971/ O escritor fala do menino-soldado

 

capitaohaddock3 O Blogvisão publicou 571/ Obra revela a difícil tarefa de conjugar presente, passado e sonhos terríveis, do escritor Ishmael Beah, agora publicamos uma pequena entrevista concedida por ele à Folha de São Paulo. Vale a pena conferir!

Muitolongedecasa 

FOLHA – Qual era a tática utilizada pelas forças em guerra para aliciar crianças como você?

BEAH – Um dos fatores necessários é que tenha sido destruído tudo o que a pessoa conhecia. O segundo é a coação. Eles não estão lhe dando uma escolha de entrar para o grupo. Se você não entrar, você morre.

Eles lhe dão todos os tipos de droga e você também fica traumatizado por ser exposto a tantas mortes violentas. Fazem você assisti-los matando como uma maneira de torná-lo cúmplice dessa loucura e forçam você a fazer as mesmas coisas horríveis. A vida se torna somente isso. Até o ponto que o grupo se torna a família para você.

FOLHA – Como você se sentiu ao ser resgatado pelo Unicef?

BEAH – No começo eu estava muito triste e irritado. Todos estávamos. Com toda a lavagem cerebral, eu passei a acreditar que eu fazia parte daquele grupo, até o fim. É preciso muito trabalho para desfazer a lavagem cerebral.

FOLHA – Como foi visitar Serra Leoa no ano passado?

BEAH – Foi muito bom estar de volta, ver amigos, primos. Mas foi difícil ver o que a guerra fez, os estragos, os resquícios dela. E também ver um monte de jovens que não têm o que fazer com suas vidas. Essas coisas me deixaram bastante triste.

FOLHA – Por que você decidiu escrever o livro?

BEAH – Eu já participava de encontros na ONU nos quais eu contava minha experiência. Mas aí eu percebi que nunca era o suficiente. Eu queria escrever algo e colocar um aspecto humano.

Porque em geral, quando as pessoas falam desses lugares, elas falam como se todos naquele país sempre tivessem sido loucos e violentos. Que aquilo nunca foi um país antes da guerra. Eu queria mostrar aos leitores como a humanidade foi tirada das pessoas durante a guerra.

FOLHA – Você visitou recentemente o morro do Vidigal, no Rio. Há uma semelhança da situação das crianças envolvidas com tráfico de drogas no Brasil com a que você viveu em Serra Leoa?

BEAH – Mesmo que nas favelas do Brasil não seja uma situação de guerra como era no meu país, as razões que levam as crianças a fazer esse tipo de coisa são muito similares.

Você cresce em lugares onde não há opção. Não existe uma oportunidade econômica e a violência se torna uma opção. É como quando, na guerra, você perde sua família, perde tudo, e você não tem nada o que fazer da sua vida. As pessoas o podem manipular facilmente; eu acho que é a mesma situação

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