908/ Diabulimia dá origem a nova ONG

Camila Leporace para o Opinião e Notícia

Combater um transtorno alimentar não é fácil, e muitas vezes não é visto como uma doença, o que o afasta da possibilidade de ser tratado adequadamente.

Outra dificuldade é o custo elevado do tratamento desses distúrbios no Brasil. Com base em todas essas questões foi criada a Associação Brasileira de Transtornos Alimentares – Astral BR, ONG que utiliza a internet como principal meio de comunicação com portadores dos transtornos.

O trabalho teve início no Rio de Janeiro, com a advogada Maria Clara Siqueira Castro, de 27 anos, que viveu um distúrbio alimentar originado do diabetes de que é portadora: a diabulimia.

Dependente da insulina, Maria Clara, frustrada com os efeitos colaterais do hormônio – que lhe causava inchaços e a fazia pesar cerca de quatro quilos a mais em uma semana – deixava de tomar seu medicamento.

Ficava sonolenta e cansada em excesso devido à falta da substância, e voltava a tomá-la assim que percebia que chegara ao limite e que precisava dela se quisesse continuar viva.

Equilibrando-se entre ser infeliz com a insulina ou correr risco de vida sem ela, acabava controlando sozinha os limites de sua saúde.

Da mesma forma que Maria Clara suspendia a insulina por conta própria para se sentir melhor consigo mesma, é comum jovens simplesmente abolirem a alimentação de suas rotinas imaginando que, ao conseguirem um corpo esbelto, obterão sucesso em tudo o que fizerem. A magreza aparece como um caminho para a realização, como se fosse capaz de acabar com todos os problemas.

Na opinião de Maria Clara, o principal motivo para as pessoas embarcarem numa vida de transtorno alimentar seria de cunho emocional, com a colaboração da pressão da mídia e dos grupos de amigos, especialmente influentes na infância e adolescência.

“As principais características (do transtorno alimentar) são a insatisfação com o corpo, obsessão pela magreza e distorção da imagem corporal. Isso vai a tal extremo que a pessoa age de forma a causar danos ao seu organismo.

Eu tinha todas essas características, além de baixa auto-estima, e omitia minha insulina, mesmo sabendo que aquilo estava me matando, no intuito de perder peso”, conta Maria Clara.

O depoimento pode ser comparado ao de portadores anorexia e bulimia – transtornos mais conhecidos que a diabulimia, mas que têm em comum a ação de purgar, ou seja, de evitar que o organismo absorva alimentos. Sem insulina no sangue, o corpo de Maria Clara não podia utilizar os alimentos como fonte de energia e a maior parte das calorias ingeridas se perdiam.

Combatendo os transtornos

O processo de recuperação de um transtorno é longo: primeiro, existe a necessidade de conscientizar a pessoa de que ela está doente.

Em segundo lugar, como conta Maria Clara, ela precisa se convencer de que é necessário avisar à família sobre a doença. Depois disso, ela seria levada a fazer um tratamento. No entanto, depois de resolvidas as primeiras questões e quando a pessoa finalmente começa a se tratar é que começam a aparecer outros problemas.

No caso da anorexia, é difícil convencer a vítima do distúrbio de que precisa recuperar peso, pois ela logo associa o processo ao medo de engordar. Na maioria das vezes, o que acontece é que ela precisa em primeiro lugar chegar a um peso mínimo para se manter saudável e a partir daí começar um tratamento multidiscliplinar, com um psicólogo e outros profissionais.

Maria Clara viajou algumas vezes para os Estados Unidos para se tratar em uma clínica. Enquanto passava por experiências complexas em função de seu transtorno, ela percebia que no Brasil o tratamento para distúrbios alimentares era caro e o assunto, alvo de menos atenção e seriedade do que deveria.

Com a oportunidade de se recuperar e ficar bem, decidiu que assim que pudesse se dedicaria a ajudar outras pessoas a terem também uma chance de receber ajuda para os seus transtornos. E enquanto conversava com as pessoas pelo Orkut e por e-mail ela foi aprendendo a ajudá-las e a aconselhá-las, até conseguir concretizar o projeto da ONG, em julho de 2006.

No momento, o principal projeto da Astral – que por enquanto funciona pela internet, mas busca apoio para construir sede no Rio de Janeiro – é a reunião de médicos de todo o Brasil dispostos a tratar distúrbios alimentares a preços mais acessíveis.

Maria Clara procurou, listou e entrou em contato com dezenas deles, de todos os cantos do país, procurando saber se concordavam em participar de seu projeto.

Muitos lhe responderam positivamente. Agora, ela se coloca à disposição de quem precisa de ajuda para intermediar o contato com esses profissionais e encaminhar os portadores de distúrbios para o tratamento.

Além disso, a Astral oferece diversas formas de contato através de seu site, o que possibilita uma ampla troca de informações e experiências visando apoiar os portadores de transtornos alimentares e lhes fornecer informações que ajudem a se manter bem até que consigam iniciar um tratamento.

Há uma área colaborativa, em que os internautas podem publicar suas histórias pessoais ou artigos relacionados para outros usuários do site terem acesso.

Os e-mails da direção estão disponíveis, além de uma área para contato. Outras formas de relacionamento online serão lançadas em breve, entre elas um chat e um blog que possibilitarão uma troca maior entre os usuários do site.

A diabulimia

O nome dado ao transtorno, que combina diabetes com bulimia, é novo. Mas o distúrbio em si não é: ele foi diagnosticado em portadores de diabetes, especialmente os que têm o tipo 1, na década de 80.

Desde então, vem sendo estudado e se torna cada vez mais conhecido.

Quando as injeções de insulina são suspensas, o nível de açúcar no sangue aumenta e as conseqüências geralmente são ressecamento da boca, perda de peso e, principalmente, a cetoacidose diabética – uma complicação advinda do mau controle do diabetes, que faz com que o corpo consuma a gordura que armazena quando não há insulina para que a glicose seja usada como fonte de combustível, conforme explica artigo publicado no site da Sociedade Brasileira de Diabetes. As conseqüências disso são cansaço físico elevado, náuseas, vômito, desejo freqüente de urinar, sede excessiva, hipotermia, hipotensão e taquicardia.

A anorexia está também associada a esse desequilíbrio.

“A linha entre anorexia, bulimia e transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP) é muito tênue.

Quem tem bulimia pode ter fases de anorexia. Pode ainda ser acometida por um desses transtornos antes mesmo de saber que tem diabetes”, alerta o artigo do site da SBD. 

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