “sedenta” por desgraça. Caso contrário não haveria tantos jornais e revistas sensacionalistas.

É muito simples culpar grandes veículos de comunicação da mesma forma que culpamos o governo, o prefeito ou a diretora da escola. O que eu faço da informação?

Eu, por exemplo, levo toda semana um recorte de jornal para ler, esclarecer e debater com meus alunos, inclusive junto de outros professores.

Mesmo nos jornais respeitados há visões errôneas e devemos (principalmente os professores) preparar as mentes do futuro para os questionamentos. Muitos acham que porque está publicado na Folha de São Paulo é verdade. Se o presidente aprovou o biodiesel, então é porque é maravilhoso. Ou ainda que se um cientista da NASA falou, então tá falado.

Os jovens precisam aprender a analisar as informações circundantes da mesma forma que analisam a vida dos participantes dos reality shows. Os professores têm função essencial de formar cidadãos críticos e não passivos e vulneráveis à massificação.

9- O cinema e os documentários podem ser o caminho mais eficaz para a compreensão definitiva, sobretudo em camadas mais populares, da relação dinâmica indivíduos-meio?

MRB: Acho que sim, desde que sejam filmes e documentários atraentes, que não expressem diretamente a opinião do diretor, mas que levem á reflexão!

Uma questão importante: Deve-se dar respostas ou devemos mostrar diferentes opções, com diferentes riscos e custos? O cidadão precisa aprender a escolher o que para sua cultura parece ser o melhor caminho.

10- Como as Universidades têm se colocado diante da clivagem Economia – Ecologia e como reverter esse quadro (antes que ele acabe conosco)?

MRB: Acredito que nas Universidades a viabilidade econômica deva ser tão avaliada quanto os aspectos técnicos e teóricos da idéia. Pesquisas brasileiras deveriam solucionar problemas nacionais. Isso é tão óbvio!

Hoje, trabalhar a favor do meio ambiente gera lucro. Já existem ferramentas como a gestão ambiental, a ecoeficiência (*) e a contabilidade ambiental (que converte atitudes ambientalmente corretas em valores monetários).

Mas aqui, além de problemas como as superpopulações, esbarramos na questão do consumismo. Torna-se difícil não querer trocar de celular, computador ou carro diante das inúmeras “facilidades”. E a sucata eletrônica gerada é enorme!

Quer uma boa notícia: Um jovem cientista, Hugo Veit (Vencedor em terceiro lugar na categoria graduado deste ano do Prêmio Jovem Cientista) está estudando o problema.

(*) Conceito de ecoeficiência: Ecoeficiência é obtida pela produção de produtos e serviços competitivos, de modo a satisfazer as necessidades humanas com aumento da qualidade de vida, enquanto se reduz os impactos ambientais adversos e o uso dos recursos naturais durante todo o ciclo de vida do produto, em consonância com a capacidade da terra.

Sete dimensões da ecoeficiência:

  • Reduzir a intensidade do uso de materiais em produtos e serviços;
  • Reduzir a intensidade do uso de energia em produtos e serviços;
  • Reduzir a dispersão de produtos tóxicos;
  • Permitir/estimular a reciclabilidade dos produtos;
  • Maximizar o uso sustentável de recursos renováveis;
  • Estender a durabilidade dos produtos;
  • Aumentar a intensidade dos serviços.
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3 comentários sobre “832/ Entrevista com Milena Rodrigues, ganhadora do Prêmio Jovem Cientista

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    I don’t understand why I can’t join it. Is there anyone else getting identical RSS problems?
    Anyone who knows the answer can you kindly respond?

    Thanks!!

  3. Chico Lopes, boa noite, tudo bem?

    Sou o editor do Nova Sinapse, co-autor da entrevista com a Milena. Estou organizando algumas estratégias de SEO no meu site e, apesar de ver que este blog está inativo, estou passando aqui apenas para agradecer o respeito pelo link, mas pedir que coloquem a URL integral da entrevista original.

    Se houver a referência corretamente, o Google não despreza indexação de conteúdo duplicado, e todos ficamos felizes.

    Disseminação de conhecimento é sempre bem vinda, com elegância melhor ainda 😉

    Abç Alexandre

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