860/ O perigo que vem do céu

por MARCELA BUSCATO para Época

Foto: AFP

clarkchapman

O pesquisador americano Clark Chapman afirma que é hora de começar a olhar para o céu com mais atenção.

Para o astrônomo, as agências espaciais estão negligenciando a descoberta de asteróides, corpos que circulam pelo Sistema Solar e podem se chocar com a Terra.

O impacto de um pedregulho desses poderia causar um tsunami maior que o ocorrido no Oceano Índico, em 2004, que provocou a morte de 230 mil pessoas.

O problema, afirma Chapman, é que nenhum país pensou seriamente ainda em como deter as pedras que vêm do céu.

Época – Nós estamos seguros?

Clark Chapman – Não. Não estamos usando telescópios suficientemente potentes para detectar todas as ameaças à Terra.

Há quase uma década, a Nasa, a agência espacial americana, tem um programa para identificar asteróides com mais de 1 quilômetro de extensão. Boa parte deles já foi encontrada e sabemos que eles não vão colidir com a Terra. Mas agora precisamos nos preocupar com asteróides menores, com 100 metros a 300 metros de largura. Eles são muito mais freqüentes. O risco de colidir com a Terra é maior.

Época – Qual é o risco?

Chapman – Pode ocorrer em média uma vez a cada 10 mil anos.

As possibilidades são realmente pequenas, mas o risco de morrer em um acidente de avião também é. A maior parte das pessoas voa com segurança o tempo todo, só que, quando uma aeronave sofre um acidente, muitas pessoas morrem de uma só vez. Vocês, brasileiros, viram isso recentemente. O perigo do impacto de um asteróide é desse tipo.

Época – O que ocorreria em uma colisão?

Chapman – A maior parte da Terra é coberta por oceanos, onde é mais provável que um asteróide caia.

Rochas de 200 metros ou 300 metros podem causar um tsunami com um raio de destruição maior que aquele que aconteceu no Oceano Índico, em 2004. Se um asteróide de 100 metros cair em uma cidade, poderá destruí-la.

A velocidade de impacto seria 20 vezes maior que a de um avião. A força da explosão seria maior que a de qualquer bomba nuclear já testada.

Se um asteróide de 100 metros caísse numa cidade, provocaria uma explosão maior que a de qualquer bomba nuclear já testada

Época – Por que a Nasa não procura os asteróides menores?

Chapman – O Congresso americano pediu à Nasa que fizesse outro programa, desta vez para procurar esse tipo de asteróide.

Mas ela disse que não vai fazê-lo porque não tem dinheiro. Segundo a agência, seria preciso US$ 1 bilhão para construir um novo telescópio na Terra e lançar outro, espacial.

A Nasa exagerou nos custos. Já há telescópios sendo construídos, mas para estudar as estrelas e as galáxias. Eles também poderiam ser usados para procurar asteróides por apenas US$ 10 milhões por ano.

Época – Por que a Nasa e o governo americano dão pouca importância a essa busca?

Chapman – A Nasa está envolvida em muitas atividades para seu orçamento.

Precisa construir um substituto para o ônibus espacial, levar astronautas novamente à Lua e enviar ao espaço missões robóticas.

O governo americano está preocupado com terroristas, e não com desastres naturais. Provavelmente, não está nem formalmente ciente do perigo do impacto de um asteróide.

Os governos também não ficam muito contentes em encontrar novos problemas para tentar resolver com o dinheiro dos impostos. Além disso, outros países precisam ajudar.

Época – Quais países poderiam ajudar?

Chapman – Há agências espaciais com grande capacidade, como a japonesa, a chinesa, a européia e a russa.

Também ajudaria se países como o Brasil manifestassem interesse em participar. O Brasil tem um território extenso, o que aumenta seu risco.

Época – Quais são as estratégias para evitar um possível choque?

Chapman – A melhor opção é usar uma técnica equivalente a um empurrão gravitacional.

Uma grande nave seria lançada e se aproximaria do asteróide. Por causa da interação gravitacional entre eles, a órbita do asteróide seria ligeiramente modificada e ele sairia da rota de colisão.

Não seria necessário nem tocá-lo. Essa é a beleza da estratégia. Qualquer outra técnica envolve interação com a superfície do asteróide e nós não temos conhecimentos suficientes sobre esses corpos.

Época – A Nasa afirma que usar uma bomba nuclear seria a melhor estratégia.

Chapman – Para mim, essa postura da Nasa é apenas uma indicação de que ela não quer que as pessoas levem o problema a sério.

Usar armas nucleares assusta a opinião pública. Fora que a explosão do asteróide poderia originar inúmeros fragmentos que continuariam viajando em direção à Terra. Usar uma arma nuclear seria aceitável apenas se detectássemos um asteróide muito grande e não tivéssemos tempo para agir.

A bomba seria detonada perto do asteróide para que a superfície dele “fervesse” e funcionasse como um foguete propulsor, tirando-o da rota de colisão.

Época – Hoje, seríamos capazes de usar essas estratégias e evitar uma colisão?

Chapman – Não há agências governamentais ou internacionais que tenham pensado em como responder a tal ameaça.

Também não temos um dispositivo, pronto em uma plataforma de lançamento, esperando para ser usado.

Já temos os elementos tecnológicos desenvolvidos, mas nenhum governo se dispôs a dar dinheiro para construir uma nave capaz de interceptar o asteróide. A vantagem é que, se detectarmos algum deles em rota de colisão, teremos provavelmente algumas décadas para evitar o impacto.

Se tivéssemos 20 anos para nos preparar, seria ótimo. Dez já seria um período curto. Em cinco, seria difícil.

Época – O asteróide Apophis já apareceu nos noticiários com data para se chocar com a Terra: 13 de abril de 2036. Ele realmente oferece perigo?

Chapman – As chances de o Apophis colidir com a Terra em 13 de abril de 2036 são muito pequenas: uma em 45 mil.

O mais importante é que, se existe alguma rocha lá fora que vai colidir com a gente nas próximas décadas, nós esperamos ser capazes de encontrá-la primeiro.

Época – Até que ponto devemos nos preocupar com os asteróides?

Chapman – Nós não estamos seguros, mas esse é apenas um risco a mais em nossa vida.

Dirigir meu carro até o trabalho todos os dias é muito mais perigoso, claro. Mas acredito que monitorar os asteróides e desenvolver tecnologias para evitar uma colisão é o tipo de prevenção que não deve ser negligenciada.

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QUEM É Clark Chapman 
Pesquisador do Southwest Research Institute, no Colorado, Estados Unidos
FORMAÇÃO
Estudou Astronomia na Universidade Harvard e fez mestrado em Meteorologia e doutorado em Ciências Planetárias no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)
PLANOS

À frente da Fundação B612, formada por cientistas, quer promover até 2015 uma missão para mudar a rota de um asteróide. B612 é o asteróide onde mora o Pequeno Príncipe, no livro de Antoine de Saint-Exupéry

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