939/ Clássico da Geração Beat completa 50 anos

Wladmir Paulino para o JC OnLine

OnTheRoad

Quantos editores devem ter se arrependido quando Jack Kerouac bateu várias portas atrás de si após ouvir um “não” quando lhes oferecia seu segundo livro, intitulado de On The Road (Pé na estrada, na tradução brasileira)? Todos, provavelmente.

Afinal, a obra que completa 50 anos neste 5 de setembro virou mito há muito tempo, tanto que recebeu, de críticos, estudiosos e admiradores, a alcunha de Bíblia – neste caso, a Bíblia da Geração Beat. Hoje em dia, com Jack morto há quase 40 anos, suas cenas terem sido vividas há seis décadas e o livro ainda vendendo cerca de 100 mil exemplares anualmente, tudo que girou em torno dele virou lenda, real ou imaginária.

A primeira delas diz respeito ao tempo gasto por Kerouac para transpor suas idéias para o papel. Foram nada menos do que três semanas – entre 9 e 27 de abril de 1951 – aditivado por doses cavalares de benzedrina, martelando sua máquina de escrever como um desesperado por até 14 horas diárias na cozinha da casa de sua mãe. Essa habilidade como datilógrafo rendeu um comentário maldoso de Truman Capote. “Isso não é literatura, é datilografia.”

A maneira de Kerouac escrever foi inspirada em seu amigo Neal Cassady, co-protagonista em On The Road e também Visions of Cody, esta considerada a obra de Kerouac de maior fôlego.

Após ler as cartas de Cassady, praticamente uma transposição da fala para o papel, Jack resolveu adotar a técnica para seus escritos. Deixar sempre o primeiro pensamento registrado, sem devaneios, direto na veia.

O pensamento fluindo livre como um solo do jazzman Charlie Parker, ao som do qual a maioria de seus livros foi concebida.

O resultado disso foi batizado pelo próprio autor como “prosa espôntanea”. Os períodos eram longos, verborrágicos, cheios de coloquialismos, gírias e ultra-adjetivados.

Para não interromper sua torrente de pensamento, Kerouac utilizou um rolo de papel de telex na máquina. Escreveu tudo em espaço um e sem parágrafo. O resultado foi um calhamaço de 36 metros de comprimento – alguns sustentam que seriam 40. O poeta Allen Ginsberg, outro pilar da geração beat, chegou a comentar que o texto era impublicável.

No entanto, as seguidas negativas obrigaram o autor a inúmeras tesouradas e novas escritas.

Quando, finalmente, o livro foi aceito pela Viking Press, os editores ainda pediram novos cortes, além de “acrescentarem milhares de vírgulas inúteis”, de acordo com Kerouac.

Os nomes dos personagens também tiveram que ser alterados, já que o escritor utilizou a identidade verdadeira de todos na primeira versão – On The Road é autobiográfico como tudo que ele escreveu.

Mesmo com todos os cortes, do próprio autor ou dos editores, reescritas e reduções, ainda é possível identificar a prosa espontânea em vários trechos do livro, principalmente nas descrições, sejam de paisagens ou pessoas.

Tudo rápido, quase num só fôlego e com uma riqueza de detalhes que só alguém com uma memória acima do normal, como era o caso de Jack, para registrar. Não por acaso, ele também ficou conhecido pelo apelido de Memory Baby (Bebê memória).

O LIVRO

Mas vamos a estória, ou história, se preferirem, propriamente dita. On The Road narra o périplo de dois jovens de costa a costa nos Estados Unidos, com pequeno desvio para o México, entre os anos de 1947 e 1951.

Os protagonistas são Jack Kerouac e o já citado Neal Cassady, no livro batizados de Sal Paradise e Dean Moriarty, respectivamente. Quando Neal/Moriarty, um deliqüente juvenil cheio de energia e que se orgulhara de roubar 500 carros antes dos 20 anos, resolve se tornar escritor, parte de sua Denver natal em direção a Nova Iorque para conhecer Kerouac.

O “ensinamento” de Kerouac/Paradise resumiu-se a uma frase: “Você tem que entrar nessa com a energia com que um viciado se droga.”

A influência maior viria no sentindo contrário, de Neal para Jack. O desejo do jovem escritor de cair na estrada, na época com 25 anos, encontrou em seu novo companheiro o catalisador perfeito.

E a primeira grande viagem de Jack foi sozinho, quando ele resolveu vistar Cassady em Denver, em julho de 1947. Ela é contada em detalhes entre os capítulos 2 e 9 de On The Road.

Como todo marinheiro de primeira viagem que se preza, ele sofreu inúmeras agruras nesta primeira empreitada. Tomou uma chuva torrencial numa estrada praticamente vazia, na qual os raros carros que passavam temiam levá-lo; perdeu dinheiro, teve que voltar ao ponto de partida e quase trocou a aventura por um ônibus direto para Denver – e bem mais caro.

No meio das outras três viagens descritas no livro, quase sempre com Neal ao volante – Jack odiava dirigir e jamais tirou carteira de motorista – os dois, sozinhos ou acompanhados por amigos e/ou amantes de ambos ou apenas de Cassady fazem de tudo: reduzem a destroços o cadillac de um ricaço que os contratara para levá-lo de Denver a Chicago, viajam num calhambeque caindo aos pedaços comprado por Neal, cujas portas eram presas por uma corda; dão carona em troca de gasolina e ganham carona em troca de favores (homo)sexuais – essa seqüência foi suprimida da versão que veio à luz do dia e consta apenas no original, a ser lançado pela Viking, em comemoração ao jubileu de ouro do livro.

O livro fala de liberdade, de juventude e não se submeter aos valores impostos por uma sociedade dita “careta”.

Ao criar uma nova forma de narrar, Jack estava não apenas prestando uma homenagem ao amigo que tanto o influenciou, mas tentando mostrar ao mundo que a grande viagem do homem é para dentro de si mesmo, por mais que isso possa parecer contrário ao que é narrado no livro.

A estrada pode ser encarada apenas como uma metáfora para busca de algo que não se encontra estático em algum lugar. O grande lance do autor não era chegar, e sim ir, como ilustra bem um diálogo entre Sal/Kerouac e Dean/Cassady:

Dean: – Temos que continuar indo sem parar até chegarmos lá.
Sal: – Mas para onde estamos indo, homem?
Dean: – Não sei, mas temos que ir.

CRÍTICA

Embora tenha sido acusado de subliterato pela maioria dos críticos, foi justamente a primeira – e positiva – resenha do livro que o alçou ao estrelato.

Gilbert Millestein, renomado crítico do New York Times, classificou On The Road como uma “genuína obra de arte” e Jack como principal avatar da Geração Beat. Do dia seguinte em diante, nunca mais a vida de Jack e de muita gente seria a mesma, já que seu livro foi considerado como um guia para os hippies e todo espírito rebelde que dominaria a juventude na década seguinte, embora Kerouac nunca tenha se sentido atraído por tal grupo. Se for visto desse prisma, o autor e sua obra deflagraram uma verdadeira revolução comportamental.

Só para reforçar essa tese, foi baseado nele que muita gente cometeu vários desatinos após a leitura: Jim Morrison, vocalista do The Doors, leu o livro pela primeira vez aos 15 anos e em seguida fugiu de casa. Bob Dylan também fez o mesmo. John Lennon também declarou seu amor por On The Road. No Brasil, talvez a maior influência tenha sido em Cazuza, cujo título da canção Só as Mães São Felizes é um verso de Kerouac.

Mesmo com tanta adoração, o escritor e poeta jamais teve o reconhecimento devido em vida.

Além de ser considerado um artista menor conviveu com o monstro que se tornou On The Road. Seus livros subseqüentes eram sempre comparados ao “original”. A primeira obra lançada, The Town and The City, foi praticamente jogada no esquecimento.

Somente a partir da década de 1980 a história começou a mudar e o homem que morreu com míseros US$ 91 no banco hoje vale mais de US$ 5 milhões.

O Autor

foto: Divulgação/NYT

kerouac

A quantidade de adjetivos usados para definir Jean Louis Lebris de Kerouac, ou simplesmente Ti Jean (algo como Joãozinho para os brasileiros), é quase infindável.

Ele mesmo denominava-se como um “solitário, católico, louco e místico”. Allen Ginsberg, poeta de primeira grandeza e um dos grandes amigos de Kerouac foi até mais além que o próprio romancista: “bonitão, romântico, sombrio, condenado, insano…”

E ele era, realmente, tudo isso e muito mais. Jack era o típico pisciano: sonhador ao criar imagens sobre si mesmo desde a infância, dono de uma tendência atávica a se apaixonar – e desapaixonar – e uma sensibilidade aguçada para descrever paisagens e pessoas.

Todo esse caldeirão de sentimentos foi entregue em 23 livros, todos eles autobiográficos e nos quais Jack despejou não apenas sua saúde física – escrevia movido a benzedrina e álcool – mas também toda sua sanidade.

Mas isso aconteceu muitos anos depois daquele 12 de março de 1922, dia em que ele veio ao mundo, na cidade de Lowell, Massachusetts, cinco anos depois de Gerard e três depois de Caroline, seus irmãos mais velhos. Os pais chamavam-se Leo e Gabrielle. Até os seis anos ele só falava o joual, uma espécie de dialeto franco-canadense, que remontava às suas origens.

O primeiro trauma veio cedo, com a morte de Gerard, aos nove anos. Durante toda vida, o futuro escritor levaria consigo a imagem de um irmão santificado. Mesmo assim, sua infância transcorreu como a de qualquer outra criança da Lowell na década de 1920: brincadeiras com os amigos, leituras de revistas em quadrinhos e matinês de cinema. As primeiras grandes mudanças surgiram com o fim da escola secundária, aos 16 anos.

Ela resultou em sua primeira viagem para longe de Lowell – a partir daí sua vida seria feita de idas e vindas até o fim.

O destino foi a Horace Mann Shcool, uma escola preparatória para rapazes, em Nova Iorque, com uma bolsa de zagueiro de futebol americano. Suas boas performances despertaram o interesse de duas universidades, Boston e Columbia. Ele escolheu a segunda opção e mal sabia que ela mudaria sua vida para sempre.

Jogar futebol foi o que ele menos fez em Columbia, em 1940. Culpa de uma perna quebrada e mal curada. Ao invés disso relaxou nos estudos e ficou em segunda época.

Alistou-se na marinha mas retornou ao campus logo em seguida, quando, em 1942 conheceu uma jovem chamda Edie Parker. Ela o introduziu na sua rede de amigos, entre os quais destacavam-se o já citado Allen Ginsberg, Lucien Carr e William Burroughs. Estava formada a  trindade da Geração Beat (Kerouac, Ginsberg e Burroughs).

A vida de Jack a partir daí degradou-se totalmente, ao menos sob a ótica de sua família.

O estudante tímido de Lowell agora bebia alucinadamente e experimentava sexo e drogas sem qualquer pudor ao mesmo tempo em que alimentava ser o maior escritor da língua inglesa depois de Shakespeare e James Joyce.

Na primavera de 1946, com a morte de seu pai, ele iniciou sua primeira aventura. Decidido a expurgar seus constantes embates com Leo, que não aceitava a vida desregrada do filho além de não compartilhar com seus sonhos literários, iniciou a redação de The Town and The City, segundo o próprio Kerouac ” a soma, a substância e a m… de tudo por que passei em toda essa maldita vida.”

Foi no meio dessa turma que Kerouac batizou sua geração como Beat. A primeira vez que ele ouviu a palavra foi pela boca de um heroinômano de carteirinha chamado Hebert Huncke, que aparece em On The Road sob o nome de Elmo Hassel.

Ele a utilizava para descrever seu estado de exaustão. “Man, i’m beat  (cara, estou quebrado). Outros significados: furo (jornalístico), batida, ritmo (musical). Mas o que levou mesmo Jack a associá-la foi o radical de beatitude. “A Geração Beat é, acima de tudo, uma geração santa”, diria o escritor.

Esse despertar levou Kerouac a entregar-se como nunca ao seu ofício de escrever – que ele acreditava ser sua missão na Terra. Os textos saíam aos borbotões – Os Subterrâneos, por exemplo, foi escrito em apenas três dias. Os Vagabundos Iluminados, Visions of Cody e Tristessa são alguns dos diamantes lapidados com os quais ele nos presenteou num período extremamente curto – foram 20 livros em 15 anos, de 1946 a 1961.

Nessas obras pode-se vislumbrar os dois personagens do autor: o vagabundo errante, amante de mulheres exóticas de Os Subterrâneos, Tristessa e On The Road; e o homem solitário, amargurado por ser tomado como subliterato e melancólico de Big Sur, Desolation Angles (Anjos Desolados) e Lonesome Traveller (O Viajante Solitário).

Foi esse Jack amargurado que ganhou o mundo após o boom publicitário de On The Road.

Introspectivo e romântico demais para lidar com a fama e a incompreensão dos críticos, ele caiu de vez no vinho barato, rompeu com seus amigos da geração beat e viu sua criatividade ir pelo ralo.

Após Big Sur (1961), ele só voltaria à ativa em 1968, com Vanity of Duluoz (Vaidade de Duluoz).

Nesse ritmo, Kerouac trancou-se em casa com sua mãe e a mulher, Stella Sampas, bebendo sem parar, vendo televisão o dia inteiro e odiando cada parágrafo de On The Road, o livro responsável por sua glória e danação.

No dia 21 de outubro de 1969, uma terça-feira, o escritor trancou-se no banheiro para vomitar, o que já fazia com certa freqüência. Stella notou algo estranho e chamou uma ambulância.

Uma cirurgia e 26 transfusões de sangue não acabaram com a hemorragia estomacal que o matou naquele mesmo dia. Foi enterrado em sua Lowell, a cidade que nunca o abandonou. Estava com 47 anos.

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